ILUSÃO DE ÓPTICA

Começo a ver finalizadas as réplicas que tenho andado a fazer para o Palácio de Sintra; aqui dois exemplares que reproduzem de forma simplificada, numa peça só, o módulo composto originalmente por três azulejos independentes, de dimensões, formas e cores diferentes, cuja repetição compõe o revestimento azulejar das paredes da Sala Árabe, criando um padrão geométrico de elevado efeito de ilusão de óptica tridimensional  e que mais parece uma criação contemporânea do que uma obra com mais de 500 anos de existência.

 

 

 

FASES DA SECAGEM

Estou na recta final da manufactura das réplicas de azulejos para o novo circuito de acessibilidades do Palácio da Vila, em Sintra; depois deste, falta-me só fazer mais um – quer dizer, dois, porque foi-me pedido sempre dois exemplares de cada peça.

Acabei agora de modelar o último protótipo para o qual precisei de fazer molde e as novas chacotas encontram-se já em fase de secagem. Trata-se de um pequeno azulejo relevado, réplica dos frisos que rematam o revestimento cerâmico existente no Pátio Central do palácio e que bastante trabalho me deu, mais do que aquele que eu estava a contar – foi totalmente modelado a olho, através das fotografias que tirei quando lá fui, uma vez que não havia nenhum original guardado no acervo, que eu pudesse trazer aqui para a oficina para me guiar.

Ficou com pequenas diferenças, mas todos os originais as têm entre si.

 

CHACOTAS

Começo a ver os resultados do trabalho que tenho andado a fazer nos últimos tempos.

Apesar de estar agora a modelar o protótipo de um friso em relevo e nem ter sequer ainda começado a trabalhar na última peça que me falta para terminar a encomenda do Palácio da Vila, em Sintra, tenho já as outras peças todas enchacotadas à espera de serem vidradas e depois cozidas novamente – a fase final do processo e aquela que mais me assusta no meio disto tudo.

 

HISPANO-ÁRABES

Continua a bom ritmo a manufactura de réplicas de azulejos que estou a fazer para o Palácio da Vila, a maioria dos quais em corda seca e aresta-viva – técnicas utilizadas nos azulejos de padronagem mudéjar, introduzidos na Península Ibérica através da cultura árabe e que chegaram a Portugal em finais do século XV, inícios de XVI, através de encomendas a oficinas hispânicas.

A corda seca e a aresta-viva, são no fundo uma evolução técnica do fabrico dos revestimentos murais de padronagem alicatada, composta por uma infinidade de pequenas peças únicas, de formas e cores diferentes, recortadas a alicate de placas de barro vidradas, de cor lisa. Com a introdução destas novas técnicas de fabrico – primeiro a corda seca e depois a aresta ou cuenca -, conseguia-se criar revestimentos com padronagens de efeito visual semelhante às anteriores, a quais podiam ser produzidas com maior rapidez e muito provavelmente, a mais baixo custo, não só de fabrico, como também de assentamento. As peças passaram a ser de maiores dimensões e para criar esse efeito visual, a superfície apresentava pequenas zonas estanques, as quais eram vidradas com cores diferentes e protegidas por separadores que impediam que estas se misturassem ao fundir durante a cozedura.

Assim, a corda seca consistia na gravação do desenho numa placa de barro ainda húmida. Os sulcos obtidos eram depois preenchidos a manganês misturado com uma gordura, garantindo assim a separação dos vidrados de várias cores durante a cozedura. Pelo contrário, a aresta-viva consistia numa saliência com o desenho, que era conferida ao barro ainda húmido com o auxílio de um molde de madeira ou metal. Estas saliências faziam o mesmo efeito de separador dos vidrados coloridos, impedindo-os de se misturarem durante a cozedura.

RELEVADO

Tenho andado sem mãos a medir com a manufactura de réplicas para o Palácio da Vila, em Sintra.

