ENCOMENDA

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Aqui há uns dias pediram-me um orçamento para executar um painel cerâmico segundo um projecto específico. Trata-se de um painel com características diferentes das habituais: a superfície será curva e por isso as peças cerâmicas – azulejos? – num total de 48, estão divididas por 4 tipologias de tamanhos diferentes, todas de grandes dimensões.  Para fazer o orçamento  e conseguir visualizar a coisa, optei por simular uma das peças – a da série maior, com 22x20x23cm – uma vez que tudo isto é novo para mim e tenho de quantificar bem todos os pormenores referentes à execução: tempos necessários para a manufactura, controles de secagem, coeficientes de retracção, nº de fornadas, vidrados, quantidades de materiais, impressão dos desenhos e embalagem. Trata-se de um desafio que tenho todo o gosto em aceitar; são este tipo de trabalhos que me permitem pôr à prova os conhecimentos que já tenho  e também aprender coisas novas – assim a encomenda vá para a frente.

CAMINHO

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Finalmente estão secas as primeiras provas da nova produção azulejar que comecei a fazer este ano. O tempo passa mais depressa do que eu gostaria e às vezes queria que o trabalho aqui da oficina andasse ao mesmo ritmo que ele, embora repita constantemente para mim mesma – e a experiência faz-mo sempre ver – que depressa e bem não há quem. Fazendo o balanço deste ano, agora que estamos em Junho e tendo em conta que ainda não fui contratada para prestar nenhum serviço desde Janeiro e também que tenho trabalhado imenso em duas produções cerâmicas distintas e lido imenso e feito imensas experiências e aprendido bastante; posso dizer que estou satisfeita.

Já consigo ver alguns caminhos; ideias não me faltam, assim vá a coisa devagar.

CRIAÇÃO

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Ando entusiasmada com a criação de peças novas. Por mais que tente reproduzir modelos anteriores, apesar de cada um ser único, não resisto a experimentar ideias novas – que demoram muito mais tempo a fazer e nem sempre resultam. No fundo servem de protótipos para novas peças  – que eu tenho o péssimo hábito de não fazer projectos – e, mesmo não resultando, servem também para eu perceber o que é que falhou e o que é que eu tenho de aperfeiçoar. E servem também para eu começar a ter a noção do processo de fabrico e complexidade de cada peça, para poder rentabilizar o trabalho mais em série – que o tempo anda mais depressa do que eu.

PARALELO

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Tenho andado a tentar conciliar em paralelo toda a produção cerâmica que quero fazer – a azulejaria contemporânea e as peças tridimensionais. O objectivo é avançar com tudo ao mesmo tempo, lenta e calmamente, de modo a que nenhuma das tarefas se torne cansativa ou repetitiva – mas não está a ser fácil.

Primeiro, como sempre, quero ver tudo pronto em três tempos – como se tivesse algum tipo de encomenda de alguma coisa!; segundo, estou a trabalhar com dois materiais totalmente diferentes e incompatíveis – faiança e barro refractário; que é como quem diz, barro branco e barro refractário, no mesmo espaço e ao mesmo tempo: algum deles acaba por ser contaminado pelo outro e, claro, é o branco o mais afectado. Ainda não consegui perceber qual é a melhor metodologia, se trabalhar um dia numa coisa e outro na outra; se fazer de manhã  os azulejos e à tarde as taças e trocar no dia seguinte; se fazer dois dias seguidos cada uma delas. De qualquer modo, e para já, parece-me já ter conseguido arranjar um método de trabalho que funciona e também separar as áreas tanto de produção como de secagem – todo este processo tem sido uma aprendizagem bastante útil no que toca ao dia a dia de uma produção cerâmica oficinal e de todas as tarefas que lhe são inerentes e que vão muito além da simples criação artística. E todas têm de ser contabilizadas.

SECOS

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Voltei à minha produção de azulejaria contemporânea , que entretanto ficou parada há uns tempos – antes de eu ir duas semanas para Marrocos e ainda antes de ter começado a fazer novas peças em barro refractário para a loja «A roda da fortuna», em Évora e ainda as experiências de vidrados de alta e baixa temperatura e de pastas coradas e engobes e também os azulejos para a mãe da minha amiga Júlia.

