Estão terminados os azulejos que fiz para uma capela Manuelina, em Sintra e que irão colmatar cerca de vinte lacunas integrais existentes no altar. Pediram-me que entregasse as réplicas apenas em chacota, uma vez que os originais do séc XVI se encontram com inúmeras falhas de vidrado e também com zonas em que este se encontra já muito gasto – e pareceu-me correcto. E cá estão elas, devidamente escacilhadas e enchacotadas.
ESTRELA
Estive a modelar e a moldar um protótipo para executar apenas 22 réplicas deste azulejo maravilhoso do séc. XVI, com uma estrela relevada e 8,6×8,6cm e 2cm de espessura – tão simples e tão lindo! Tenho muita sorte por peças destas me passarem pelas mãos e mais ainda por alguém estar disposto a pagar-me para eu ter este privilégio e fazer o que gosto. Foram-me pedidas apenas as chacotas, uma vez que os originais se encontram com inúmeras falhas de vidrado, as quais possivelmente irão apenas ser consolidadas, mas não sei se resisto a não vidrar e pintar uma delas.
SÉC. XVI
Estou bastante satisfeita: a semana passada foi-me adjudicado um trabalho de manufactura de réplicas de azulejos – lindos! – do séc. XVI, para uma Capela Manuelina; o que resta de um antigo convento em Sintra. Como sempre, o tempo não é muito e pedem-me urgência na entrega das réplicas; mas contra factos, não há argumentos: os azulejos maiores, 60 unidades de 15x15cm, têm 2cm de espessura, o que até não é muito se pensarmos que as cantoneiras, de 25cm de comprimento, têm 3. De modo que, só na secagem, prevejo umas três semanas pelo menos e isto esperando que o tempo se mantenha ameno. Para já, grande azáfama aqui na oficina, na produção de chacotas – as mais grossas que já fiz.
1900
Consegui finalmente fazer uns azulejos Arte Nova que me agradem. Depois de duas tentativas falhadas – na primeira utilizei o barro errado e foi um fartote de chacotas empenadas e partidas durante a cozedura; na segunda, mudei para o barro correcto, mas foram os vidrados que me correram mal e foi um fartote de peças cheias de defeitos. Parece que agora, após um ano, algum entulho e uma quanta despesa, lá consegui atinar com a técnica da coisa.
Isto de se aprender com os erros é uma chatice, mas pronto; o trabalho compensa. Estou satisfeita e tenho peças novas que vou tentar vender não sei bem onde.
FECHOS DE ABÓBADA
Já não me lembrava destes fechos de abóbada em barro refractário que fiz há bastante tempo para a loja do Mosteiro dos Jerónimos – na verdade, foi de lá que me perguntaram por eles, que “até se vendiam bastante bem”. Acho estranho não me lembrar deste pormenor/maior – mas se eles o dizem, eu acredito e não perco nada em confirmar. Para já, vinte a aguardar secagem.
ARESTA-VIVA
Em Julho passado tive uma pequena encomenda de trinta réplicas de azulejos brancos para colmatarem algumas lacunas existentes numa parede de uma casa linda nas arribas frente a Lisboa. Aparentemente os azulejos são banais e para quem conheça a azularia portuguesa, esta patronagem mourisca em aresta-viva até é bastante vulgar; a questão é que parece já não se encontrar à venda no mercado chacotas industriais com 3mm de espessura e que meçam 14x14cm como as dos azulejos originais.
Tive de fazê-las à mão e depois de algumas experiências de cor, vidrei-as de branco.
GEOMETRIA
Decidi retomar o meu antigo projecto de construção de Relógios de Sol em barro refractário, começado talvez há uns três anos e abandonado pouco tempo depois – umas e outras coisas que se foram metendo pelo meio e também algumas dificuldades técnicas não só com o gnómon, mas também com o facto de na altura ter criado dois tipos de mostradores horizontais quando queria era mostradores verticais. Baralhei-me, pronto e na altura aquilo chateou-me.
Bom, retomei então o projecto; decidi ver as coisas pelo lado positivo: pelo menos já tenho dois modelos horizontais. E mais algumas ideias para os verticais. Continuo ainda a ter de resolver a questão do gnómon e a de compreender geometria.
SETEMBRO
Estive mais uma vez em mudanças aqui na oficina, mas agora grandes e mais elaboradas. A ideia, que já vinha de há muito tempo, era rentabilizar a zona de trabalho mantendo aproximadamente a mesma área de ocupação. A coisa não era fácil, pois para além de arrumação junto às paredes, precisava ainda de uma zona central onde estivessem as bancadas, a mesa de lastras e ainda um armário óptimo, com tampo de pedra e que nem sequer aqui estava antes, mas do qual não quero abrir mão. Enfim, basicamente tratava-se de meter o Rossio na Rua da Betesga e se ficasse funcional – convinha que -, seria ainda melhor.
