TÉCNICA DA ESTAMPILHA

A técnica da estampilha foi, de longe, a mais utilizada pela maioria das fábricas de produção de azulejaria de fachada do início do século passado, por permitir a produção de azulejos polícromos, de grande efeito decorativo, de uma maneira fácil e rápida. Utilizava-se, para o efeito, uma matriz de papel encerado – a estampilha – onde se recortavam os motivos a reproduzir nos azulejos, previamente vidrados, sobre os quais se colocava. Era com a passagem duma trincha sobre este papel que neles se aplicava a decoração pretendida. Para cada azulejo eram necessárias tantas estampilhas quanto o número de cores ou a própria complexidade do desenho.

Hoje estive a abrir as estampilhas para fazer as réplicas dos azulejos do nº11 a Sta. Catarina. Depois de algumas experiências falhadas com outros materiais mais modernos e resistentes (e de uma bolha no dedo), acabei por utilizar aquele que, no fim de contas, sempre resultou – o papel encerado.

TINTAS DE ALTO FOGO

         

Comecei hoje a tratar de fazer experiências com tintas de alto fogo para pintar as réplicas dos azulejos de estampilha para a fachada do nº11, ali em Sta. Catarina. Pelas minhas contas não hão-de ser assim tantas – cerca de 65 azulejos de padrão e cerca de 140 frisos – e o mais trabalhoso será rectificar as chacotas com as medidas certas, que entretanto deixaram de se fabricar. Quantos às cores, quer-me cá parecer que, com um pouco de sorte, já tenho preparado um vidrado base, branco, muito idêntico ao dos originais e a tinta azul, se não me engano, também já está feita. Portanto, experiências, propriamente ditas, com receitas e tudo, só para o amarelo e para o verde. De qualquer modo ensaio tudo; assim como assim, enquanto não tiver dinheiro para comprar uma pequena mufla de experiências, esta que aqui está terá mesmo de fazer uma fornada meio vazia.

PRIORIDADES

Pausa no Museu Militar – com este tempo instável, de aguaceiros, vento e frio, é complicado trabalhar ao ar livre, principalmente quando os materiais que utilizamos reagem mal à água e demoram muito mais a secar.

Tenho aproveitado para vir para a oficina; trabalho por fazer aqui não falta e eu não sou do género de ficar em casa. Gostaria de recomeçar a minha produção cerâmica, mas a coisa não está fácil; acabo por gastar o tempo (dispersar-me, segundo o meu colega Loubet) com outras questões que, ao fim e ao cabo, também são prioritárias: papelada para organizar, compras para fazer, e-mails para responder e orçamentos para pensar – e escrever. Têm-me chegado às mãos algumas propostas que me interessam, principalmente para manufactura de réplicas de azulejos, e, se é verdade que a maioria delas fica em águas de bacalhau, também é verdade que estou a conseguir aperfeiçoar mapas de fornecedores, tarefas, horas e preços, cada vez mais descriminados e exactos, que servem de base a facilitar futuros orçamentos. Enfim, um trabalho de sapa – mas alguém tem que o fazer.

REAL FÁBRICA DE LOUÇA DE SACAVÉM

Fui contactada para fazer um orçamento para manufactura de cerca de 30 réplicas destes azulejos Arte Nova, em pó de pedra, que, tal como eu supunha e acabei de confirmar, são provenientes da extinta Fábrica de Louça de Sacavém.  Depois de uma pequena investigação, descobri que, segundo o Catálogo de Preços Correntes da Real Fábrica de Louça de Sacavém – Azulejo, datado de Agosto de 1910, correspondem ao motivo 19-F, com a descrição «Azulejo com decoração Art Nouveau, com relevo e vidrado monocromático». É precisamente este vidrado monocromático que eu vou ter de replicar, uma vez que, com grande pena minha, me foram pedidos azulejos com as mesmas dimensões, mas lisos.

ALICATADOS

Fui contactada pelo Palácio da Pena para executar algumas réplicas que colmatem uma pequena lacuna existente no vão da janela da capela. Tratam-se de azulejos alicatados, brancos. Fiz as chacotas a semana passada e agora estou à espera que sequem, o que não é fácil,  dada a humidade existente aqui na oficina…

ANO NOVO!

