FACHADA

Alvorada às seis e meia da manhã.

Ontem estive todo o dia com os ladrilhadores a assentar as réplicas que fiz para a fachada do nº 11 em Sta. Catarina. Às oito horas já lá estávamos os três e ainda bem, o trabalho foi bastante moroso e delicado – o prédio é muito antigo, nenhuma parede ou cantaria está de nível e havia muitos cortes a fazer nos azulejos, o que, sem a minha coordenação teria corrido mal. O Sr. Pedro já bufava por todos os lados e por mais que virasse cada azulejo que queria assentar, não havia meio de perceber onde é que tinha de fazer o corte e às vezes quase que nem eu. Entretanto os velhotes de cima não paravam de reclamar que tinham o tecto lá de casa numa miséria e que isso «eles» não querem saber; da janela da frente vinha um som irritante de tiroteio de um desses jogos modernos que agora para aí há; a carrinha tinha de ser constantemente chegada para a frente ou para trás, para poderem passar as da distribuição do gás e dos refrigerantes e o pó que nós fazíamos alastrava pela roupa estendida nos estendais lá da rua.

Mas conseguimos – às cinco e meia da tarde o Sr. Pedro deu o seu trabalho por concluído e eu ainda lá fiquei mais uma horita a limpar a fachada e a varrer a rua da sujidade que nós fizemos – e a outra que já lá estava no chão. Quando saí, fui beber uma mini ao café da esquina.

ESTADO LASTIMÁVEL

Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.

Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.

Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.

ESTUFA FRIA

Está terminada a intervenção de conservação e restauro dos tijolos vidrados existentes no pórtico de entrada da Estufa Fria, em Lisboa. Apesar da satisfação de mais um trabalho terminado, é com alguma pena que se deixa um lugar assim – tão agradável, tão tranquilo e com um cheiro tão bom. Obrigada às minhas colegas Margarida e Sofia, que se empenharam mais uma vez e ajudaram a entregar o trabalho dentro do prazo; sem elas eu não teria conseguido.

No seguimento da nossa intervenção, entra a equipa de conservação e restauro de pedra e depois, se tudo correr bem, é esperar que a Estufa Fria reabra finalmente ao público, agora que as obras de reestruturação da cobertura, que se encontrava em risco de colapso, parecem estar também numa fase bastante avançada.

E quando abrir, aconselho vivamente toda a gente a ir lá fazer uma visitinha.

NIVELAR E RECTIFICAR

Está praticamente terminada a tarefa mais morosa da intervenção de conservação e restauro dos tijolos vidrados do pórtico de entrada na Estufa fria, em Lisboa; faltam apenas nivelar e rectificar um ou dois preenchimentos. Ainda hoje está previsto o início da integração cromática, que em princípio vai ser rápida – assim se encontrem os tons pretendidos; mas, uma vez que se trata de restauro a frio, não me parece que seja muito complicado.

4º DIA DE TRABALHO

4º dia de trabalho na Estufa Fria.

Foram feitas as consolidações e as fixações dos vidrados em destacamento e as juntas estão todas rectificadas. O registo gráfico também já está feito – os tijolos apresentam zonas em muito mau estado de conservação, principalmente aquelas que se encontram mais expostas a oscilações térmicas; existem muitas falhas de vidrado e algumas lacunas volumétricas, com alguma profundidade, que já estão a ser preenchidas. A intervenção está a correr bem – excepto quando falta a água, o que tem acontecido – mas a este ritmo e com alguma calma vamos conseguir acabá-la antes do prazo previsto.

MUFLA DE EXPERIÊNCIAS

Chegou ontem o nosso novo forno, próprio para fazer experiências de cor. Vai dar um jeitão para adiantar os trabalhos de manufactura de réplicas – coze rapidamente e consome pouco. Leva três azulejos de cada vez; com jeitinho, quatro. E já fez a sua primeira fornada: portou-se muito bem.

TIJOLOS VIDRADOS

Foi-me adjudicada a proposta de intervenção de conservação e restauro dos tijolos vidrados existentes no pórtico de entrada da Estufa Fria – um projecto do Keil do Amaral. Como sempre, tratou-se de mais um orçamento feito há algum tempo, que caiu no esquecimento (no meu, pelo menos), sem resposta nem acuso de recepção. Até agora; que, de repente, a urgência é ter o trabalho terminado ontem. Começamos na próxima quinta-feira.

AZUL E BRANCO

Comecei finalmente a produzir as réplicas para o nº 11 a Sta. Catarina – para já, os frisos; 160 unidades, que tiveram de ser todos rectificados, uma vez que as medidas dos azulejos originais já não se fabricam. Depois de algumas experiências de cores – de vidrados e tintas de alto fogo – e aprovação por parte do dono da obra, comecei ontem a pintá-los. São muito simples, em azul e branco. Que é como estes irão ficar depois de cozidos.

ABÓBADA NÚBIA

Neste fim-de-semana que passou – sábado e domingo – participei no módulo prático «Adobo, arcos e abóbadas» da Oficina da Primavera, promovido pela Associação Centro da Terra. Como objectivo (atingido!) tinha-se a construção de uma abóbada núbia, técnica arquitectónica ancestral, proveniente do alto Nilo. Aprendi a fazer adobos e a amassar a argamassa de terra com os pés. E que 80% dos solos são bons para construir com a própria terra. E também o que é um arco de catenária e expressões como «arquitectura monolítica» e «arquitectura de compressão». E no fim pude confirmar uma das vantagens da construção em terra crua: apesar do caloraço que se fazia sentir, lá dentro estava muito mais fresco – sem ar condicionado, nem qualquer consumo de energia.

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