CRUAS

Retomo a minha produção natalícia para o Mercado de Natal enquanto os azulejos do painel da Faculdade de Ciências secam – na verdade, o meu tempo tem sido muito bem rentabilizado; já tinha aproveitado a secagem da minha produção natalícia para fazer os azulejos da Faculdade de Ciências.

As peças em barro refractário já foram a cozer a noite passada e agora trato dos acabamentos nas de faiança – trabalho de sapa, lixar uma série de pecinhas pequenas, mas os acabamentos, toda a gente sabe, são morosos mas fazem a diferença e eu nestas coisas gosto de ser perfeitinha. Estas pensei-as para pendurar; na árvore de Natal, na porta da entrada, onde se quiser; só ainda não sei bem como é que hão-de ser decoradas, mas já tenho uma série de ideias. Mas primeiro tenho de acabar esta fase; se tudo correr bem, amanhã conto encher o forno grande para enchacotá-las – a estas e às mais não sei quantas que tenho já prontas aqui na oficina.

SECAGEM

Terminámos a primeira etapa da manufactura dos 372 azulejos do painel em faiança que estamos a fazer para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Hoje tirámos dos ganapos os últimos 90 que fizemos na sexta-feira e empilhámo-los, tal como os restantes, para a primeira fase da secagem – é que, apesar do frio que se faz sentir na oficina e da humidade que vem do rio, correm o risco de ainda assim, empenarem. E agora é esperar mais uns dias para lhes fazermos os acabamentos finais, depois passá-los para um outro suporte mais arejado e esperar que sequem definitivamente para os podermos enchacotar e passar à fase seguinte. O que era bom que acontecesse lá para o fim deste mês.

A-12

Terminámos hoje a manufactura das chacotas manuais para o painel de azulejos do calendário que estamos a fazer para a Faculdade de Ciências de Lisboa. No último, o A12, correspondente ao dia 31 de Dezembro, esgrafitámos no tardoz o nome da oficina que os produziu – a Tardoz – e os símbolos de quem os executou – Isabel Colher e Margarida Melo Fernandes. Uma gracinha que será encontrada se alguma vez o painel vier a ser levantado da parede.

NOVO PAINEL

Comecei anteontem a produzir aqui na oficina, mais a Margarida, um painel de azulejos para a Faculdade de Ciências de Lisboa e que servirá para assinalar o centenário da sua existência – será inaugurado em Abril de 2013, mas terá de ser entregue até ao fim deste ano. Trata-se de um projecto de uma designer gráfica e que nós iremos não só executar, como também coordenar a montagem e o seu assentamento na parede. O painel representa o calendário e é composto por doze fiadas verticais – os meses -, com trinta e um azulejos cada fiada – os dias; cada dia com um símbolo avulso impresso, ou um azulejo liso a colmatar os meses mais pequenos. No total, 372 azulejos.

Estou muito satisfeita com este trabalho e principalmente com a nova mesa de lastras, oportunamente comprada, que nos permite fazer as chacotas num tempo três vezes mais rápido: a nossa previsão inicial (sem a mesa) de manufacturar um mês por dia, de repente alterou-se para um trimestre diário, ou seja, amanhã acabamos de fazer as chacotas, em quatro dias apenas, em vez dos doze que esperávamos. E o melhor de tudo: sem esforço!

90 BOLINHAS

Tenho andado bastante atarefada com as várias peças que pretendo levar para a feirinha de Natal que vou fazer em meados de Dezembro – já tenho muitas, mas o problema é que quanto mais produzo, mais ideias tenho e mais peças faço; ou seja, isto assim corre o risco de nunca mais acabar e tenho de pôr um ponto final algures. Hoje vou começar a modelar as minhas tacinhas coloridas em barro refractário, que sempre tiveram algum sucesso. E acho que fico por aqui: não me posso esquecer de contar com os tempos da secagem, nem das jornadas a fazer os acabamentos finais e depois de enchacotá-las todas, ainda tenho de vidrá-las, pintá-las e fazer as segundas cozeduras. Mas sem stress; para já, para já, parece-me que está tudo controlado.

