CARREGAR / DESCARREGAR

Começou a intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, em Lisboa. Há três dias que não faço outra coisa senão ir comprar materiais – carregar o carro; ir à oficina – carregar o carro; ir ao Museu militar – descarregar o carro; ir comprar mais materiais – carregar o carro; voltar ao Museu Militar – descarregar o carro; voltar à oficina. Se tudo correr bem, daqui a cinco meses terei de fazer tudo de novo, mas em sentido inverso; ou seja, ir ao Museu Militar – carregar o carro; ir à oficina – descarregar o carro; voltar ao Museu Militar…

MUSEU MILITAR

Parece que é desta que vai começar a intervenção de Conservação e Restauro no conjunto azulejar existente no Pátio dos Canhões, no Museu Militar, em Lisboa. Hoje à tarde vou a uma reunião para definição de local de estaleiro e agendamento do início do trabalho. Gostaria de começar na próxima semana, com cerca de um mês de atraso em relação ao que estava previsto – nestas coisas é sempre assim e muito rápido foi este processo, até estou espantada! As intervenções no exterior são sempre complicadas – ou é o calor e o sol de chapa a reflectir nos azulejos, ou é a chuva que não deixa trabalhar – mas ainda assim, quero aproveitar ao máximo o bom tempo e também o mês de Julho para comprar materiais, porque depois, em Agosto, já se sabe que vai estar tudo fechado. Conto com a equipa do 88, que está há um mês em pulgas para começar… e eu também.

ORÇAMENTO

Mais um orçamento para fazer! Desta vez, este pequeno painel de azulejos, que se encontra no Entroncamento.  Não gosto de fazer orçamentos por fotografia; a experiência diz-me que é arriscar muito, mas depois de ter falado com o Ivo, chegámos à conclusão que não há necessidade de eu lá ir – sempre é um dinheiro que se poupa. Os azulejos já foram levantados da parede e agora o que se pretende é uma intervenção de conservação e restauro museulógica e montagem do painel em suporte móvel de acrílico, o que, segundo as nossas contas, será trabalho para um mês. E pronto, agora vai ser o costume: pensar, fazer o orçamento e ficar à espera, à espera…

REUNIÃO NO 88

Ontem fui a uma reunião no 88, para preparação e previsão do início da segunda fase do trabalho, a do assentamento dos azulejos. Cheguei à hora marcada, – que eu gosto de ser pontual – e  fui recebida pelo engenheiro sub-chefe, que me abriu a porta a falar ao telemóvel e me fez sinal para eu entrar. Ali fiquei, sentada à espera que ele tratasse dos seus assuntos e também do engenheiro chefe, que era quem queria falar comigo. Passado um bocado entrou o encarregado da obra, que vinha a falar ao telemóvel e que, depois de espreitar para a sala e me cumprimentar com um aceno de mão, tornou a sair, fechando a porta. Eu lá continuei sentadinha no mesmo lugar, a fingir que não estava a ouvir a conversa, até que algum tempo depois aparece finalmente o engenheiro-chefe, muito atarefado a tratar de imensas questões pelo telemóvel. A reunião foi decorrendo entre telefonemas para aqui e telefonemas para ali e a dada altura senti-me um bocado parva por insistir  em manter-me na área do restauro e não na das telecomunicações. Finalmente fomos dar uma volta pelo prédio, que está caótico, com imensas equipas a trabalharem ao mesmo tempo e o engenheiro-chefe disse-me para eu estar preparada para arrancar a meio da semana que vem, apesar de eu não perceber bem por onde e acho que ele também não.  Depois disto fui dispensada da reunião e saí de lá com muito mais questões do que quando entrei… Acho que lhes vou ligar.

DOCUMENTAÇÃO DA OBRA

TÍTULO – Paixão que consome

DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm

PESO – 5,950 Kg

MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.

TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.

TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC

AUTOR – Isabel Colher

 

PRONTINHA!

