Estou muito satisfeita com as únicas compras que fiz em Marraquexe – utensílios de cozinha: formas para bolachinhas e biscoitos e um rolo da massa que não consegui perceber bem por que é que é estriado. (Lembro-me que aqui há um ano, quando fui a Londres, procurei coisas deste género e nada…). De qualquer modo tenciono usá-los todos em cerâmica; estou cheia de ideias novas que trouxe do deserto. Assim consiga ultrapassar umas questões técnicas que me têm dado água pela barba.
M’HAMID EL GHIZLANE
Observando o mapa de Marrocos, M’Hamid el Ghizlane encontra-se no oásis onde a estrada nacional acaba, a cerca de 65o km a sudeste de Marraquexe; onze horas de autocarro – na melhor das hipóteses – doze ou mais para ser rigorosa. Dali para a frente, que é como quem diz, para todos os lados, está o deserto e quem vai até M’Hamid é por que quer entrar no deserto.
A povoação que vem assinalada no mapa é a nova M’Hamid el Ghizlane. Trata-se de uma aldeia com pouco interesse e muito menos beleza – está construída sob um molde urbanístico qualquer, que não é dali; espraiada à torreira do sol. A maioria das casas são feitas em tijolo de betão, não há árvores nem sombras e é impossível andar nas ruas largas durante as horas de mais calor – que são durante quase todo o dia, todos os dias do ano. Nem mesmo o rio Draâ, ali à sua beira, consegue refrescar o ambiente; o seu leito largo encontra-se totalmente seco (um dó!) e ao que parece a última vez que se viu água por ali foi há dois anos, quando se abriu a represa existente mais acima, perto de Ouarzazate e que serve para alimentar os campos de golf lá construídos. Nas casas da nova M’Hamid passa-se calor e muitos dos seus habitantes, no verão, mudam-se para as casas da família que ainda se mantêm na aldeia antiga e que são mais frescas.
Um dos motivos que levou a maioria das pessoas a abandonar a velha M’Hamid el Ghizlane – a povoação mais importante daquele oásis, porta de entrada e saída das caravanas que vinham e iam para o deserto; entreposto cujo mercado reunia viajantes e comerciantes vindos de todos os lados – foi a inexistência de electricidade e água canalizada, que só agora ali estão a chegar. Outro talvez tenha sido a impossibilidade de circularem carros dentro da kasbah, toda construída em terra- a sua rua principal, a única que se vê em fotografia aérea, apresenta muitas zonas demasiado estreitas e as ruas transversais são como que corredores debaixo das casas; túneis escuros, compridos e frescos, iluminados aqui e ali por poços de luz vindos desde o exterior lá em cima, que acumulam também a função de ventilar cá em baixo. A circulação é feita a pé e de burro (e de motocicleta) e os drawas, os habitantes daquela região que sempre ali viveram e os que ainda ali vivem, estão mais do que adaptados àquela vida – a sua aldeia está sabiamente construída de forma a que ali se possa viver, defendida das amplitudes térmicas radicais que se fazem sentir.
Estive na velha M’Hamid el Ghizlane duas semanas e agora, acabadinha de chegar a Lisboa, parece que me ausentei por uns meses – ainda estou a fazer a agulha. O objectivo da minha ida foi o de participar no III Atelier de construção com terra, organizado pela associação espanhola Terrachidia. A ideia era restaurar a porta de entrada da kasbah, que se encontrava em mau estado de conservação e de preferência envolver a população local na sua recuperação, o que acabou por acontecer. Ali se fizeram adobes e se rebocou com terra. Aprendeu-se a construir em taipa e bebeu-se chá doce – demasiado doce! – nos intervalos, para recarregar as forças. Ali se tentou dizer os érres em árabe, com a garganta. Ali se suou, 40º; comeu-se pó. Muito pó, os olhos a arderem. Mediram-se ruas. Ali se viram noites estreladas sob a brisa morna do palmeiral. Ali se ouviu o chamamento para a oração, couscous à sexta-feira. Ali se subiu à duna mais alta, para ver o pôr-do-sol. Ali se falou e comunicou com a alma, com o sorriso. Cantou-se em francês. Viu-se e viveu-se outra realidade muito diferente, tudo tão forte, muito forte. Riu-se e chorou-se. Ali se está a começar a fazer um caminho. Alhamdulilah.
TALLER DE CONSTRUCCIÓN CON TIERRA EN MARRUECOS
2011 – CENTENÁRIO DA FCUL
Hoje fui à inauguração do painel de azulejos que nos encomendaram para assinalar o centenário da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e que se encontra no edifício do C8, na parede em frente à biblioteca. A cerimónia teve pompa e circunstância – foi descerrada uma placa alusiva ao painel e houve ramos de flores para a Ana Baliza, a autora e para as executantes do trabalho, eu e a Margarida. Estou bastante satisfeita com o resultado e parece-me que eles também.
