PADRONAGEM POMBALINA

P1090696

Estamos finalmente a terminar a intervenção do nº 31, no Chiado, em Lisboa. O trabalho começou no verão passado e foi dividido por três fases: inventariação e separação de cerca de sete mil azulejos armazenados aleatoriamente na cave do edifício; selecção e montagem de paineis e posterior tratamento de conservação e restauro na oficina e, por fim, assentamento dos azulejos, preenchimentos e integração cromática in situ  – o que estamos a fazer agora. Amanhã damos o trabalho por concluído, depois da aplicação da cera microcristalina.

PRETO E BRANCO

P1090349

Voltei a Setúbal, à casa do Sr. Joaquim, que me ligou, após quase um ano de eu lá ter ido pela última vez. As coisas não têm estado paradas e o Sr. Joaquim quis mostrar-me as alterações que tem vindo a fazer  – basicamente, tentar devolver a integridade original a uma casa de campo, de 1904, a qual sofreu bastantes adulterações nestes últimos anos. O Sr. Joaquim é muito cuidadoso e foi graças a esse cuidado que conseguiu encontrar, por baixo de um chão em betonilha, na casa-de-banho do primeiro andar, estes mosaicos hidráulicos que revestiam o chão original. E são lindos!

SACRISTIA

Fui contactada para ir fazer uma intervenção de emergência nos azulejos da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa – quer na zona da secretaria, quer na salinha dos paramentos.

Segundo consta, o culto a Nossa Senhora da Saúde começou em inícios do séc. XVI, época da grande peste. O povo, ao ver que todos os recursos humanos falhavam, recorreu a Nossa Senhora, organizando procissões de penitência em sua honra. Como o número de mortes foi diminuindo consideravelmente, passou a fazer-se uma grande procissão anual de agradecimento à Virgem Maria, a qual passou a ter o título de Nossa Senhora da Saúde.

Em meados dos anos 80, já no séc. XX, a Câmara Municipal de Lisboa mandou construir o Centro Comercial da Mouraria; o que estaria muito bem, não fosse a ideia brilhante de o colar, paredes meias, com esta igreja, mais precisamente com a zona da sacristia. Obviamente que essa construção colocou e continua a colocar em risco o estado de conservação do edifício, quer a nível estrutural quer a nível da incompatibilidade dos materiais. Neste momento, uma das paredes – a tal que precisa de intervenção de emergência – encontra-se escorada e em risco de colapso (e o tecto em madeira também não me parece que se safe) e é claro que os azulejos lá existentes, datados do séc. XVIII, precisam de ser levantados e, para já, acondicionados numa caixa.

Mais uma vez pude constatar o estado a que chegou o nosso património edificado, vítima de incúria, ignorância e asneirada consecutiva ao longo de vários anos, por parte de quem deveria ter conhecimentos, bom senso e capacidade de bater o pé e dizer não! – mesmo que outros interesses mais altos se levantem.

Neste caso, nem a Nossa Senhora lhes valeu.

ALICE JORGE E JÚLIO POMAR

Em Julho fui contactada pelo Departamento de Património Cultural e Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para orçamentar uma intervenção de conservação preventiva num dos painéis – maravilhosos, todos! – da Av. Infante Santo, em Lisboa. Neste caso, tratava-se do painel modernista da autoria de Alice Jorge e Júlio Pomar; em lastimável estado de conservação, com várias lacunas que perfazem já cerca de 600 azulejos (que muito provavelmente se perderam) e outros quantos em risco de destacamento. A proposta visava o registo gráfico pormenorizado do estado de conservação do painel, o seu levantamento integral e posterior tratamento preventivo – consolidações e limpeza. Os azulejos seriam então guardados enquanto não se encontrassem os desenhos dos motivos em falta, as tais 600 lacunas.

Meti-me imediatamente em campo – o trabalho interessava-me, por todos os motivos: contactei quatro ou cinco empresas de andaimes; fui ver e fotografar o painel duas vezes e depois de perspectivar várias abordagens à intervenção e respectivos custos, entreguei o orçamento pedido. Mais tarde, foi-me comunicado que muito provavelmente, à minha proposta inicial, teria de acrescentar também a fase do restauro e assentamento integral do painel – os desenhos tinham aparecido e já se podiam fazer as réplicas. Que eu aguardasse, que no fim de Agosto receberia um novo pedido para execução de novo orçamento.

Como já vamos em meados de Setembro e ainda não me chegou nenhum pedido às mãos, entrei ontem em contacto com o Técnico responsável por este assunto, o qual me respondeu que «infelizmente as notícias não são as que todos nós gostaríamos; as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades.» Mas que talvez para o próximo ano… E pronto; assim está o estado do nosso património. Talvez para o próximo ano a lacuna existente seja já de 900 azulejos e o melhor seja mesmo acabar de vez com aquele painel e alcatroar a parede inteira – que para estradas há sempre dinheiro.

