ARESTA-VIVA

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Na quinta-feira passada fui contactada para fazer algumas réplicas de azulejos para o Miradouro de Sta. Luzia, em Lisboa – o que veio mesmo a calhar, uma vez que estava sem trabalho de novo.

Tratam-se de alguns azulejos de aresta-viva com a esfera armilar, algumas figuras avulso 15x15cm e ainda meia-dúzia de azulejos figurativos manuais para colmatarem as lacunas da fonte, dos bancos e do painel com a vista de Lisboa existentes lá no Miradouro.

O que não dá jeito nenhum é o prazo curtíssimo que tenho para entregar principalmente as esferas armilares e as figuras avulso – dia 16 deste mês convinha que estivessem na parede e não gosto de começar um trabalho já em stress com o prazo.

Apesar de não serem muitas unidades de cada tipologia, preocupam-me sobretudo  os de aresta-viva, que para além da manufactura do molde, ainda há todo o processo  de execução de chacotas, que têm de secar controlada e lentamente o mais rápido possível, para que não empenem nem se partam durante a primeira cozedura e depois ainda a vidragem e a pintura e depois ainda a segunda cozedura.

Hoje tirei do forno as primeiras experiências de cores de vidrados; para já, parece-me que estou no bom caminho. Mas estou a achar isto tudo muito apertado.

FIGURATIVOS

Stitched Panorama

Um dos mais gritantes aspectos do mau estado de conservação do painel de azulejos da autoria de Júlio Pomar e Alice Jorge, na Av. Infante Santo, em Lisboa, era a existência de grandes lacunas integrais principalmente nas zonas figurativas ali representadas.

A visível degradação do suporte devido a problemas estruturais, com argamassas de reboco e assentamento bastante envelhecidas, foram, entre outras, algumas das causas para a perda irremediável dos azulejos originais; mas se no diagnóstico do estado de conservação do painel, executado antes da intervenção de restauro, constava que os azulejos se encontravam em risco de destacamento da superfície de suporte, a verdade é que, aliado a este facto que também acontecia, muitos deles foram “caindo” estratégica e curiosamente apenas nas zonas figurativas – que por si só poderiam formar pequenos painéis independentes.

A segunda fase da manufactura das réplicas para este painel, depois da produção quase em série das 650 unidades de padronagem, foi então a da pesquisa, reconstituição, elaboração de desenhos, procura de cores, abertura de muitas, muitas máscaras, pintura e enforna de cerca de mais 150 azulejos que finalmente devolvessem as personagens desaparecidas ao painel e também a sua integridade inicial. E aí o trabalho foi bastante mais moroso.

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PADRONAGEM MODERNISTA

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Dos 800 azulejos que tive de executar para o painel do Júlio Pomar e da Alice Jorge,  na Av. Infante Santo,  em Lisboa, cerca de 650  unidades foram para colmatar as lacunas existentes na padronagem que forma todo o fundo do painel e sobre a qual aparecem, então, as figuras soltas, representativas da vida quotidiana da Lisboa de então.

A padronagem existente é composta por azulejos de tipologias diferentes, que se repetem e conjugam formando módulos distintos e o número de azulejos a replicar variou consoante cada tipologia, de acordo com as necessidades dos originais em falta ou em avançado mau estado de conservação.

O maior problema – como sempre – foi o da afinação das cores; nenhuma delas era lisa e directa, mas sim uma mistura de tons dada pela sobreposição de vidrados, técnica muito querida pelos ceramistas modernistas, mas que eu pouco dominava, habituada como estava aos óxidos e tintas de alto fogo comuns da azularia tradicional dos séculos anteriores.

Começou assim a saga das experiências de vidrados; primeiro em busca dos tons lisos, opacos e transparentes; depois sobrepondo uns com os outros, opacos por baixo e transparentes por cima e vice-versa, que os resultados são diferentes. E ainda a recriação do mesmo efeito esponjado que os vidrados originais tinham; com esponja, ora bem, mas com qual esponja, mais miúdinha, menos miúdinha, e o efeito, mais aberto ou mais fechado? E fazê-lo vezes sem conta, sempre igual?

