CAIXA DE FERRAMENTAS

Comprei uma caixa de ferramentas nova. Tem dois andares, uma prateleira móvel e rodas para se poder transportar sem grande esforço. Não será o supra-sumo das caixas de ferramentas, qualquer outra de marca conhecida era duas ou três vezes mais cara, portanto, presumo que melhor; mas para já cumpre a sua função e espero que dure um bom tempo – pelo menos quatro meses, o prazo previsto para este trabalho. Já lá estão guardados os escopros, os martelos, o maço de borracha e as espátulas e também os frascos com Paraloid B72 já preparado e os da acetona e do álcool também. E ainda coisas várias como trinchas, óculos de protecção, extensões eléctricas, cabos de bisturi, escovas… Estou muito contente com esta nova aquisição; pormenores como este, tão simples e sem importância nenhuma deixam-me bastante satisfeita!

MATERIAL E FERRAMENTA

Tenho andado a preparar tudo para começar o trabalho de conservação e restauro dos azulejos de um prédio na Baixa Lisboeta. Hoje comecei a juntar algum material e ferramenta que já existe aqui na oficina, mas segundo a minha lista, ainda falta muita coisa que vou ter de comprar. Já me fartei de fazer pedidos de orçamentos a várias empresas, estou uma verdadeira mulher de negócios – quem diria! Preciso ainda de fazer umas fichas de trabalho e também uns mapas de presenças da equipa que vai trabalhar comigo; o orçamento tem um limite e a coisa tem de ser bem organizada, para que toda a gente possa ganhar algum dinheiro, mas sem que haja nenhuma derrapagem final, que isto não é o estado. Amanhã quero ir descarregar o máximo possível de coisas lá no prédio e se tudo correr bem, na próxima segunda-feira, mãos à obra!

ADJUDICADO

Foi-me adjudicado o trabalho do nº88! São cerca de 6300 azulejos para tratamento de conservação e restauro – levantamento, tratamento e reassentamento na parede. A coisa começa bem, eles querem que o trabalho inicie para a semana que vem, quando eu previa começar apenas no fim de março. De repente tenho imensas coisas para tratar à pressa e eu nisto gosto de ter alguma calma, para não meter os pés pelas mãos. E claro, o meu trabalho de cerâmica aqui na oficina, que ía tão bem lançado, agora vai ter de ficar para segundo plano por uns tempos, mas pelo menos é por uma boa causa… Enfim, tudo se há-de arranjar.

A MIL…

Hoje vou fazer uma fornada de vidrados, quero ver se estas peças ficam prontas para as levar à loja na próxima semana. Com tanta coisa que ando a fazer ao mesmo tempo, começo a ficar baralhada com isto tudo; tenho peças a secar para enchacotar a 970º e outras a 1040º; por outro lado, tenho vidrados para cozer a 1020º e outros a 1240º. Isto para não falar nas experiências de barro pigmentado com diferentes percentagens de óxidos, nem nas tacinhas que estou a modelar. E mais os orçamentos que tenho para fazer pelo meio disto tudo, sem me enganar e que me roubam algum tempo. Os frasquinhos com experiências de vidrados desmultiplicaram-se rapidamente e uns servem para uma coisa e outros para outra, mas como estão bem identificados, não há margem para confusões – espero eu. Tenho pressa em ver resultados; ando entusiasmada, mas estes processos demoram o seu tempo e as semanas passam demasiado rápido. E o forno demora um dia até eu poder ver o que se passou lá dentro. Ufa!… Estou cansada…

PASSADO / PRESENTE

Tenho pena de não ter conhecido melhor o meu avô Henrique; morreu no dia em que eu fiz cinco anos. Sendo carpinteiro, foi dele que o meu pai herdou uma série de ferramentas lindas, entre as quais este compasso e este esquadro, que eu trouxe ontem emprestados e que muito jeito me vão dar para eu fazer uma peça grande que já tenho aqui na ideia. Fico contente por lhes dar uso e assim, continuidade à memória do meu avô. É engraçado ver como estas ferramentas tão antigas se complementam com a minha nova balança digital, todas com igual importância na elaboração do mesmo trabalho e cumprindo cada uma com o mesmo rigor a função para a qual foi feita.