31

Há coisa de um mês – antes de ir duas semanas para fora, a banhos – comecei um novo trabalho, desta feita no 31 de uma rua central em Lisboa. Para primeira fase tratava-se de separar e inventariar o espólio azulejar que tinha sido levantado da parede há mais de três anos e do qual não havia registo – e que se encontrava empilhado aleatoriamente na cave do edifício. Para além de se tentar perceber o que é que ali estava, havia também a necessidade de se encontrar 26m2 de uma padronagem específica e respectiva cercadura para revestir a escadaria de entrada que, segundo uma fotografia antiga, lá estaria originalmente e que não se sabia se ainda existia ou quanto é que existia.

Ao fim de cinco dias de trabalho intensivo conseguimos separar e inventariar cerca de 3817 azulejos – fora os oito caixotes com fragmentos da mesma tipologia – separados por 13 tipos de padronagem; 9 tipos de cercaduras; 12 tipos de rodapés; 2 tons de azulejos brancos e ainda 3 conjuntos de azulejos da mesma tipologia possível de serem analisados numa outra ocasião.

Para meu contentamento encontrámos quase toda a totalidade da padronagem pretendida, que, após tratamento de conservação e restauro, poderá voltar para a parede e cumprir a função para a qual foi feita.

TRAVESSA DO TERREIRO A STA. CATARINA

  

  

Terminei a obra de restauro dos azulejos da fachada do nº 11 da Travessa do Terreiro a Sta. Catarina. A intervenção consistiu essencialmente na manufactura de cerca de 200 réplicas de azulejos, entre frisos e padronagem, que colmatassem a grande lacuna existente e que também substituíssem alguns azulejos que ali estavam e que não pertenciam àquele conjunto. Havia ainda – e continua a haver – algumas réplicas provenientes de uma outra intervenção anterior, que o dono da obra quis manter e ainda bem, porque estavam todas assentes em cimento, como já se estava mesmo à espera.

O resto da intervenção seguiu os procedimentos habituais: limpeza profunda, consolidações de falhas de vidrado, preenchimentos e integração cromática. Apesar da pouca segurança do andaime que me arranjaram e do escadote para acabamentos finais, acho que ainda assim ficou bem melhor do que estava. E espero que assim se aguente por uns bons anos.

FACHADA

Alvorada às seis e meia da manhã.

Ontem estive todo o dia com os ladrilhadores a assentar as réplicas que fiz para a fachada do nº 11 em Sta. Catarina. Às oito horas já lá estávamos os três e ainda bem, o trabalho foi bastante moroso e delicado – o prédio é muito antigo, nenhuma parede ou cantaria está de nível e havia muitos cortes a fazer nos azulejos, o que, sem a minha coordenação teria corrido mal. O Sr. Pedro já bufava por todos os lados e por mais que virasse cada azulejo que queria assentar, não havia meio de perceber onde é que tinha de fazer o corte e às vezes quase que nem eu. Entretanto os velhotes de cima não paravam de reclamar que tinham o tecto lá de casa numa miséria e que isso «eles» não querem saber; da janela da frente vinha um som irritante de tiroteio de um desses jogos modernos que agora para aí há; a carrinha tinha de ser constantemente chegada para a frente ou para trás, para poderem passar as da distribuição do gás e dos refrigerantes e o pó que nós fazíamos alastrava pela roupa estendida nos estendais lá da rua.

Mas conseguimos – às cinco e meia da tarde o Sr. Pedro deu o seu trabalho por concluído e eu ainda lá fiquei mais uma horita a limpar a fachada e a varrer a rua da sujidade que nós fizemos – e a outra que já lá estava no chão. Quando saí, fui beber uma mini ao café da esquina.

ESTADO LASTIMÁVEL

Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.

Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.

Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.

ESTUFA FRIA

Está terminada a intervenção de conservação e restauro dos tijolos vidrados existentes no pórtico de entrada da Estufa Fria, em Lisboa. Apesar da satisfação de mais um trabalho terminado, é com alguma pena que se deixa um lugar assim – tão agradável, tão tranquilo e com um cheiro tão bom. Obrigada às minhas colegas Margarida e Sofia, que se empenharam mais uma vez e ajudaram a entregar o trabalho dentro do prazo; sem elas eu não teria conseguido.

No seguimento da nossa intervenção, entra a equipa de conservação e restauro de pedra e depois, se tudo correr bem, é esperar que a Estufa Fria reabra finalmente ao público, agora que as obras de reestruturação da cobertura, que se encontrava em risco de colapso, parecem estar também numa fase bastante avançada.

E quando abrir, aconselho vivamente toda a gente a ir lá fazer uma visitinha.

NIVELAR E RECTIFICAR

Está praticamente terminada a tarefa mais morosa da intervenção de conservação e restauro dos tijolos vidrados do pórtico de entrada na Estufa fria, em Lisboa; faltam apenas nivelar e rectificar um ou dois preenchimentos. Ainda hoje está previsto o início da integração cromática, que em princípio vai ser rápida – assim se encontrem os tons pretendidos; mas, uma vez que se trata de restauro a frio, não me parece que seja muito complicado.