PAPELADA

Tenho andado às voltas com a organização da papelada do 88 – faço tudo para não ter que arrumar esta oficina! Apesar da vontade não ser muita, é melhor ir tratando disto já, enquanto tenho tempo disponível e as coisas ainda estão frescas na minha cabeça: contabilizar os paineis que saíram quando, quem é que trabalhou quantos dias, dar início ao relatório. E contabilidade; verificar se não meti os pés pelas mãos quando pensei no orçamento, quer a nível de tempos, quer a nível de custos. E telefonemas atrás de telefonemas, para ver quando é que me pagam e que nunca são atendidos. Enfim, é toda uma parte chata, mas alguém tem de fazê-la… Quando for grande quero ter uma secretária.

FAZER NADA!

Hoje não me apetece fazer nada! Esta oficina está a maior confusão: depois de termos descarregado todo o material do 88 (juntamente com mais uns móveis que também vieram de lá e mais uma série de caixotes com casacos de cabedal antigos que descobrimos num armário antigo do Rei das Peles) e ainda o material que o Ivo e o Loubet também resolveram vir cá deixar e que já não precisam no Pinhão, isto está impraticável e não sei por que ponta comece. Tenho coisas para fazer, claro; poderia começar a lavar e a arrumar a ferramenta, ou começar a organizar e a limpar a minha bancada de trabalho, onde a minha peça em cerâmica está a secar (e a empenar), no meio de montes de tralha. E depois há todo o trabalho de bastidor; papelada, contas, relatórios para fazer e preparação de mapas de trabalho e estratégias para a obra do Museu Militar, que se avizinha. E mais um orçamento para Santarém, que ainda não percebi se já passou o prazo ou não… Mas enfim, estou em fase de descompressão e preciso é de uns dias de papo para o ar. O que não irá acontecer.

O REI DAS PELES

Nos tempos áureos do 88 era lá que funcionava O Rei das Peles;  três pisos só por sua conta. Agora, há dois meses que o prédio está a ser demolido: picaram-se paredes até ao osso, arrancaram-se chãos e tectos, tiraram-se barrotes de madeira podre, enfim; só contentores de entulho já saíram dali uns cinquenta. Ainda assim e apesar da movimentação dos trolhas escada acima, escada abaixo, há  coisa de duas ou três semanas houve um casal que conseguiu subir por entre a poeirada, até ao segundo andar, para nos perguntar, com ar espantado «a loja está a funcionar?», ao que  deveríamos ter respondido, dentro das máscaras, capacetes e óculos de protecção, «claro que sim, o que é que deseja?».

SIMPLEX

Hoje tive de ir à segurança social para tratar de uns assuntos cujo prazo estava já no limite. Cheguei por volta das nove e meia e dirigi-me à maquina das senhas. Tirei a senha H, a que me pareceu mais indicada para o meu caso, depois de ter lido todas as hipóteses de atendimento dos vários balcões. H50. Como a coisa ainda ía no H9, sentei-me  descontraída e tirei o livro que tinha levado, já prevenida para a espera. Ao fim de uma meia-hora de leitura, ao olhar para o ecrã que eles lá têm exposto com o andamento daquilo tudo, percebi que afinal, a minha senha deveria ser a G. Fui lá retirá-la e pelo sim, pelo não, guardei as duas. G14 – a minha; G2 – onde ía. Bom, mesmo assim já tinha melhorado bastante. Tornei a pegar na leitura, mas desta vez desconcentrada; suspeitava que me poderia faltar alguma coisa; sei lá, papelada, um documento qualquer, alguma fotocópia. Levantei-me e circulei por ali, até que lá mais à frente vi um papel afixado que dizia « É favor proceder ao preenchimento dos formulários enquanto espera». Formulários? Quais formulários?  Não tinha nenhum… Bom, fui à tesouraria, onde vi que para ser atendida tinha de tirar a senha B. Felizmente ali andava-se um pouco mais depressa e depois de esperar uns cinco números antes do meu, pedi os ditos formulários, ainda assim com um sorriso na cara e com bons modos. «Ó minha senhora, AQUI é a tesouraria! A tesouraria; só para fazer pagamentos!». Ok, ok; nas finanças os formulários compram-se na tesouraria… Fui ter com o segurança, que afinal era quem disponibilizava os ditos. Entretanto a senha G aproximava-se do meu número a um ritmo vertiginoso, à média de uma pessoa por cada vinte minutos. Dlim, dlão! G12… Dlim, dlão! G12… (Este deve ter-se fartado de esperar…) G13. Faltava só um para a minha vez e ainda tive de  ficar ali mais um bom bocado, os olhos fixos no ecrã, a ver quando é que aquilo mudava. Finalmente fui atendida por um senhor muito simpático, diga-se de passagem, que tratou dos meus assuntos e esclareceu as minhas dúvidas. Saí de lá depois do meio-dia, contente por àquela hora  já ter terminado a greve do metro e pus-me a caminho do 88.

