VIDRADOS DE CHUMBO

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Aproveitando os azulejos que ficaram mais empenados resolvi fazer alguns testes de cores com vidrados de baixo fogo, para ver como saíam. Quando fiz estes exemplares, estava apenas a pensar em usá-los como mostruário de azulejos Arte Nova que a Tardoz poderia produzir sob encomenda, para revestimentos parietais; mas uma amiga perguntou-me por que é que não os tento vender avulso – o que, confesso, nem me tinha ocorrido. Mas agora, vendo bem, por que não? Até acho que podem ter saída…

AZULEJARIA CONTEMPORÂNEA

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Começo a ver os primeiros resultados dos azulejos da nova produção que tenho andado a fazer desde Janeiro – com algumas pausas, claro. O percurso feito até agora já serviu para tirar algumas conclusões; alguns moldes têm de ser aperfeiçoados e muito provavelmente irei abandonar a faiança. Chateia-me ligeiramente só aos poucos ter dado por isto, mas por outro lado, mais uma vez percebo que é preciso seguir por um caminho para vermos que nos enganámos – o que de outra forma não seria possível. Para já estou satisfeita q.b. com os resultados, mas a coisa pode ainda melhorar.  E ainda vou mais do que a tempo.

CAMINHO

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Finalmente estão secas as primeiras provas da nova produção azulejar que comecei a fazer este ano. O tempo passa mais depressa do que eu gostaria e às vezes queria que o trabalho aqui da oficina andasse ao mesmo ritmo que ele, embora repita constantemente para mim mesma – e a experiência faz-mo sempre ver – que depressa e bem não há quem. Fazendo o balanço deste ano, agora que estamos em Junho e tendo em conta que ainda não fui contratada para prestar nenhum serviço desde Janeiro e também que tenho trabalhado imenso em duas produções cerâmicas distintas e lido imenso e feito imensas experiências e aprendido bastante; posso dizer que estou satisfeita.

Já consigo ver alguns caminhos; ideias não me faltam, assim vá a coisa devagar.

M’HAMID EL GHIZLANE

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Observando  o mapa de Marrocos, M’Hamid el Ghizlane encontra-se no oásis onde a estrada nacional acaba, a cerca de 65o km a sudeste de Marraquexe; onze horas de autocarro – na melhor das hipóteses – doze ou mais para ser rigorosa. Dali para a frente, que é como quem diz, para todos os lados, está o deserto e quem vai até M’Hamid é por que quer entrar no deserto.

A povoação que vem assinalada no mapa é a nova M’Hamid el Ghizlane. Trata-se de uma aldeia com pouco interesse e muito menos beleza – está construída sob um molde urbanístico qualquer, que não é dali; espraiada à torreira do sol. A maioria das casas são feitas em tijolo de betão, não há árvores nem sombras e é impossível andar nas ruas largas durante as horas de mais calor – que são durante quase todo o dia, todos os dias do ano. Nem mesmo o rio Draâ, ali à sua beira, consegue refrescar o ambiente; o seu leito largo encontra-se totalmente seco (um dó!) e ao que parece a última vez que se viu água por ali foi há dois anos, quando se abriu a represa existente mais acima, perto de Ouarzazate e que serve para alimentar os campos de golf lá construídos. Nas casas da nova M’Hamid passa-se calor e muitos dos seus habitantes, no verão, mudam-se para as casas da família que ainda se mantêm na aldeia antiga e que são mais frescas.

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Um dos motivos que levou a maioria das pessoas a abandonar a velha M’Hamid el Ghizlane – a povoação mais importante daquele oásis, porta de entrada e saída das caravanas que  vinham e iam para o deserto; entreposto cujo mercado reunia viajantes e comerciantes vindos de todos os lados –  foi a inexistência de electricidade e água canalizada, que só agora ali estão a chegar. Outro talvez tenha sido a impossibilidade de circularem carros dentro da kasbah, toda construída em terra- a sua rua principal, a única que se vê em fotografia aérea, apresenta muitas zonas demasiado estreitas e as ruas transversais são como que corredores debaixo das casas; túneis escuros, compridos e frescos, iluminados aqui e ali por poços de luz vindos desde o exterior lá em cima, que acumulam também a função de ventilar cá em baixo. A circulação é feita a pé e de burro (e de motocicleta) e os drawas, os habitantes daquela região que sempre ali viveram e os que ainda ali vivem, estão mais do que adaptados àquela vida – a sua aldeia está sabiamente construída de forma a que ali se possa viver, defendida das amplitudes térmicas radicais que se fazem sentir.

Estive na velha M’Hamid el Ghizlane duas semanas e agora, acabadinha de chegar a Lisboa, parece que me ausentei por uns meses – ainda estou a fazer a agulha. O objectivo da minha ida foi o de participar no III Atelier de construção com terra, organizado pela associação espanhola Terrachidia. A ideia era restaurar a porta de entrada da kasbah, que se encontrava em mau estado de conservação e de preferência envolver a população local na sua recuperação, o que acabou por acontecer. Ali se fizeram adobes e se rebocou com terra. Aprendeu-se a construir em taipa e bebeu-se chá doce – demasiado doce! – nos intervalos, para recarregar as forças. Ali se tentou dizer os érres em árabe, com a garganta. Ali se suou, 40º; comeu-se pó. Muito pó, os olhos a arderem. Mediram-se ruas. Ali se viram noites estreladas sob a brisa morna do palmeiral. Ali se ouviu o chamamento para a oração, couscous à sexta-feira. Ali se subiu à duna mais alta, para ver o pôr-do-sol. Ali se falou e comunicou com a alma, com o sorriso. Cantou-se em francês. Viu-se e viveu-se outra realidade muito diferente, tudo tão forte, muito forte. Riu-se e chorou-se. Ali se está a começar a fazer um caminho. Alhamdulilah.