  

Não me posso queixar: entro em 2012 logo a fazer um orçamento. Para um trabalho pequeno, bem sei; mas sempre é um orçamento de conservação e restauro de azulejos e provavelmente será aceite. Trata-se de um hall de entrada de um prédio dos anos 30, com painéis de azulejos figurativos executados na extinta Fábrica Lusitânia – da qual apenas resta a chaminé, conservada no exterior do edifício da Culturgest, ali no Campo Pequeno. O trabalho é simples e não tem nada que saber; o mais complicado ainda há-de ser a manufactura de cerca de catorze ou quinze réplicas de azulejos, que desapareceram (claro está!) e cujas chacotas, em pó de pedra e com aquelas dimensões, já não se fabricam. Mas enfim, nada que não se faça e que não se consiga orçamentar.

LACUNAS

   

Finalmente parece-me que estão pintadas todas as réplicas dos azulejos para o 88. Digo parece-me, porque lá no prédio a azáfama continua e cada vez aparecem mais coisas à frente dos painéis – janelas, cozinhas, tábuas de soalho – e não consigo ter e certeza se tirei todos os desenhos de todos os pisos; não me admirava nada se no fim ainda ficassem duas ou três para se fazerem. Tive de pedir ajuda a umas colegas para me pintarem cerca de metade do que faltava – as dos azulejos das tomadas, os quais se optou por serem substituídos por réplicas para não se cortarem os originais – deixando para mim a tarefa de pintar os das lacunas; o que deu algum trabalho, uma vez que os azulejos envolventes se encontram na parede e tive de tirar os desenhos por outros com motivos semelhantes e estar aqui na oficina a pintar através de fotografia, tendo atenção para que as linhas de contorno e manchas de cor batessem certo com as dos originais. Agora é ir lá entregar tudo e verificar se há alguma coisa para repetir, o que espero que não…

DE NOVO NA OFICINA

Enquanto deixo a minha equipa espalhada pelo 88, Museu Militar e Instituto de Medicina Tropical, estou agora de volta à oficina (que está caótica, por sinal…) para começar a fazer as réplicas para o 88. Há dois meses que ando a falar neste assunto, mas pronto; só agora é que finalmente se decidiram a mandar avançar com esta fase, como se se fizessem cerca de 130 azulejos – réplicas, ainda por cima – do dia para a noite: há que tirar todos os desenhos, comprar as chacotas adequadas, fazer experiências de vidrados e tintas, enfornar, desenfornar um dia depois, voltar a fazer ensaios… Enfim, «Isabel, dê prioridade a este assunto!» e lá vai ela, agora, à pressa, meter mãos-à-obra, quando se podia ter feito tudo muito mais tranquilamente…

…VIDA NOVA?

Acabei de pintar as réplicas dos azulejos para a Igreja da Misericórdia, em Tavira! Já estão no forno, neste momento a 170ºC. Se tudo correr bem, entrego-as na próxima segunda-feira. As 60 previstas inicialmente, acabaram por se transformar em 110, não sei o que é que aconteceu, mas melhor para mim, visto que o orçamento foi dado em valores unitários – assim eu receba em breve, mas acredito que sim, até agora a In Situ nunca falhou. E agora sim, ano novo, vida nova; ou seja, sem trabalho! Mas isso, afinal, é a vida do costume… não percebo de onde é que vem este provérbio…

ANO NOVO?

Estou quase, quase a terminar as réplicas para a In Situ. Deixei as mais complicadas para o fim e a coisa não está fácil. Estou a tentar orientar-me por estes azulejos originais, totalmente fragmentados e com grandes lacunas, mas ando aqui um bocado às voltas sem saber bem o que fazer; tento seguir as linhas que muitas vezes não vão dar a lado nenhum e acabo por pintar alguma coisa que pareça fazer sentido, mas pouco convencida. A minha esperança é que isto, depois, integrado no conjunto…