DUAS SEMANAS

Faz hoje duas semanas que recomeçou o assentamento dos azulejos lá no 88 e resolvi parar o trabalho pela segunda vez: ou são as paredes que ainda não existem; ou é a solução esperada há dois meses sobre a melhor forma de se assentarem os azulejos no Aquapanel, uma vez que a argamassa tradicional destaca-se com facilidade e o cimento cola está fora de questão; ou ainda o chão que está torto e tem de ser nivelado; ou os tectos que têm de ser montados em Pladur; ou as portas de correr que nem sequer vão andar, ou…. Já para não falar nos belos remates que os estucadores, tão jeitosos, fazem a eito por cima dos azulejos, deixando as superfícies vidradas todas sujas e que a minha equipa investiu algum tempo e esforço para as deixar totalmente limpas na fase anterior – o que eu agora me recuso a fazer de novo. Sou organizada; ok, talvez até demais, mas acredito que só com algum método é que se consegue fazer este trabalho, principalmente quando se trata de assentar cerca de 6000 azulejos, com mais de cem anos, divididos por vários painéis e por vários andares. Neste momento, o 5º piso está com duas paredes por terminar, que ainda não se podiam fazer e passámos para o 4º, onde só duas salas estavam disponíveis. Sugeriram-me então passar para o 3º, mas aqui a confusão ainda é maior e não arrisco a mandar vir mais não sei quantos caixotes de azulejos, que sistematicamente são passados de um lado para o outro, sabe-se lá por que mãozinhas de ouro e assim iria seguir a coisa por ali abaixo, com pontas soltas por todos os lados. E, provavelmente, a minha sanidade mental também.

LINO ANTÓNIO

Acabei de chegar à oficina, coisa que não tenho feito ultimamente. Fui esta manhã ver este painel lindo, de 1958, da autoria de Lino António e que precisa de uma intervenção de emergência. As placas cerâmicas do lado esquerdo começam a destacar-se da parede, que está em muito mau estado e muitas delas já se encontram fracturadas e com pequenas lacunas e falhas de vidrado. São também já visíveis algumas eflurescências salinas que saem pelas superfícies de junta e também alguns escorrimentos calcáreos. Vou agora fazer dois orçamentos; um para esta primeira fase de levantamento das peças em risco e abertura de todas as juntas e o outro para o assentamento e posterior restauro, que aconselhei ser feito apenas depois uma intervenção a fundo na parede e no terraço, que, pelos vistos, são a origem do problema e sem a qual, todo o tratamento do painel terá sido em vão. Assim haja dinheiro para tudo…

DE VOLTA AO 88!

Tal como estava previsto, arrancou na quinta-feira passada o assentamento dos azulejos lá no 88. Tal como estava previsto, a confusão lá no prédio é total. Tal como estava previsto, a obra está atrasada. O que não estava previsto – e aqui ainda me consigo espantar com a minha ingenuidade ao fim de tantos anos de experiência -, era o 5º piso ter tanta gente a trabalhar ao mesmo tempo, quando me tinham prometido que aquilo iria estar pronto para nós e que iria estar tudo limpo para se poderem montar os azulejos no chão e colocá-los na parede sem nenhuns problemas. Mas não; para além de haver entulho e material por todo o lado, o pessoal do pladur andava ainda a construir paredes e tectos, os carpinteiros serravam madeiras e colocavam prumos novos e ainda passava pessoal de um lado para o outro, carregado com baldes de cimento, telhas e sub-telhas. Isto para não falar na poeirada que por ali andava, nem na chuva que às tantas começou a entrar pelo telhado (ou pela falta dele)  e nem na quantidade de rabos que tive de ver, de todas as formas e cores, sem que me pagassem mais por isso. Claro que várias vezes tive de montar painéis no chão e tornar a desmontar; claro que várias vezes tive de gritar «cuidado com os azulejos!», apesar de não me ligarem nenhuma e claro que tive de esperar que partissem uma ou duas paredes que já estavam muito bem estucadinhas até abaixo, sem que ninguém se tivesse lembrado que ali, afinal, levava azulejos. Claro que rapidamente comecei a bufar e a ficar irritada e a usar o meu melhor vernáculo; não é fácil trabalhar num prédio em obras, principalmente quando se é a única mulher no meio de, sei lá, uns 40 homens – trolhas, ainda por cima. Claro que na sexta-feira à tarde saí de lá a pensar que deveria aproveitar os saldos e comprar urgentemente uns sapatos de salto alto, ou algo do género que me fizesse sentir mais feminina no fim-de-semana. Mas isso, infelizmente, não estava contemplado em orçamento.

IGREJA DE STA. LUZIA

Não há fome que não dê em fartura: mais um orçamento que me foi solicitado; agora para os painéis de azulejos da fachada lateral da Igreja de Sta. Luzia, aqui em Lisboa, para entregar até dia 2 de Setembro. Ontem enviei finalmente o do Sr. Roubado e agora ando aqui às voltas para perceber em quanto é que este vai ficar. Tudo isto, claro, entre coordenar os trabalhos do Museu Militar e os do 88, que arrancam amanhã. E mais reuniões e telefonemas e contas e mais contas e facturas para entregar e recibos para receber, com Iva e sem Iva… Ufa, estou uma verdadeira mulher de negócios; eu, que sempre fui medíocre a matemática.

