PROBLEMA OPOSTO

De volta ao Museu Militar, agora com o problema oposto: demasiado Sol, demasiada luz e demasiado calor. Tentamos trabalhar de acordo com a sombra; de manhã na fachada Este, à tarde na Oeste. E a partir da 15h, na Norte. A fachada Sul, excepto pequenos detalhes, está terminada. A cola, agora, endurece muito mais depressa e a acetona evapora mais rapidamente. Mas já falta pouco para dar o trabalho por concluído. Muito pouco.

ARRUMAÇÕES

Depois de ter sido completamente apanhada de surpresa com a chuvada de hoje – no telejornal de ontem à noite anunciaram que o sol ia voltar, que as temperaturas aumentavam até ao fim da semana e que chuva, antes de dia 15, não se previa nenhuma -, fiz a agulha do Museu Militar e vim para a oficina. Confesso que estou aqui um bocado perdida; não tenho papelada para tratar, nenhum orçamento para pensar ou relatório para entregar. Já pensei em ir tirar uns desenhos de uns azulejos de uma fachada que preciso para fazer umas réplicas, mas o problema mantém-se – está a chover. E bem. De modo que parece-me que só tenho duas alternativas: ou vou para casa (0 que até seria bem visto, sempre ia fazer o IRS), ou começo a arrumar as coisas por aqui: há bancadas para limpar; frascos, frasquinhos, caixinhas e ferramentas para separar pelas prateleiras e armários, consoante o seu conteúdo – se de restauro ou se de cerâmica -; uns furos para fazer na parede e tralha variada para deitar fora. Isto não querendo falar, claro, nos sete pacotes que comprei há já não sei bem quanto tempo, 90 quilinhos de barro que ali estão à minha espera, empilhados no carrinho de transporte. Se calhar, o melhor será pôr o avental e meter mãos à obra. Mas antes vou aqui ao lado tomar um café e depois pesquisar umas coisas na net.

ESCOLA ANTÓNIO ARROIO

Acabei de chegar da Escola António Arroio, onde hoje fui dar uma palestra. Uma palestra informal, organizada por alunos do 12º ano, dentro da disciplina de Gestão das Artes e para alunos do 12º ano que estão a acabar o ensino secundário e se vêem na iminência de escolher um rumo – muitos deles, se calhar, um bocado perdidos, tal como eu estava quando acabei o 12º ano. Fui convidada na qualidade de ex-aluna da escola e a ideia era falar sobre o meu percurso desde que de lá saí. Tive plateia cheia e a coisa correu bem; mostrei fotografias do meu trabalho e estava muita gente atenta e interessada, houve muitas perguntas e respostas sobre cerâmica e principalmente, sobre conservação e restauro de azulejos. E também sobre os prós e os contras de se ser trabalhador independente. Foram quase duas horas de conversa – que eu não me calo – e acabou com uma salva de palmas. Saí de lá satisfeita e, ao que parece, eles também. Obrigada pelo convite!

PRIORIDADES

Pausa no Museu Militar – com este tempo instável, de aguaceiros, vento e frio, é complicado trabalhar ao ar livre, principalmente quando os materiais que utilizamos reagem mal à água e demoram muito mais a secar.

Tenho aproveitado para vir para a oficina; trabalho por fazer aqui não falta e eu não sou do género de ficar em casa. Gostaria de recomeçar a minha produção cerâmica, mas a coisa não está fácil; acabo por gastar o tempo (dispersar-me, segundo o meu colega Loubet) com outras questões que, ao fim e ao cabo, também são prioritárias: papelada para organizar, compras para fazer, e-mails para responder e orçamentos para pensar – e escrever. Têm-me chegado às mãos algumas propostas que me interessam, principalmente para manufactura de réplicas de azulejos, e, se é verdade que a maioria delas fica em águas de bacalhau, também é verdade que estou a conseguir aperfeiçoar mapas de fornecedores, tarefas, horas e preços, cada vez mais descriminados e exactos, que servem de base a facilitar futuros orçamentos. Enfim, um trabalho de sapa – mas alguém tem que o fazer.

BARALHADA

Confesso que estou a ficar baralhada com as previsões meteorológicas. Aproveitando a deixa que hoje iria chover – o que me pareceu normal, depois do dia de ontem -, avisei a minha equipa para ninguém ir para o Museu Militar e fui, carregada com o meu guarda-chuva, ver um trabalho para o qual fui contactada. Trata-se de uma pequena fachada em azulejos, a precisar de restauro, num pequeno prédio lisboeta, a precisar de uma pequena intervenção – enfim, um trabalho à minha escala.

São agora três da tarde e ainda não choveu, o que me deixa levemente enervada. Digo a mim mesma que tomei a melhor opção em ter parado o trabalho por hoje, que os painéis estariam todos molhados à mesma; mas a verdade é que estas paragens desorganizam a minha metodologia de trabalho com os meus colegas. Bom, para já, posso começar a fazer este novo orçamento, que convém entregar o mais rapidamente possível. E para amanhã, amanhã se verá.