Para além dos azulejos de aresta-viva e corda seca, que por si só já são complexos de executar, o maior desafio é reproduzir os azulejos com motivos em relevo.

Apoiada no cálculo de retração que o barro sofre após a secagem e a cozedura, o protótipo de cada azulejo é modelado à vista, tentando que o motivo em relevo se assemelhe o mais possível ao do azulejo original e respeitando não só as suas dimensões como também a sua espessura – neste caso, cerca de 16x16cm e quase 3cm de espessura, maravilhoso!

Depois do modelo estar terminado, tira-se-lhe um molde em gesso, a partir do qual é possível reproduzir tantos azulejos quantos se queira ou precise – neste caso, dois.

500 ANOS

Comecei a trabalhar numa encomenda para o novo circuito de acessibilidades previsto para o Palácio da Vila, em Sintra – a manufactura de réplicas de alguns dos azulejos mais antigos existentes em Portugal, quase todos provenientes de Sevilha, durante os séculos XV e XVI.

Trata-se de azulejos com diversas tipologias e técnicas diferentes, na sua maioria em aresta-viva e corda-seca – uma vez que este palácio possui a maior colecção de azulejaria hispano-mourisca in situ-, mas também alicatados, esgrafitados e relevados, os quais tenho de tentar reproduzir de acordo não só com as dimensões e espessura, mas também com as texturas e tonalidades.

Estou muito satisfeita, a fazer o que mais gosto. E um bocadinho orgulhosa, também.

 

 

CESOL

Entreguei hoje os azulejos que fiz para a Igreja de Cardigos, pertencente à diocese de Portalegre, os quais, parecendo fáceis de realizar, ainda me deram alguma água pela barba.

Tratam-se de réplicas de azulejos de meio-relevo industriais, feitos nos anos 70 pela Cesol, uma antiga fábrica de cerâmica existente em Souselas, e que eu tentei replicar manualmente, apesar de saber de antemão – e avisar – que o aspecto final seria sempre diferente do dos azulejos originais: impecavelmente planos e regulares, de corpo cerâmico feito em pasta branca e espessura fina e superfície vítrea imaculada, sem o mínimo defeito – perfeitamente fundida, sem nenhuma bolhinha ou ponta de alfinete, nada.

E assim sendo, entre a modelação do azulejo protótipo; a execução do molde que deveria ser a madre mas que afinal acabou por servir para a manufactura de mais de cem unidades; a secagem lentíssima e controlada, em pilhas de azulejos, a fim de tentar evitar empenos e deformações; a humidade deste inverno interminável aqui dentro da oficina; a procura da solução para mudar o tom das chacotas em pasta alaranjada que depois se iria notar sob a transparência do vidrado azul; os testes e experiências de cor falhados; as noites mal dormidas; o vidrado fino de mais; o vidrado grosso demais; a vidragem manual de cada azulejo a contar 1,2,3,4… sempre ao mesmo ritmo; a fornada à temperatura certa com o patamar final correcto; o acondicionamento em caixas de cartão e a entrega ao cliente esta tarde, passaram-se mais de dois meses.

Um pouco mais do que tinha previsto. Mas consegui.

 

 

 

 

EM SECAGEM

Entretanto, entre umas e outras coisas que tenho em mãos, acabei há uns dias de fazer a produção de chacotas para a execução de 100 réplicas de azulejos de meio-relevo, para as quais modelei o protótipo há cerca de um mês.

Tratam-se de réplicas de azulejos industriais, as quais estão a ser realizadas cem por cento à mão e que, obviamente, terão as devidas diferenças – apesar de eu estar a tentar fazê-los o mais parecidos possível. As chacotas são bastante finas e devem secar lentamente, empilhadas umas em cima umas das outras, para não correrem o risco de ficarem todas empenadas. O controlo de secagem é feito diariamente e os azulejos que se apresentam mais secos vão sendo estendidos em ganapos, para adiantar o processo – porque com a humidade que ainda se faz sentir aqui na oficina, estou a ver que nunca mais saio daqui.