Ia no 8º ou 9º protótipo, não me lembro bem; mas sei que estava muito entusiasmada com a produção – a qual estava a ser chamada de 2013, à falta de nome melhor -, quando decidi fazer uma pausa na criação artística e começar a tirar várias provas de cada exemplar. Neste momento tenho ainda pouca coisa e nada acabada: uns três ou quatro de uns quantos, nenhuns de outros e alguns empenados, que vão já fora, resultado de uma secagem desatenta – para não dizer sem atenção nenhuma; para ali ficaram a secar como queriam enquanto eu estive fora.

Vou tirar pelo menos 16 exemplares de cada um, quero formar pequenos conjuntos para fotografar para o catálogo – e acho que chegam; não me apetece ficar com a oficina cheia de material armazenado. E depois recomeço a fazer os protótipos novos.

PASTAS CORADAS

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Como se já não bastasse a saga que tenho tido com as experiências de vidrados, para efeitos e fins muito diferentes, lembrei-me agora de começar a fazer também testes para pastas coradas e engobes vítreos de alto fogo, que é o que me interessa. Mais receitas, quer isto dizer. Tenho em vista um objectivo muito específico; uma pequena/grande questãozinha técnica que me tem atrapalhado bastante desde que comecei a fazer as peças setecentistas  e cuja resolução faz toda a diferença – pelo menos, a diferença entre continuar a fazer essas peças ou a abandoná-las de uma vez por todas; o que seria uma pena pois aposto mesmo nelas e tenho mais uma série de ideias para umas outras que teriam de ser feitas da mesma maneira. Portanto e, nesse sentido, ando agora a ler uns três livros técnicos em inglês e um outro em espanhol, os quais comprei há mais de vinte anos e que pouco foram folheados – pronto, sempre foi um investimento de futuro. O pior é que não consigo desligar; quanto mais informação tenho, mais penso nisto; sonho com isto. Milhares de receitas na cabeça, alto fogo, alto fogo;  matérias primas, faiança, azulejos, fragmentos de azulejos, vidrados, engobes e fundentes. Já lá vai o tempo em que comecei a fazer umas placas relevadas simples, em barro refractário, cozidas a alta temperatura e baseadas nos baixos-relevos dos monumentos românicos e góticos. Imitavam pedra; eram tão simples. Foi assim que tudo começou.

À MEDIDA

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Acabei de desenfornar os azulejos que me encomendaram para alternarem com estes industriais, de figura avulsa. As chacotas foram feitas à medida e os vidrados, um de cada cor, são a condizer com os tons existentes no resto do conjunto – tal como me foi pedido.

ALTO-FOGO/BAIXO-FOGO

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Continuo com a minha saga de fazer experiências de cor para obter vidrados – de baixo e de alto fogo; uns para um tipo de peças, outros para outro. Na verdade, os que mais me interessam são os de alto fogo, uma vez que se aplicam ao barro refractário com que quero trabalhar; mas, aproveitando que hoje vou fazer uma cozedura de vidrados de baixo fogo, vão também alguns testes junto, sempre se aproveita a mesma fornada. Basicamente são as mesmas receitas, mas aplicadas a dois tipos de vidrados base com composições diferentes. Sempre quero ver no que dá.

TAÇAS SETECENTISTAS

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Estou a terminar as peças para a loja A roda da fortuna, em Évora e que ficaram a meio quando fui para Marrocos. Voltei a pegar na minha ideia antiga que fiz há dois, três anos?, para a feira setecentista de Queluz: criar peças únicas, baseadas na azulejaria portuguesa do séc. XVIII, mas que não sejam azulejos.

Na altura tive algumas questões técnicas que não consegui ultrapassar e agora também tenho; na verdade são ainda as mesmas – de lá para cá meteram-se uma série de trabalhos de conservação e restauro e toda a minha produção e experimentação cerâmica, que ia tão lançada, ficou parada. Agora, aos poucos, tudo recomeça e tenho várias frentes para acudir ao mesmo tempo, o que lá vou conseguindo.