SOCIEDADE MUSICAL

Hoje, quando fui ali abaixo fazer uma chave, passei pela Sociedade Musical 3 de Agosto de 1885, um lugar muito giro, apesar de bastante adulterado. Tem um pequeno campo de jogos no seu interior, rodeado de pequenas casas com roupa estendida à porta; faz lembrar uma aldeia. Ainda gostaria de saber mais sobre o que é que lá se passa, tem ar que anima de vez em quando, talvez aos fins-de-semana, ou nos santos populares… Uma vez alguém me disse que Marvila era a pérola escondida de Lisboa e sinceramente, espero que tão cedo não seja descoberta.

HUMIDADE

Hoje a cidade acordou coberta de nevoeiro. Aqui em Marvila está como eu gosto: não se vê nada para o outro lado da rua. A escuridão, aqui na oficina, é enorme e a humidade nem se fala, lá tive de acender o catalítico para ver se não gelava. Voltei agora de Mem Martins e, curiosamente – o tal microclima -, em Sintra o céu estava azul e de certeza que a temperatura era mais alta, pois cheguei a ter calor com o meu cachecol ao pescoço. Depois, à vinda para Lisboa, a IC19 foi entrando pelo nevoeiro, que se adensou cada vez mais à medida que eu me aproximava do rio. Faz frio lá fora e enquanto bebo o meu cházinho da tarde, antes de ir descarregar o carro, reparo que as janelas estão completamente molhadas.

ESPELHO

Apesar de ter aqui na oficina uma série de coisas que posso ir fazendo, ainda ando um bocado às aranhas com aquilo que realmente vou fazer. Tenho dificuldade em organizar o meu tempo quando ele é demais; os dias acabam por ir passando e parece que não faço nada. Quando estou muito ocupada, curiosamente, consigo encaixar um monte de coisas para fazer nos bocadinhos que tenho vagos, embora aí me farte de reclamar que não tenho tempo para nada. Bom, enquanto tento encarrilar para algum lado, vou aproveitar para colar este espelho em madeira e cabedal que uma amiga me pediu para colar. Eu bem lhe disse que esta não era a minha área, mas ela acha que farei sempre melhor do que ela, que é de biologia e canta bem, mas parece que tem pouco jeitinho de mãos…

FAXINA

Para encerrar de vez com o ano passado e antes de pensar o que é que vou fazer a partir de agora, hoje, para variar, decidi ser uma mulher faxinante: depois de ver que as réplicas que fiz saíram todas bem do forno, encaixotei todos os painéis de azulejos que ainda estavam por aqui estendidos no chão; apanhei todos os papelinhos com marcações que eu tinha feito para me orientar; aspirei o taipal e a bancada de trabalho; varri o chão todo da oficina , incluindo escritório e casa-de-banho; limpei a máquina de corte de azulejos (super-Practyl) e deitei fora toda aquela pequena tralha que não serve para nada, antes que o Loubet a visse. Antes de me ir embora ainda vou lavar o chão, para quando voltar na segunda-feira ganhar inspiração para fazer alguma coisa ao ver isto tudo limpinho.

31 DE DEZEMBRO DE 2010

31 de Dezembro de 2010.  Não posso dizer que este ano tenha sido dos mais famosos: três ou quatro trabalhitos pequenos no primeiro trimestre e mais dois ou três agora no final, o que deu mais ou menos uma média de seis meses de trabalho efectivo e outros seis a puxar pela cabeça a ver como é que me arranjava para ir pagando as despesas correntes lá de casa e aqui da oficina também. Mas nem tudo foi mau: a um tal de Jorge Inácio, dono da Mdf-Cr, uma empresa de restauro que não recomendo a ninguém, para quem trabalhei em Março, numa igreja em Cascais e cujo pagamento ainda continuo à espera, devo o facto de ter iniciado a minha produção cerâmica antes de optar por ir trabalhar para o Pingo Doce, já em desespero de causa e fartinha de certo tipo de restauradores, supostamente sérios, que para aí andam. Obrigada, Jorge! E quando puderes paga-me lá o que me deves, caramba; já lá vão nove meses e o dinheiro faz-me falta. Ainda não vivo da cerâmica, claro, mas gosto do processo criativo e tenho tido alguns elogios, o que me deixa sempre um bocado babada. E enfim, tive experiências novas; fui às feiras medievais; criei este blog (que tão bem me faz à sanidade mental durante as muitas horas que trabalho sózinha) e através dele, conheci pessoas novas e até vou entrar num documentário europeu.

Não posso dizer que este ano tenha sido propriamente bom. Mas também não foi mau de todo… Enfim, não foi bom, nem mau; antes pelo contrário.