 

COROAÇÃO DA VIRGEM

Há coisa de um ano estive ocupada com a manufactura de cerca de oitenta réplicas de azulejos de padrão do séc XVII, para colmatarem as lacunas que existiam no interior de uma pequena igreja na Louriceira e que na altura falei aqui.

Os trabalhos de conservação e restauro da igreja entretanto continuaram e fiquei agora a saber que, aquando da intervenção no revestimento azulejar, foram encontrados alguns azulejos figurativos que se encontravam assentes por aqui e por ali, no meio da padronagem e que depois de montados e organizados, vieram a revelar um registo votivo à Virgem Maria – o que faz sentido, uma vez que esta igreja ainda hoje é uma igreja de culto Mariano.

O painel  chegou aqui à oficina com dez azulejos em falta e segundo percebi, foi feita alguma investigação para se tentar encontrar alguma imagem antiga ou gravura na qual se conseguisse ver como seria o desenho original, a qual resultou em nada. A ideia de fazer azulejos lisos, sem desenho e dentro dos tons dos azulejos envolventes, foi posta de parte pela própria igreja, que alegou que sendo a mesma devota ao culto Mariano e estando o painel exposto, os crentes gostariam de rezar a uma imagem completa – o que para mim, apesar de não professar nenhuma religião, faz todo o sentido.

Decidi fazer o desenho o mais simples possível, tentando não inventar muito – ora fazendo simetrias, ora seguindo pormenores do desenho do azulejo anterior, ora dando continuidade a linhas e tons e manchas cromáticas; como se fosse possível saber o limite entre o inventar muito e o inventar pouco.

Adoro estes pequenos registos religiosos do séc. XVII, feitos com tanta ingenuidade por artesãos sem grandes noções de desenho, mas confesso que a coisa não foi totalmente fácil; por vezes não havia nenhum indício por onde me guiar, não existiam simetrias, o desenho não parecia fazer nenhum sentido e os azulejos envolventes não pareciam bater certo uns com os outros – várias vezes verifiquei as posições, mas estavam todas correctas. Nalguns pontos limitei-me apenas a prolongar um pouco as linhas de contorno existentes e assim as deixei ficar, sem saber o que fazer com elas.

Para não falar dos tons, claro – o manganês é muito instável e difícil de trabalhar e tenho pouca experiência na aplicação do verde cobre à pintura; já para não falar do vidrado branco do fundo, tão pouco branco.

Enfim, o desenho foi aprovado por parte da igreja e os azulejos foram pintados – alguns pormenores resultaram melhor do que outros; agora se calhar fazia-os doutra maneira, porque me parece que os originais não seriam bem assim; mas na verdade não faço ideia nenhuma de como seriam e todas as hipóteses poderiam ser sempre diferentes e esta até está razoável.

E agora recebi a fotografia do painel restaurado e já aplicado na parede; a ver se um dia destes consigo ir à Louriceira para visitar a Igreja Matriz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

GRAVAR

Hoje estive a gravar o protótipo de um azulejo em meio relevo, o mais parecido possível com este original que me entregaram para eu fazer a produção de cerca de cem réplicas – e que estava parado há já algum tempo ali na prateleira, à espera de ordem para avançar.

Confesso que esta tarefa de modelar e gravar é de todas a que mais me agrada fazer; fico obcecada e não consigo parar para a pausa do chichi ou a do lanchinho a meio da manhã ou até mesmo para o almoço – hoje fui safa pelo carteiro, que felizmente apareceu com uma carta registada para eu assinar, já passava das duas da tarde e foi quando aproveitei para comer, em pé e a olhar para o trabalho, quase a intercalar as garfadas com os acabamentos com o teque de corte.

Sou uma privilegiada, eu sei.