OHAUS

Estou super-contente! Ontem comprei finalmente uma coisa que há muitos – muitos! – anos queria ter: uma balança de precisão, com sensibilidade até aos centésimos de grama. Caramba, nem era preciso tanto, décimos chegavam perfeitamente… E agora sim, isto é que vai ser fazer recitas de vidrados com algum rigor! É que, quando se trata de óxidos, meio grama pode fazer muita diferença, alguns são extremamente fortes! Bem sei que nisto das experiências há sempre muito desperdício de material; mas por que estar a usar 300g de vidrado base para conseguir pesar uns míseros 3g de óxido de cobalto, que corresponde a 1%? E isto é quando a balança que cá temos consegue pesar 3g, porque às vezes fica ali parada nos 2 e eu a deitar pitadinhas atrás de pitadinhas, com muito cuidadinho… e aquilo nem sequer mexe; até que de repente!, pumba, salta directamente para os 5g!… (É claro que aqui sai o meu vernáculo pessoal). Mas hoje até já consegui pesar 0,5g de óxido de cobre e a partir daqui é só dar largas à imaginação.

COLORIDO

Acabei de vidrar as minhas placas de cerâmica relevadas da colecção «Pólen». Demorou mais do que imaginava, é um trabalho moroso e delicado que não dá para fazer à pressa e eu gosto de ser perfeitinha a trabalhar (olhó restauro…). Acabei de enforná-las,  mais uma série de tacinhas pequenas, coloridas. Espero esta semana conseguir levar tudo à Original, o bom tempo vem aí e os turistas também.  Lá na loja disseram-me que as cores chamam pessoas lá para dentro; eu cá não sei, não tenho experiência nenhuma, mas querem colorido? Então cá vai!

Nº 88

Após mais de dois anos de espera depois da entrega de um orçamento complexo, pelo qual nem sequer recebi acuso recepção, obrigado; fui há pouco tempo contactada por uma empresa que vai pegar em toda a obra de remodelação de um prédio na Baixa Pombalina. Todo o orçamento relativo a trabalhos de conservação e restauro dos azulejos existentes em quatro pisos tem de ser revisto para se começar a obra em breve. Se o nosso orçamento for adjudicado, supostamente eu, o Loubet e o Ivo, o núcleo duro aqui da oficina, vai ter de levantar das paredes cerca de seis mil e tal azulejos, para posterior tratamento e reassentamento. Como eles agora estão no Pinhão, a 300 Km daqui, com um trabalho que ainda vai demorar mais dois ou três meses, isto vai ter de haver aqui muita ginástica e jogo de cintura. E ainda vamos ter de arranjar uma equipa, claro… Bom, nada que não tenhamos já bastante experiência; não é a primeira vez que somos responsáveis por trabalhos grandes e também já tivemos de desmultiplicar-nos antes, com duas obras ao mesmo tempo. E com organização, a coisa vai.

INTERROGAÇÕES

Depois de um percalço com a fornada no forno grande, consegui finalmente abrir hoje o forno pequeno para ver como correram as experiências de vidrado. Não há nenhuma que eu possa aproveitar à partida, mas fiquei satisfeita; aproveitei quatro ou cinco como base para novas experiências e agora é só saber interpretar resultados; estará o vidro fino, ou ferveu com tanta temperatura? Será que o forno arrefeceu muito bruscamente antes dos 800ºC? Juntando óxido de zinco fica mais branco, não?… Ou precisará de mais fundente? Mas afinal onde é que aqui entra o bórax? E com a curva de cozedura, como é que é? E o raio da balança, que não consegue pesar só três gramas!… Já me rodeei de leitura para trabalho de casa; mas quanto mais leio, mais me interrogo. E pronto. Boa sorte para mim.

INEVITÁVEL

Estou a acabar os protótipos das minhas duas placas relevadas novas, para a série «É o mar que nos chama», baseadas em azulejos de figuras-avulso. Por mais que eu queira, é inevitável; a minha criatividade está demasiado formatada por 20 anos de azulejaria e às vezes libertar-me não é fácil – já ter feito algumas peças tridimensionais foi um princípio. Mas confesso que gosto de revestimentos murais, placas cerâmicas, de preferência de grandes dimensões e grossas, pesadas e a azulejaria tradicional portuguesa ainda continua a ser das poucas coisas que nos define como entidade, portanto, só tenho é de aproveitar toda a sua riqueza para a recriar e dar-lhe continuidade.