PAINEL A PAINEL

Depois de todos termos visto o boletim meteorológico ontem à noite, decidimos que hoje ninguém vinha para o Museu Militar; supostamente ia chover o dia todo – o que afinal acabou por não acontecer. Nestes últimos dias temos andado a trabalhar e a parar constantemente, o que, vendo bem as coisas, acaba por interferir não só no ritmo de trabalho, como no material que se desperdiça e principalmente, naquilo que se faz e que se arrisca a ter de fazer novamente.

De qualquer modo, a intervenção avança dentro do previsto; aos poucos as inúmeras manchas brancas dos preenchimentos vão desaparecendo e a integração cromática vai sendo dada por terminada – azulejo a azulejo, painel a painel, ala por ala. Já percebi que o prazo que eu tinha estipulado para terminar o trabalho não vai ser cumprido, mas, se o tempo ajudar, espero dá-lo por concluído em meados de Maio.

MODO SECRETÁRIA

Hoje tirei o dia para estar na oficina, em modo Isabel-secretária. Com o trabalho no Pátio dos Canhões a decorrer em grande força, tenho tido muito pouco tempo para tratar de alguns assuntos que estão pendentes há já algum tempo – na verdade, há mais do que aquele que eu gostaria. De uma vez por todas,  consegui escrever o relatório da intervenção no 88 e seleccionar também todas as fotografias que melhor o ilustram; respondi a dois ou três e-mails relativamente importantes; espreitei a previsão do tempo para amanhã e depois de amanhã no Accuweather Lisboa; preenchi uma factura e um recibo; telefonei várias vezes para o Instituto de Medicina Tropical sem nunca ter conseguido falar com ninguém da tesouraria; confirmei a previsão do tempo para amanhã no Meteo.pt; fui à Gebalis pagar a renda deste mês que já ia bem atrasada e espreitei – na diagonal – o monte de documentos, assim deste tamanho, que me enviaram para a elaboração de um orçamento, daqueles chatos de se fazerem e que provavelmente depois nunca virão. Ainda olhei para as minhas peças de cerâmica, ali tão quietinhas onde as deixei pela última vez, mas agora é impossível pegar-lhes – com muita pena minha.

Amanhã volto para o Museu Militar, mas antes de sair, quero ainda confirmar no WindGuru – que me disseram ser muito bom – se se prevê realmente céu muito nublado e ocorrência de aguaceiros para amanhã.

PRIMAVERA

  

Primavera em Lisboa.

Finalmente temos uma estação como deve ser, à maneira antiga; como aquelas Primaveras que eu me lembro de quando era pequena – uns dias estava sol, outros chovia, ou então estava frio depois de uns dias de calor e assim se andava durante três meses, enquanto o clima fazia a sua transição do Inverno para o Verão seguinte. Tudo bem compartimentado em trimestres muito definidos.

Continuamos a nossa intervenção nos painéis de azulejos do Pátio dos Canhões. Com esta Primavera típica, a coisa vai um pouco mais devagar do que eu gostaria: ou está uma caloraça e não se consegue trabalhar ao sol; ou passa-se para a sombra e faz imenso frio ou está a chover e os azulejos ficam molhados e a integração cromática, com pigmentos aglutinados em cola não se conseguem fazer. Como seria de prever, já houve uma ou duas baixas na equipa e começo a pensar que deveria fazer a manutenção da nossa caixa de primeiros socorros com alguns analgésicos e anti-piréticos.

EQUIPA REFORÇADA

    

 

Não fosse a chuva de hoje, que nos obrigou a interromper o dia e estaríamos sete – contando comigo – a trabalhar nos painéis do Pátio dos Canhões, no Museu Militar. A equipa foi reforçada para esta etapa final que, se correr bem, tenciono que acabe daqui a um mês. Há muito trabalho pela frente e bastante moroso: entre inferiores e superiores, faltam preencher ainda alguns painéis e sobretudo, fazer a integração cromática em quase todos. De momento a equipa está dividida equitativamente entre tarefas – eu vou dando uma maõzinha onde for preciso e rectificando pequenos pormenores que foram deixados para trás -, mas para a semana mais duas pessoas transitarão para a pintura. E penso que assim todas as frentes estarão cobertas – até surgir uma estratégia melhor.

MOSAICO HIDRÁULICO

Na semana passada fui contactada pelo Sr. Joaquim que me pedia ajuda sobre o que fazer com uns azulejos em mau estado que tinha num chão de uma casa antiga, em Setúbal. Estranhei logo o facto de se tratarem de azulejos – à partida, no chão, seria pouco provável; mas a azulejaria portuguesa é tão rica que imagino que haja ainda muita coisa que eu nunca tenha visto.  Como a minha disponibilidade tem sido muito pouca ultimamente, perguntei-lhe se ele me fazia o favor de me enviar algumas fotografias; ao que me respondeu que teria todo o gosto nisso,  não fosse o pormenor de não o saber fazer. Pensei logo para comigo como o compreendia – eu própria sou quase analfabeta nisto das novas tecnologias.

Acabei por ir a Setúbal no fim-de-semana – aproveitando a deixa do passeio e de um bom peixe para o almoço. E não me arrependi: o Sr. Joaquim era uma simpatia; a casa, com quase cem anos, era linda e os azulejos, tal como eu desconfiei logo, afinal tratavam-se de mosaicos hidráulicos.