NEVOEIRO

Finalmente! É bastante comum, no Inverno, a vista daqui da porta da oficina ter este aspecto, ou seja, não se ver um boi a três palmos de distância! Quando comecei este blog, ía a Primavera já bem adiantada, de modo que ainda não tinha tido oportunidade de registar este momento e, tirando a humidade por todo o lado, confesso que gosto! Supostamente, ali mais abaixo, atrás dos arbustos, fica a linha do combóio e mais abaixo ainda, costuma ver-se perfeitamente o Tejo e a Ponte Vasco da Gama… Assim sendo, volto para dentro rapidamente, acendo todas as luzes e ponho o cachecol para continuar os meus trabalhos de restauro…

(DES)ARRUMAÇÃO

Por mais que eu arrume, volta e meia esta oficina fica um bocado caótica, acho que é o que dá fazer várias coisas ao mesmo tempo. Neste momento, as bancadas de trabalho mais parecem prateleiras de (des)arrumação e isto é não estando cá os meus ricos colegas, se não é que iria ser mesmo bonito. Bom, de qualquer modo, hoje já despacho mais três painéis com réplicas para a In Situ, sempre é espaço que se ganha, mas tenho de dar uma volta a isto antes de recomeçar a fazer as minhas peças em cerâmica, que têm estado paradas e o Natal a passar-me todo ao lado…

CASA DE FERREIRO…

Como se costuma dizer, em casa de ferreiro, espeto de pau. Tenho este azulejo de fachada lá em minha casa há imenso tempo; tanto, que já nem me lembro como é que ele veio parar às minhas mãos. Gosto muito dele nem sei bem porquê; não é especialmente bonito, mas é feito em pó de pedra, uma técnica caída em desuso, muito comum na extinta Fábrica de Loiça de Sacavém e gosto muito de o ver ali, penduradinho na parede entre outras coisas, poucas, que eu tenho na parede e considero especiais. Há coisa de uns seis meses, ops!, levou sem querer um piparote e estatelou-se no chão de mosaico hidráulico lá da casa-de-banho, que apesar de já ter mais de sessenta anos de existência, não está ainda suficientemente amaciado por quatro gerações de uso. Fiquei chateada com o facto, acho que ainda praguejei qualquer coisa e meti-o bem à vista, a ver se o trazia para aqui para a oficina, ou não faça eu restauro, ainda por cima, de azulejos. Mas para ali foi ficando, até que hoje, finalmente, o trouxe para cá. Quero aproveitar esta semana que estou de folga das réplicas da In Situ, para tratar de pequenas coisas que estão pendentes e nunca mais se resolvem. Como por exemplo, colá-lo.

ARCO-ÍRIS

Para além de outras, uma das vantagens desta oficina é a vista, que muitas vezes me ajuda a arejar as ideias. Anteontem, ao sair daqui, tive a agradável surpresa de descobrir que, se existir mesmo um pote de ouro na ponta do arco-íris, já sei que ele se encontra algures no meio do Tejo, ali no mar da palha. Estou seriamente a pensar em comprar um fato de mergulho e, nos dias sem trabalho, que prevejo virem a ser muitos no próximo ano, posso sempre dar um mergulhinho e procurar por ele, que bem falta me faz… Nunca se sabe, mas se o encontrar, provavelmente não terei de passar nenhum recibo verde, espero que venha todinho só para mim, livre de taxas e de impostos. E não digo nada a ninguém!

S. SILVESTRE

Só mais um dia de trabalho e acabamos a intervenção nos azulejos da igreja da Lousã. Do alto do seu trono, S. Silvestre, padroeiro da Vila, tem observado atentamente todo o processo de restauro e apesar do martírio da poeirada a que foi submetido, sem máscara nem nada, nunca se queixou e parece estar satisfeito por ver os azulejos de volta à parede. Um verdadeiro santo…

APEADEIRO DE MARVILA

Hoje ainda não consegui fazer nada de útil: entre começar as reintegrações cromáticas dos azulejos da Lousã, para as quais tive de preparar Paraloid, fazer o projecto de um pequeno painel de azulejos, para o qual preciso de uma ampliação das letras e repensar os meus relógios solares, os quais tenho dúvidas quanto aos gnómons, ando para aqui um pouco atarantada de um lado para o outro. E claro, ainda tenho de terminar as chacotas manuais para as réplicas dos azulejos da Igreja da Ota, que já estão mais do que secas e que precisam de ser escacilhadas, o que não me está a apetecer fazer agora…

Fui tomar um cafézinho ali abaixo a Marvila, para sair um pouco daqui da oficina e fazer a fotossíntese diária, aproveitando este belo dia de sol para tentar organizar a cabeça. Acho que não resultou, mas pelo menos sempre arejei um bocado. Melhor, melhor, será ir para casa… E amanhã há mais.

A PILHAS!

Acho que já aqui disse há uns tempos que sou pouco dada às novas tecnologias. Eu até gostaria, mas o tempo disponível para isso é pouco e, francamente, a pachorra para aprender, também. Não saco música da net, não faço downloads de filmes, nem sei zippar um documento. Ainda nem sequer aderi ao Facebook, nem tenho um leitor de MP3, o que é um feito nos dias que correm. Gosto de objectos e também das memórias de outros tempos, devo ter uma costela de Velho do Restelo, que com certeza se desenvolveu por via do restauro. Provavelmente só eu é que perco, claro; mas ainda não dei por nada.

Isto para dizer que, ultimamente e enquanto não resolvo esta questão da musica, a minha companhia aqui na oficina tem sido este rádio a pilhas, tipo aqueles de ouvir o relato da bola. A coisa não é brilhante, é verdade, muitas vezes é preferível que esteja desligado; mas entre um posto e outro,  sempre se vão ouvindo uns fadinhos do Marceneiro ou sabe-se, por exemplo, que Portugal ganhou uma medalha de ouro no campeonato de patinagem artística no início deste mês, informação que nunca seria conhecida doutra forma. E convenhamos, ainda podia ser pior: sempre é um 2 BANDS!

VERMEER

Nesta feira não me apanharam desprevenida! Era para ir vestida à época? Então lá fui! Bom… não sei se seria bem medieval, mas pelo menos era qualquer coisa que se assemelhasse… De um lençol velho fiz uma saia e uma touca, o avental é o que uso aqui na oficina e depois foi só ver o que é que tinha guardado lá para casa… Não ficou mal. Disseram-me que eu parecia «A leiteira», do Vermeer. É possível, é possível; não me tinha ocorrido, mas provavelmente estava no meu subconsciente quando pensei nisto. Obviamente, nunca iria vestida com um fato de cortesã, que essas não vendiam nada nas feiras e teriam, certamente, umas mãos mais cuidadas do que as minhas… E em boa verdade se diga que teria ganho mais dinheiro a posar para as fotografias, tal foi a quantidade de gente que me fotografou e que até posou comigo… Para a próxima vou pensar nisso!