Durante cerca de três dias fartei-me de fazer esboços, tirar medidas, riscar o chão, pensar, pensar, tirar novas medidas e as mesmas outra vez; pensar dia e noite (que neste tipo de coisas não consigo desligar); até que finalmente encontrei a solução – e foi a mais óbvia, a mais simples e a mais brilhante, a melhor de todas, apesar de não ter sido simples chegar a ela.
Fiquei tão entusiasmada que, apesar de ser tudo pesadíssimo, resolvi tentar ver se conseguia mudar sózinha as coisas de um lado para o outro – impossível estar à espera da ajuda de alguém! Primeiro: a bancada em L. Ok, não era assim tãão pesada, só comprida e mal jeitosa e tinha mesmo de ser desencostada da parede e ir para o meio da sala, portanto puxa deste lado, arrasta daquele; empurra daqui outra vez, repete tudo de novo. Boa. Segundo: o forno grande; aí umas quatro vezes o meu peso – mas com rodas, o que sempre facilita. Puxei com toda a força uma das pernas, mas não se mexeu. Depois empurrei-o directamente com as costas, mas pouco adiantou. A seguir fiquei a olhar para ele durante algum tempo e a suar em bica. E depois, nem sei bem como, lá o fui puxando e empurrando aos poucos, esquerda, direita, esquerda, direita, sempre aos ésses pequeninos até o meter no canto da janela. Boa! O mais difícil já estava. Terceiro: o taipal, de madeira maciça; depois do forno grande parecia uma pena e arrastá-lo para a parede oposta foi facílimo. E depois tudo o resto; estantes, material de enforna, caixas com barro e com isto e com aquilo, pacotes de vidrado, tudo arrumadinho.
Finalmente veio a minha amiga Paula Hespanha mais a sua maquinaria e grande técnica de serralheira mecânica e muito prontamente transformou-me a bancada em L; cortando o ferro aqui, soldando esta perna ali e já agora mais esta ainda ali – para ficar mais resistente.
A oficina parece outra. Ainda falta mudar o tal armário preto, com tampo em pedra, mas não há pressa. De repente fiquei cheia de vontade de começar a trabalhar.
QUEIMADORES DE ÓLEOS ESSENCIAIS
Aqui há uns tempos tive uma encomenda de um Spa para fazer uns queimadores de óleos essenciais. Confesso que a minha ignorância sobre o assunto era grande – para não dizer total – mas foram-me dadas algumas directrizes sobre o que era pretendido: a taça deveria ser relativamente grande, a fim de conter uma boa quantidade de óleo que não queimasse demasiado depressa; o vidrado deveria ser de tom branco e o logotipo deveria aparecer a vermelho. A forma ficaria ao meu critério.
Fiz quatro modelos e agora que finalmente tenho os meus dois fornos de volta, consegui por fim acabá-los. Estes são os protótipos que eu escolhi, 100% feitos e pintados à mão. E amanhã vou mostrá-los.
OSSOS DO OFÍCIO
Tenho andado em maré de azar: para além do forno pequeno, companheiro de há quase vinte anos de andanças e fornadas estar avariado há cerca de seis meses e a máquina fotográfica dizer-me que tem o cartão cheio quando este está completamente vazio; agora também o forno grande se avariou. Para agravar a situação, metade da minha última produção de placas relevadas foi feita em barro refractário negro, cujo pacote estava há que tempos junto com os outros de barro normal – e que eu já nem me lembrava da sua existência -, cuja cor só se consegue diferenciar depois da cozedura. Como foi nesta fornada que o forno se avariou, as placas, para além de negras, ainda ficaram um bocado empenadas, devido à sobre-cozedura a que foram submetidas.
Resumindo: agora tenho várias placas relevadas negras e empenadas, mais uma série delas mescladas de tonalidades várias e também empenadas e apenas umas quantas que mais ou menos lá conseguiram escapar a estas misturas mas que também estão demasiado cozidas para eu poder dizer que estejam bem e poder entregá-las na loja do Mosteiro dos Jerónimos.
Concluíndo: lá terei de abrir os cordões à bolsa para mandar arranjar pelo menos um dos fornos e a máquina fotográfica; comprar mais uns 100Kg de barro e ainda mais uns comprimidos para a memória. E depois produzir tudo de novo e pensar sobre o que fazer com estas peças todas que agora só ocupam espaço aqui na oficina.