ENTUSIASMADA
Já percebi que a minha relação com estas coisas da cerâmica é muito instável – tenho dias de grande entusiasmo e outros de desalento. E pronto, de uma vez por todas, não há dias «sem nada para fazer». Há sempre que fazer e os dias sem nada para fazer são para fazer aquilo tudo que não se faz nos dias com coisas para fazer – para evitar correrias e stresses quando de repente acontece alguma coisa; porque nisto da cerâmica, como em tudo, aliás, depressa e bem, não há quem.
Ontem tive um dia desmoralizante: a fornada que tinha feito correu mal e os vidrados dos azulejos que lá estavam ficaram uma vergonha – ainda estou para saber porquê, nas amostras tinham ficado bem. A partir daí só fiz disparates – mais – e acabei por perder um tempo que neste momento não me convinha nada. Saí da oficina a pensar «por que raio é que me meti nisto» e «assim não vale a pena, caramba».
Hoje o dia rendeu bastante: preparei umas trinta receitas de vidrados de alto fogo – dentro em pouco vou cozer as minhas taças, a 1250º, e quero aproveitar a mesma fornada – e fiz dois vidrados novos, para as taças setecentistas, que depois vidrei. E claro, pensei nas imensas ideias novas de tudo o que tenho para fazer.
Estou entusiasmada.
RECOMEÇO
Fui contactada por uma nova loja que irá abrir em Évora agora no fim deste mês, início do próximo. Descobriram o meu trabalho no Castelo de Viana do Alentejo e estão interessados em ter algumas peças de cerâmica minhas para venda. Eu, claro está, também estou interessada nisso. Tenho é muito poucas peças disponíveis; estes dois anos dedicada aos trabalhos de conservação e restauro de azulejos deixaram parada a minha produção que entretanto tinha começado e que ia tão lançada – mas não me desmultiplico (mais ainda) e não me posso esquecer que é da conservação e restauro que tenho vivido nestes últimos vinte anos. De modo que hoje recomecei a fazer as minhas taças em barro refractário, as que fiz para as feiras medievais e setecentistas – já tinha saudades! Mas agora, com Isabel Colher no tardoz.
URGENTE
Estive a pintar uns azulejos marmoreados, a manganês, que me pediram para colmatar umas lacunas num rodapé da escada do Grémio Literário, ali no Chiado. Queria ter feito em chacotas manuais, mas como a urgência era muita – como sempre – acabei por utilizar chacotas indústriais, com cerca de 7mm de espessura. O desenho foi baseado no que já lá existe; apesar de haver uma grande variedade, esta pareceu-me ser a tipologia predominante. E depois de aplicados não se vai dar por nada.
AMASSAR
Hoje estive a amassar barro.
Enquanto não investir numa fieira como deve ser – um balúrdio! – tem de ser assim, à mão. Fico bastante cansada e o pior é que não obtenho assim tanto barro que me permita produzir imenso. Mas pronto; tenho um contentor cheio de sobras de faiança já secas que, recicladas, voltam a estar no estado plástico, prontas a serem trabalhadas; é um disparate não as utilizar – não me posso esquecer que não tenho tido trabalho, portanto o melhor é usar todo o material que já exista aqui na oficina. E assim vai a coisa – aos poucos. Mas vai. E daqui a pouco tempo, o novo mostruário estará pronto.
OFICINA
De novo na oficina.
Com pouca vontade, confesso – este tempo chuvoso, a humidade cá dentro e o facto de passar muito tempo aqui sózinha não me estão a ajudar. Nem escrever aqui me tem apetecido, o que não é normal – mas também não tem acontecido nada.
Enfim; isto vai passar, tem de passar. Tenho de me concentrar nos meus objectivos; este é o ano para semear, o ano certo para semear. Pelo menos foi o que defini na minha cabeça. Já estamos em Abril e não me posso esquecer que praticamente ainda não tive trabalho – trabalho daquele que se ganha dinheiro efectivo; porque, com excepção destes últimos dias, até andava a produzir bastante. Tenho barro para amassar, experiências de vidrados para fazer – de alto e baixo fogo – moldes para encher. E ideias novas, mas cada coisa a seu tempo. Bom, tenho de começar por uma ponta e depois da coisa encarrilar, acho que já não paro.
31
Como previsto, terminámos hoje a intervenção de conservação e restauro dos azulejos da escadaria principal do nº 31 da Rua Ivens, em Lisboa. Com a aprovação dos engenheiros e dos arquitectos responsáveis pela obra. Mais uma vez pude confirmar que a preservação dos azulejos antigos e originais é uma mais valia na reabilitação de um edifício – em muitos casos, talvez seja o único vestígio de autenticidade que se mantém.