MESA DE LASTRAS

Comprei uma mesa de lastras – finalmente! Aos anos que sonhava com uma, mas ainda são carotas e nunca se proporcionou; de modo que lá fui estendendo as lastras de barro com o rolo da massa e dando cada vez mais cabo dos meus pulsos. Bem sei que não estamos em época de investimentos, mas descobriram-me esta em segunda mão (obrigada pela dica, Tiago) e, apesar de já cá a ter na oficina há algum tempo, só hoje é que a montei – e entretanto tenho andado a fazer as lastras com o rolo da massa e a dar cabo dos meus pulsos. Mas é linda! Toda em ferro, totalmente mecânica e manual, nos antípodas do digital – não se liga a nenhum programa, não tem porta USB nem é um I-Qualquer Coisa – mesmo como eu gosto!!!  Até leva massa consistente! Está aqui uma coisa mesmo a sério. Ainda não a experimentei, mas vai já começar a dar um jeitão a partir da semana que vem, quando começar uma produção de um painel cerâmico com cerca de 400 azulejos feitos à mão. E agora só fica a faltar a fieira.

PRODUÇÃO EM SÉRIE

Há coisas que eu dantes – estou a falar de há cerca de uns vinte anos – pensava que nunca iria fazer. E quando, há dois anos, me comecei a aventurar pelos caminhos da cerâmica, em paralelo com os da conservação e restauro de azulejos, ainda mantinha essa mesma convicção, a de que havia coisas que eu nunca iria fazer. Até agora.

Fui convidada para participar numa pequena feirinha de Natal, em meados de Dezembro. A primeira reacção foi recusar – a minha produção cerâmica, que ia tão lançada, tem estado mais parada do que o Mar Morto já há que tempos; os mesmos que têm durado as intervenções de restauro que surgiram entretanto e das quais vivo. E como não consigo desmultiplicar-me mais do que em três ou quatro, está parada; ou seja, praticamente não tenho peças nenhumas.

Depois e uma vez que o ritmo dos trabalhos e dos orçamentos está a abrandar muito consideravelmente, pensei melhor e decidi então aceitar o convite que me foi feito  e participar na tal feirinha – não tenho nada a perder, antes pelo contrário. Ok, muito bem, e com que peças? Toda a gente sabe que as coisas não andam bem para ninguém (pronto, aqui podia fazer uns à partes, mas não é o momento) e não há dinheiro quase para se viver, quanto mais para se andar a gastar em prendinhas de Natal.  Portanto, o segredo é fazer umas peças baratinhas, que a tradição manda sempre oferecer qualquer coisa e as tradições têm muita força. E como é que se podem fazer peças baratinhas, quando o que se produz é 100% manual e artesanal? Baratinhas e, já agora, minimamente apelativas, claro?  É o que ando a tentar perceber e a fazer há cerca de uma semana – apesar de não estar lá assim muito convencida. Mas agora é tarde para voltar atrás.

SACRISTIA

Fui contactada para ir fazer uma intervenção de emergência nos azulejos da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa – quer na zona da secretaria, quer na salinha dos paramentos.

Segundo consta, o culto a Nossa Senhora da Saúde começou em inícios do séc. XVI, época da grande peste. O povo, ao ver que todos os recursos humanos falhavam, recorreu a Nossa Senhora, organizando procissões de penitência em sua honra. Como o número de mortes foi diminuindo consideravelmente, passou a fazer-se uma grande procissão anual de agradecimento à Virgem Maria, a qual passou a ter o título de Nossa Senhora da Saúde.

Em meados dos anos 80, já no séc. XX, a Câmara Municipal de Lisboa mandou construir o Centro Comercial da Mouraria; o que estaria muito bem, não fosse a ideia brilhante de o colar, paredes meias, com esta igreja, mais precisamente com a zona da sacristia. Obviamente que essa construção colocou e continua a colocar em risco o estado de conservação do edifício, quer a nível estrutural quer a nível da incompatibilidade dos materiais. Neste momento, uma das paredes – a tal que precisa de intervenção de emergência – encontra-se escorada e em risco de colapso (e o tecto em madeira também não me parece que se safe) e é claro que os azulejos lá existentes, datados do séc. XVIII, precisam de ser levantados e, para já, acondicionados numa caixa.

Mais uma vez pude constatar o estado a que chegou o nosso património edificado, vítima de incúria, ignorância e asneirada consecutiva ao longo de vários anos, por parte de quem deveria ter conhecimentos, bom senso e capacidade de bater o pé e dizer não! – mesmo que outros interesses mais altos se levantem.

Neste caso, nem a Nossa Senhora lhes valeu.

CINCO

Tenho já cinco provas para as réplicas dos frisos Arte Nova que estou a fazer – preciso apenas de três, mas pelo sim, pelo não, é sempre melhor fazer umas a mais. E acho que ainda vou tirar mais algumas, não me vá o vidrado sair mal.