PADRONAGEM POMBALINA

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Estamos finalmente a terminar a intervenção do nº 31, no Chiado, em Lisboa. O trabalho começou no verão passado e foi dividido por três fases: inventariação e separação de cerca de sete mil azulejos armazenados aleatoriamente na cave do edifício; selecção e montagem de paineis e posterior tratamento de conservação e restauro na oficina e, por fim, assentamento dos azulejos, preenchimentos e integração cromática in situ  – o que estamos a fazer agora. Amanhã damos o trabalho por concluído, depois da aplicação da cera microcristalina.

PRETO E BRANCO

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Voltei a Setúbal, à casa do Sr. Joaquim, que me ligou, após quase um ano de eu lá ter ido pela última vez. As coisas não têm estado paradas e o Sr. Joaquim quis mostrar-me as alterações que tem vindo a fazer  – basicamente, tentar devolver a integridade original a uma casa de campo, de 1904, a qual sofreu bastantes adulterações nestes últimos anos. O Sr. Joaquim é muito cuidadoso e foi graças a esse cuidado que conseguiu encontrar, por baixo de um chão em betonilha, na casa-de-banho do primeiro andar, estes mosaicos hidráulicos que revestiam o chão original. E são lindos!

POEIRADA E ENTULHO

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Preparamo-nos para começar o assentamento do painel de azulejos que fizemos no fim do ano passado e que assinala o centenário da Faculdade de Ciências de Universidade de Lisboa. Para já, foi preciso abrir uma caixa em profundidade na parede, com cerca de quatro metros de altura por um metro e meio de largura, uma vez que a autora do painel quer que os azulejos fiquem à face desta – o que também me parece melhor. E depois de muita poeirada e algum entulho, está pronta.

FORNADAS!

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De volta à oficina, depois da super-constipação com direito a febre apanhada no Mercado de Natal que fiz a semana passada. Para piorar ainda mais o cenário, o forno grande, onde estávamos a cozer os azulejos para o painel da FCUL, estragou-se a semana passada, ao fim de dez anos a funcionar como deve ser – já estava no seu direito, claro; mas não foi na melhor altura, quando temos o trabalho para entregar até dia 31. Mas enfim; por sorte temos o forno mais pequeno, no qual estamos a adiantar e a enfornar as chacotas (no dobro do tempo…) para as conseguirmos deixar já vidradas e depois, quando o grande estiver arranjado (espero que ainda hoje…), é só vir cá à oficina fazer fornadas de vidrados, dia-sim, dia-não, quase de empreitada. Com um pouco de sorte e mesmo à justa, com Natal e tudo pelo meio, vamos conseguir fazer as quatro fornadas que faltam até ao prazo estabelecido. E talvez ainda mais uma de emergência, para as baixas que apareçam entretanto.

NOVO PAINEL

Comecei anteontem a produzir aqui na oficina, mais a Margarida, um painel de azulejos para a Faculdade de Ciências de Lisboa e que servirá para assinalar o centenário da sua existência – será inaugurado em Abril de 2013, mas terá de ser entregue até ao fim deste ano. Trata-se de um projecto de uma designer gráfica e que nós iremos não só executar, como também coordenar a montagem e o seu assentamento na parede. O painel representa o calendário e é composto por doze fiadas verticais – os meses -, com trinta e um azulejos cada fiada – os dias; cada dia com um símbolo avulso impresso, ou um azulejo liso a colmatar os meses mais pequenos. No total, 372 azulejos.

Estou muito satisfeita com este trabalho e principalmente com a nova mesa de lastras, oportunamente comprada, que nos permite fazer as chacotas num tempo três vezes mais rápido: a nossa previsão inicial (sem a mesa) de manufacturar um mês por dia, de repente alterou-se para um trimestre diário, ou seja, amanhã acabamos de fazer as chacotas, em quatro dias apenas, em vez dos doze que esperávamos. E o melhor de tudo: sem esforço!

FACHADA

Alvorada às seis e meia da manhã.

Ontem estive todo o dia com os ladrilhadores a assentar as réplicas que fiz para a fachada do nº 11 em Sta. Catarina. Às oito horas já lá estávamos os três e ainda bem, o trabalho foi bastante moroso e delicado – o prédio é muito antigo, nenhuma parede ou cantaria está de nível e havia muitos cortes a fazer nos azulejos, o que, sem a minha coordenação teria corrido mal. O Sr. Pedro já bufava por todos os lados e por mais que virasse cada azulejo que queria assentar, não havia meio de perceber onde é que tinha de fazer o corte e às vezes quase que nem eu. Entretanto os velhotes de cima não paravam de reclamar que tinham o tecto lá de casa numa miséria e que isso «eles» não querem saber; da janela da frente vinha um som irritante de tiroteio de um desses jogos modernos que agora para aí há; a carrinha tinha de ser constantemente chegada para a frente ou para trás, para poderem passar as da distribuição do gás e dos refrigerantes e o pó que nós fazíamos alastrava pela roupa estendida nos estendais lá da rua.

Mas conseguimos – às cinco e meia da tarde o Sr. Pedro deu o seu trabalho por concluído e eu ainda lá fiquei mais uma horita a limpar a fachada e a varrer a rua da sujidade que nós fizemos – e a outra que já lá estava no chão. Quando saí, fui beber uma mini ao café da esquina.