PLACAS RELEVADAS

Há muitos anos tive o privilégio de participar na equipa que executou a intervenção de conservação e restauro do revestimento azulejar do quarto de D. Sebastião, no Palácio Nacional de Sintra. Os azulejos encontravam-se em bom estado de conservação e a intervenção consistiu essencialmente em limpeza e consolidações de superfícies vidradas.

Nessa altura estava eu longe de imaginar que alguma vez iria ter de executar réplicas desses azulejos e agora, ei-las. Tenho alguma dificuldade em chamar-lhes “azulejos”, na verdade tratam-se de placas cerâmicas relevadas, com cerca de 20x20cm, com 2cm de espessura – para mais, nunca para menos. O desenho foi retirado no local e o azulejo protótipo foi modelado em barro aqui na oficina, a olho, através de fotografia.

São grandes e pesados, são lindos! Acho que são os exemplares de maiores dimensões que já reproduzi.

 

ENCANASTRADO

 

Na recta final e ainda a verificar resultados das réplicas de azulejos quinhentistas que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Aqui duas reproduções que apresentam, de forma simplificada numa peça só, um pequeno troço da moldura em azulejos da porta da Sala das Sereias, originalmente do tipo alicatado – técnica que consistia em cortar com um alicate pequenos fragmentos de placas de barro vidradas. Estes fragmentos tinham formas mais ou menos geométricas e, depois de recombinados, formavam pequenos painéis decorativos; neste caso, com um motivo encanastrado.

 

 

 

 

 

ILUSÃO DE ÓPTICA

Começo a ver finalizadas as réplicas que tenho andado a fazer para o Palácio de Sintra; aqui dois exemplares que reproduzem de forma simplificada, numa peça só, o módulo composto originalmente por três azulejos independentes, de dimensões, formas e cores diferentes, cuja repetição compõe o revestimento azulejar das paredes da Sala Árabe, criando um padrão geométrico de elevado efeito de ilusão de óptica tridimensional  e que mais parece uma criação contemporânea do que uma obra com mais de 500 anos de existência.

 

 

 

CHACOTAS

Começo a ver os resultados do trabalho que tenho andado a fazer nos últimos tempos.

Apesar de estar agora a modelar o protótipo de um friso em relevo e nem ter sequer ainda começado a trabalhar na última peça que me falta para terminar a encomenda do Palácio da Vila, em Sintra, tenho já as outras peças todas enchacotadas à espera de serem vidradas e depois cozidas novamente – a fase final do processo e aquela que mais me assusta no meio disto tudo.

 

HISPANO-ÁRABES

Continua a bom ritmo a manufactura de réplicas de azulejos que estou a fazer para o Palácio da Vila, a maioria dos quais em corda seca e aresta-viva – técnicas utilizadas nos azulejos de padronagem mudéjar, introduzidos na Península Ibérica através da cultura árabe e que chegaram a Portugal em finais do século XV, inícios de XVI, através de encomendas a oficinas hispânicas.

A corda seca e a aresta-viva, são no fundo uma evolução técnica do fabrico dos revestimentos murais de padronagem alicatada, composta por uma infinidade de pequenas peças únicas, de formas e cores diferentes, recortadas a alicate de placas de barro vidradas, de cor lisa. Com a introdução destas novas técnicas de fabrico – primeiro a corda seca e depois a aresta ou cuenca -, conseguia-se criar revestimentos com padronagens de efeito visual semelhante às anteriores, a quais podiam ser produzidas com maior rapidez e muito provavelmente, a mais baixo custo, não só de fabrico, como também de assentamento. As peças passaram a ser de maiores dimensões e para criar esse efeito visual, a superfície apresentava pequenas zonas estanques, as quais eram vidradas com cores diferentes e protegidas por separadores que impediam que estas se misturassem ao fundir durante a cozedura.

Assim, a corda seca consistia na gravação do desenho numa placa de barro ainda húmida. Os sulcos obtidos eram depois preenchidos a manganês misturado com uma gordura, garantindo assim a separação dos vidrados de várias cores durante a cozedura. Pelo contrário, a aresta-viva consistia numa saliência com o desenho, que era conferida ao barro ainda húmido com o auxílio de um molde de madeira ou metal. Estas saliências faziam o mesmo efeito de separador dos vidrados coloridos, impedindo-os de se misturarem durante a cozedura.

500 ANOS

Comecei a trabalhar numa encomenda para o novo circuito de acessibilidades previsto para o Palácio da Vila, em Sintra – a manufactura de réplicas de alguns dos azulejos mais antigos existentes em Portugal, quase todos provenientes de Sevilha, durante os séculos XV e XVI.

Trata-se de azulejos com diversas tipologias e técnicas diferentes, na sua maioria em aresta-viva e corda-seca – uma vez que este palácio possui a maior colecção de azulejaria hispano-mourisca in situ-, mas também alicatados, esgrafitados e relevados, os quais tenho de tentar reproduzir de acordo não só com as dimensões e espessura, mas também com as texturas e tonalidades.

Estou muito satisfeita, a fazer o que mais gosto. E um bocadinho orgulhosa, também.

 

 

VOCÊ ESTÁ AQUI

 

Título: Você está aqui

Painel de azulejos apresentado no âmbito da exposição RE7 By the Nest, baseado na malha urbana de um dado lugar, feita pela conjugação de edifícios e infra-estruturas existentes e de espaços vazios, não edificados.

140cmx140cm

 

CESOL

Entreguei hoje os azulejos que fiz para a Igreja de Cardigos, pertencente à diocese de Portalegre, os quais, parecendo fáceis de realizar, ainda me deram alguma água pela barba.

Tratam-se de réplicas de azulejos de meio-relevo industriais, feitos nos anos 70 pela Cesol, uma antiga fábrica de cerâmica existente em Souselas, e que eu tentei replicar manualmente, apesar de saber de antemão – e avisar – que o aspecto final seria sempre diferente do dos azulejos originais: impecavelmente planos e regulares, de corpo cerâmico feito em pasta branca e espessura fina e superfície vítrea imaculada, sem o mínimo defeito – perfeitamente fundida, sem nenhuma bolhinha ou ponta de alfinete, nada.

E assim sendo, entre a modelação do azulejo protótipo; a execução do molde que deveria ser a madre mas que afinal acabou por servir para a manufactura de mais de cem unidades; a secagem lentíssima e controlada, em pilhas de azulejos, a fim de tentar evitar empenos e deformações; a humidade deste inverno interminável aqui dentro da oficina; a procura da solução para mudar o tom das chacotas em pasta alaranjada que depois se iria notar sob a transparência do vidrado azul; os testes e experiências de cor falhados; as noites mal dormidas; o vidrado fino de mais; o vidrado grosso demais; a vidragem manual de cada azulejo a contar 1,2,3,4… sempre ao mesmo ritmo; a fornada à temperatura certa com o patamar final correcto; o acondicionamento em caixas de cartão e a entrega ao cliente esta tarde, passaram-se mais de dois meses.

Um pouco mais do que tinha previsto. Mas consegui.

 

 

 

 

ADAC Reisemagazin

No início deste ano recebi um email de uma revista de viagens, a ADAC Reisemagazin – a maior revista de viagens alemã, com mais de 2 milhões de leitores – a dizer-me que em Junho ia sair uma edição sobre Portugal e que na reportagem fotográfica sobre “Pessoas de Portugal” gostariam de retratar uma artista de azulejos e que achavam que eu seria uma óptima protagonista e perguntavam se eu estaria interessada em participar…

Ei-la. Agora é tentar perceber se tudo o que eu disse bate certo com o que está escrito…