Dou por terminada a minha peça em barro refractário para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» – mesmo em cima do prazo! Quero enviar ainda hoje a documentação pedida: nome da obra, dimensões, peso, tipo de cozedura, técnicas e materiais utilizados e Memória conceptual e justificativa da peça. E ainda três fotografias. Até dia 30 tem de ser tudo enviado. Estou satisfeita com o resultado, apesar das perninhas que entortaram e que me conseguem deixar com um certo nervoso miudinho – vou mandar as fotos dos lados mais fotogénicos, a ver se a coisa passa… e a ver se me lembro também de fazer uma errata na memória conceptual; tipo, onde se lê «alicerces, estacas firmes colocadas meticulosamente…», leia-se «alicerces, estacas colocadas meticulosamente…» ou mesmo só «alicerces, estacas…», apesar daquilo, muito honestamente, agora me parecer umas franjas, mas isso já é demais e teria de mudar todo o texto e puxar muito pela cabeça. Bom, de qualquer modo, essa questão prende-se só com as minhas expectativas e quem não saiba, é como quem não vê, embora eu já esteja para aqui a fazer reparos a isto tudo; melhor seria era manter-me caladinha. E a zona interior correu bem, estou contente; resultou como eu queria… Na verdade, qual é o máximo que me pode acontecer? É não ser seleccionada. E isso não tem mal nenhum.

ATÉ AQUI TUDO BEM.

  Finalmente consegui virar para cima a minha peça de cerâmica, após quase três semanas na incógnita sobre o que se passaria do lado de dentro! A  primeira fornada correu muito bem – ao menos alguma coisa! – e pude constatar, com agrado, que o homem lá continua de braços abertos e com um sorriso de felicidade na cara; tem bom feitio, claro, fosse eu e não estaria tão contente. A incrustação de porcelana também parece ter aguentado, já tinha feito dois ou três testes de experiências, mas não estava muito segura quanto à coisa. De resto, tudo igual: o que já estava torto, torto continuou; bom teria sido ter-se endireitado pelas artes do fogo, mas assim não aconteceu e pelo menos não piorou… Acabei agora de aplicar o óxido de cobalto (que trabalheira!…) e a peça vai já directinha para o forno, agora sim, para cozer a alta temperatura. E até segunda não quero pensar mais neste assunto!

ENFORNADA!

Já está no forno a minha peça para a Exposição de Cerâmica, vai cozer esta noite. Tinha pensado fazer uma monocozedura; aplicava o óxido de cobalto com ela ainda crua e depois cozia tudo a alta temperatura de uma só vez, mas isto às vezes não corre bem como a gente quer, de modo que o melhor é fazer as coisas pelos tramites normais: enchacotá-la primeiro a 960º e então depois virá-la, dar-lhe o óxido e voltar a cozê-la; aí sim, a 1270º. Vou fazer uma fornada bastante lenta, talvez umas quatro horas só para chegar aos 200º, não vá o barro ainda não estar totalmente seco e assim prevenir algum azar… Bom e agora, figas, figas.

CADEIRA

Tenho andado um bocado bloqueada com o trabalho aqui na oficina: a desarrumação continua – não me apetece arrumar nada! -, o que não ajuda para dar início seja ao que for. Bem sei que posso recomeçar a minha produção cerâmica, que ía bem lançada antes da obra do 88 e que ficou a modos que pendurada; mas estou à espera que arranque o trabalho do Museu Militar (o que supostamente deveria ter acontecido durante a semana passada) e não quero estar a começar uma coisa para depois ter de a interromper logo a seguir. De modo que, para já, para já, estou a pensar recuperar esta cadeira de escritório, resgatada de um dos contentores de entulho lá do 88 e que apesar de tudo está em bom estado de conservação: apenas alguma ferrugem nas pernas, o que se contorna facilmente e muito pó no estofo de lona, o que se contorna ainda melhor…

CONTAGEM DECRESCENTE

Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.