ORGANIZAÇÃO

Está tudo preparado para se recomeçarem os trabalhos no 88. Ontem fui com as minhas colegas Inês e Margarida (excelente equipa!) ao armazém da Tranquilidade, onde estão guardadas todas as caixas com os azulejos que saíram das paredes e, em cerca de duas horas e pouco conseguimos separar todos os painéis pela ordem dos pisos onde agora irão entrar: para o quinto, todos do quinto, mais uns do terceiro e outros do segundo; para o quarto, alguns do quarto, mais alguns do terceiro; para o terceiro, alguns do terceiro, mais uns quantos do segundo; para o segundo, muitos que já eram do segundo e para o primeiro, que não tinha azulejos, vários do segundo e um ou outro do terceiro. Sem esquecer aqueles que de início não estavam contemplados serem levantados das paredes, mas que afinal sempre saíram. E pondo à parte aqueles que não vão voltar para lado nenhum e que irão ficar em armazém à espera de melhores dias. Enfim, no total, cerca de 1750 azulejos, encaixotados e que nós as três andámos a separar e a transportar de um lado para o outro e que deixámos organizados com etiquetas para não haver confusão quando os trolhas os forem lá buscar, piso por piso.

AOS TRÊS, É DE VEZ!

De volta à oficina e aos trabalhos que tenho entre mãos, depois de duas semanas a banhos fora de Lisboa, numa tentativa falhada de relaxar e não pensar em assunto nenhum. Graças à minha equipa, a intervenção no conjunto azulejar do Pátio dos Canhões continua a bom ritmo e tenho tudo preparado para recomeçar os trabalhos de reassentamento dos azulejos no 88. De resto, ainda não parei; com reuniões e trabalhos futuros – não percebo o que é que está a acontecer, mas têm-me sido pedidos vários orçamentos, os quais tenho de despachar com alguma rapidez, alguns dos quais bastante complexos. Ontem fui ver o conjunto azulejar do Sr. Roubado, para o qual vou fazer um orçamento pela terceira vez, esperando que seja desta que o trabalho vá para a frente e confiando na sabedoria popular que diz que aos três, é de vez.

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Ontem fui ao Mosteiro de Alcobaça levar a minha peça para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que irá inaugurar a 24 de Setembro; o prazo de entrega terminava hoje, imagino que tanta antecedência seja para se ter tempo de fazer o catálogo. Confesso que fiquei um pouco preocupada quando a deixei lá empacotada no chão de uma sala, juntamente com outras que já ali estavam – aquelas pernas são muito frágeis e supostamente a peça vai ser manuseada algumas vezes, tanto para ser fotografada, como para depois ser exposta da forma que eu pedi. Enfim, espero que seja tudo gente cuidadosa; o melhor é tentar não pensar muito neste assunto.

OBSESSIVO/COMPULSIVO

Entrámos na terceira semana de trabalho no Museu Militar. O mapeamento dos painéis inferiores com o registo do estado de conservação dos azulejos está todo feito; os preenchimentos de falhas de vidrado e pequenas lacunas com argamassas inadequadas foram todos removidos – excepto os do painel Ei -2, que eram tantos e tão rijos, que a tarefa é mais morosa e só se faz com a ajuda do vibroincisor -; o biocida está aplicado em todas as fachadas e as juntas estão a ser rectificadas a bom ritmo. Enfim, entre sombra e sol (e chuva ontem!), a minha equipa demonstra mais uma vez ter boa capacidade de trabalho e de organização, e as fachadas Este, Sul e Oeste avançam todas em paralelo, mais depressa do que eu previa. A fachada Norte, a mais problemática, está à espera do Loubet e do Ivo, que vêm directamente do Pinhão, sem passar pela casa da partida, nem receber os dois contos, para levantar integralmente todos os azulejos existentes, que se encontram em péssimo estado de conservação e muitos em risco de destacamento. Graças a esta parede, a minha função nos últimos dias tem sido a de agrupar e organizar fragmentos, numa tentativa obsessiva de encontrar, identificar e aproveitar o máximo de azulejos originais, antes de apurar o número de réplicas exacto que será necessário fazer-se. A coisa não é fácil e muito menos óbvia, os fragmentos são separados por uma lógica qualquer, que passado um bocado é substituída por outra que parece melhor e depois mais outra ainda; mas a verdade é que aos poucos, aos poucos… está quase tudo encontrado!

SELECCIONADA!

MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:

Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.

A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.

A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.

O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.

Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.

AZULEJOS SOLTOS

Faz hoje uma semana que começámos a intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões, no Museu Militar. Apesar de ainda ser cedo para balanços, o trabalho corre a bom ritmo: as quatro fachadas foram identificadas por Norte, Sul, Este, Oeste e os registos gráficos dos painéis inferiores estão já todos prontos – cerca de 15 por cada uma. Eu tenho andado entretida a fazer quebra-cabeças com os azulejos soltos que caíram ou foram retirados in-extremis e que me foram entregues em caixas com pouca ou nenhuma marcação; numa tentativa de montar as zonas que faltam nos painéis da fachada Norte, a que apresenta mais problemas de conservação e consequentemente também grandes lacunas azulejares. A coisa não é fácil, mas aos poucos lá vai e neste momento já estão montadas três grandes zonas. E amanhã passo àquilo que eu chamo de cacaria…