Finalmente e depois de tempo a mais do que o que eu tinha previsto, consegui que me aprovassem as cores todas – diga-se em abono da verdade, que os próprios originais variavam muitíssimo entre si e estávamos a ser mais papistas do que o papa. E depois de abrir as estampilhas necessárias a cada tipologia, pude por fim começar a produção em série dos azulejos, tentando executar manualmente os mesmos gestos e procedimentos sempre da mesma forma, 650 vezes, sobrepondo cores sobre cores, até estarem todos prontos para irem para a parede.

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DESFASAMENTO TEMPORAL

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Faz agora um ano andava eu sem mãos a medir, ocupada com a produção de quase 800 réplicas de azulejos que colmatassem as lacunas e substituíssem os originais em muito mau estado de conservação, do painel modernista de 1958, da autoria de Júlio Pomar e Alice Jorge, existente na Av. Infante Santo, em Lisboa.

A minha história com esse painel foi curiosa e até já a contei aqui – primeiro fui convidada pela CML a orçamentar uma intervenção de conservação e restauro dos azulejos que não contemplasse a manufactura de réplicas; dois anos depois fui convidada pela equipa que iria então fazer essa mesma intervenção de conservação e restauro dos azulejos para orçamentar apenas a manufactura das réplicas – e ganhei o orçamento.

O trabalho foi bastante moroso, quatro meses ou mais e durante esse período pediram-me que não o fosse divulgando aqui, como tenho o hábito de ir fazendo. Mas como já passou mais de meio ano sobre a conclusão de toda a intervenção de conservação e restauro dos azulejos, tenciono agora e nos próximos tempos escrever artigos vários que venham a ilustrar todo o processo de manufactura das cerca de 800 réplicas que tive de fazer e que contribuíram para devolver a integridade original do painel.

BALAÚSTRES

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Há cerca de duas ou três semanas recusei uma encomenda que me fizeram para manufacturar 2100 balaústres em terracota, para uma casa particular. Nunca fiz um balaústre, mas não foi esse o problema, até faria uns quantos com todo o gosto; mas 2100 unidades não só ultrapassa toda a logística possível aqui da oficina, como também a minha vontade – quero ter trabalho, claro; mas não me apetece ficar a fazer balaústres durante meses e meses seguidos.

A semana passada, fui contactada para ir ver um trabalho num edifício em Lisboa, precisavam de alguém que fizesse uma pequena intervenção de restauro nos azulejos. Fui lá ver o que era – afinal os azulejos estão em óptimo estado de conservação, apenas umas falhitas de vidrado a precisarem de ser integradas e, curiosamente, uma série de balaústres no telhado, a precisarem de limpeza, consolidações de vidrados, preenchimentos e integração cromática.

Comecei ontem a limpá-los. São lindos.

ARCO DO ALHAMBRA

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Entreguei já todas as réplicas dos azulejos relevados que me encomendaram para o Arco do Alhambra – 10 “Parras”, 10 “Folhas de Videira”e 15 “Panóplias Militares” – que irão colmatar lacunas e substituir azulejos em franco mau estado de conservação existentes na superfície parietal.

A encomenda foi-me feita no início de Dezembro e ainda assim consegui fazê-la em tempo record, tendo em conta que para cada exemplar teve de ser modelado um protótipo inicial, fazer-se um molde e tirar-se mais do que o número de azulejos precisos; isto durante estes dois últimos meses em que a humidade e o frio aqui na oficina estiveram nos seus limites máximos e toda a secagem foi bastante complicada.

Depois foram as experiências de cor, inúmeros testes de vidrados base e tintas de alto fogo, receitas, referências e fornadas, que se foram acumulando aqui na bancada e que agora ainda tenho de inventariar. E a seguir vidrar e pintar cada um deles, com calma para o resultado ficar bem.

Anteontem entreguei as réplicas ao meu colega Ivo, que tem estado a fazer o restauro de todo o conjunto azulejar e que as vai assentar na parede – uma semana antes do prazo que eu tinha previsto, pois assim mo pediram de repente. Não fiquei totalmente segura quanto aos verdes, estava ainda a tirar conclusões quanto ao tom, à consistência da tinta e à temperatura de cozedura; ainda me faltou mais um passo, que já não tive tempo de o fazer. De qualquer modo os verdes originais variam bastante de tonalidades; basta pensar que uma produção daquela quantidade era cozida em fornos a lenha e sujeita a diferentes temperaturas entre si.

Estou curiosa para ver o resultado.

Recta final

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Entrei na recta final da manufactura das réplicas para o Arco do Alhambra, no Palácio da Pena. Depois de fazer inúmeras experiências de cores de vidrados e tintas, tive de me forçar a decidir por algumas delas e arriscar-me a vidrar e pintar alguns azulejos, não fosse ficar aqui ad aeternum em busca de um tom que agora é um bocadinho mais verde limão e depois leva mais 0,3% de M702 e afinal também ainda mais um grama de manganês; mas diluído em 15ml e não em 30, como tinha feito antes – felizmente o prazo de entrega foi antecipado e de repente fiquei com cerca de uma semana a menos do que aquilo que eu estava a contar.

Estive então a vidrar as chacotas das parras e das videiras. Aparentemente este processo não é assim tão linear como aquele a que eu estou habituada; uma vez que não se tratam de azulejos lisos, tive alguma dificuldade em perceber qual a espessura ideal do vidrado a aplicar – se mais fino, comportando-se melhor nas zonas relevadas mas ficando careca sobre o fundo; se mais espesso, cobrindo perfeitamente o fundo, mas com o risco de ficar com demasiada camada na zona do relevo, o que poderá traduzir-se em abertura de gretas ou fendilhamento das cores aquando da cozedura.

Agora falta a pintura. Amanhã, se tudo correr bem, ficam os 20 prontos a irem para o forno. E depois só faltam as Panóplias Militares – que têm cores completamente diferentes destes.

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SECOS

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Entrei neste ano de 2015 com algum trabalho entre mãos, o qual me tem mantido bastante ocupada nestes últimos tempos. Tive uma encomenda de réplicas de três azulejos relevados diferentes – Parra com cacho de uvas, Videiras e Panóplias militares -, que já tinha falado aqui e aqui, num total de trinta e cinco unidades. Apesar da pouca quantidade de cada tipologia, a fase inicial inicial é sempre a mesma, trabalhosa e minuciosa – modelar um protótipo à vista e depois fazer um molde. A partir desse molde consigo tirar o número de unidades que preciso, neste caso dez ou quinze de cada, mas que poderiam até ser mil.

Neste momento e depois de penar com tanto frio e humidade no ar, tenho finalmente todos os azulejos secos e prontos para serem enchacotados. E depois é passar à segunda fase, a dos vidrados e tintas, a qual, confesso, me deixa sempre ligeiramente angustiada.

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RELEVO

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Dei por terminada a modelação do protótipo do azulejo relevado com a parra e o cacho de uvas.

É difícil parar; há sempre mais um retoquezinho a fazer e mais um pormenor a melhorar e mais qualquer coisa que ainda não está bem e o tornilho gira no seu eixo, sempre às voltas sobre si mesmo; infinitamente para a esquerda e para a direita, de modo a podermos trabalhar todos os ângulos de todos os ângulos, sem sairmos de mesmo lugar. Às vezes penso que nalguma altura deveria aparecer alguém aqui que me dissesse pára, pá, que isso já está mais do que bom!, mas não aparece ninguém e assim continuo a girar o tornilho de um lado para o outro, à procura de algo mais para fazer; os óculos  na ponta do nariz e uma bolinha de barro pequenina na mão.

Dei por terminada a modelação deste protótipo; lá me lembrei que ainda tenho mais outros dois para começar. E pensando que as dez réplicas que preciso fazer vão estar misturadas entre não sei quantos azulejos originais a não sei quantos metros de altura, se calhar não deverei estar assim tão preocupada com os detalhes do relevo – assim consiga as cores das tintas e dos vidrados.