NÃO VI NADA!

Passei no 88 para entregar ao engenheiro uma 2ª via de uma factura minha, já antiga, que se extraviou (leia-se perderam). Como ele afinal não se encontrava por lá, pediu-me para deixá-la no seu escritório, a cozinha de um dos apartamentos do 1º piso, em cima da mesa, que «ali ninguém mexe» (leia-se vão perdê-la outra vez…).

Aproveitando que ali estava, resolvi ir coscuvilhar o prédio, está claro. Está claríssimo, também, que me ía dando uma coisinha má quando vi estes azulejos e mais uns quantos de outros painéis, completamente arrancados da parede. Segundo o pintor que ainda lá anda e ainda por lá vai continuar um bom tempo, parece que os carpinteiros tiveram de ir emendar as umbreiras das janelas, que estavam tortas e como aquilo, pelos vistos, não ía lá a bem, deram tantas cacetadas na madeira que acabaram por fazer este lindo trabalhinho, deixando os azulejos ali, empilhados no chão e um ou outro partido.

Confesso que, depois do impacto inicial, tive o sangue frio de fechar a minha malinha, descer as escadas e ir-me embora dali o mais rápido possível. Até à data ainda ninguém me telefonou por causa deste caso e não tenciono ser eu a falar deste assunto; o trabalho estava entregue com tudo pronto e se for para voltar lá, só com novo orçamento. Para todos os efeitos, eu não vi nada.

ALMOFARIZ

Na sexta-feira fui ao Palácio da Pena mostrar algumas das minhas (muitas) experiências de brancos que fiz para colmatar as lacunas de azulejos existentes no vão da janela neo-gótica da capela. Apesar de ter comigo duas pequenas amostras dos azulejos originais, os tons eram tão diferentes um do outro que a melhor solução foi lá ir, para ver in-situ e com o director do Palácio, qual era a que melhor se adaptava ao local – se é que alguma se adaptava. Foram escolhidos dois tons que já se assemelham muito aos do restante conjunto e a ideia é vidrar uma chacotas com um e outras com o outro, para garantir uma boa vibração tonal daquela zona, que se encontra cheia de luz.

Como estou lançada nisto de fazer experiências de brancos, resolvi pegar nas amostras escolhidas e, a partir dessas, já me ocorreram mais não sei quantas receitas que posso experimentar – podia ficar assim o resto da vida; as hipóteses desmultiplicam-se a olhos vistos.  Vou partir de um vidrado base que temos aqui na oficina, que nunca usamos e que agora se revelou ser o mais adequado para estas réplicas. O saco estava guardado há que tempos e o pó apanhou alguma humidade, havendo alguns torrões que têm de ser desfeitos no almofariz. É uma tarefa um pouco morosa, mas fico com a impressão de ser uma ceramista a sério, parecida com os senhores que vêm nas imagens dos livros de cerâmica que temos aqui na oficina.

WORKSHOP

Lusitânia, Teatro romano, Mettelinium, Afrescos, Conímbriga, Domus Aurea, Dolomite, Agregados, Areias siliciosas, Calcite, CaCo3, Ammaia, Pozolanas, Carbonatação, Aglutinante, Pirolusite, Óxidos, Cinábrio, Arsenikon, Massicote, Mínio, Branco de chumbo, Lápis-lazuli, 480º, Jazidas, Cré, Minas de S. Domingos, Negro de osso, Vitrúvio, Opus Caementicium, Casca de arroz, Calcário, Reboco, Pedreira, Leite de cal, Estuque, Verdigris.

RUA DA ASSUNÇÃO, Nº 88 – TERMINADO!

Não fosse esta constipação que me está a deitar abaixo há dois dias e hoje tinha um motivo para ir comemorar: dois meses depois do previsto e alguns  €€€ fora do orçamento, acabei – finalmente! – a intervenção no 88! (Quando digo acabei, quero dizer que dei como acabado, porque ali ainda tudo pode acontecer). 7750 azulejos do séc. XIX, divididos em vários painéis de padronagem pombalina e figurativos D. Maria que foram levantados, reorganizados, restaurados e reassentados nos novos apartamentos dos cinco pisos do edifício pombalino da Rua da Assunção, nº 88, em Lisboa. Estou satisfeita; até o primeiro lance das escadas, que tinha sido quase todo roubado, resultou bem – improvisado com  azulejos soltos de padronagem e cercaduras que sobraram dos outros painéis. Agora é tratar de fazer o relatório da intervenção, entregá-lo e receber o que ainda falta. E depois, é fazer rapidamente a agulha para outro lado, tentando esquecer tudo isto. Mas não aquilo que aprendi – que ainda foi bastante.

ELE HÁ DIAS…

Apesar da obra ainda não ter terminado, começaram a chegar os móveis ao 88: camas, colchões, sofás, espelhos, quadros, candeeiros. E com eles, chegou também a decoradora – simpática e despachada; perguntou-me logo se eu tinha tirado o curso na Ricardo Espírito Santo, claro e queixou-se do pó. Era a minha deixa para lhe perguntar porque é que estava um espaldar de cama colado com silicone a um  painel de azulejos, que tanto trabalhinho tinha dado e redado a tratar e que agora está tapado integralmente, mas não tive coragem. Convenhamos que a cama, apesar de parecer em plástico, é de madeira lacada e o painel… bom, não se pode dizer que esteja todo tapado, sempre se vê um bocadinho; eu também já estou a ser mázinha! Enfim, «é um trabalho de paciência!», disse-me ainda a senhora, enquanto me observava a pintar alguns preenchimentos de falhas de vidrado, ao que eu respondi «ele há dias…».

STA. ENGRÁCIA

Há mais de um mês que estou na recta final da intervenção de levantamento, tratamento e reassentamento dos painéis de azulejos do 88. Trata-se de uma recta muuuuuito looooonga; sempre que lá vou, para dar os retoques finais, perco ainda algum tempo a limpar novamente o que já estava limpo, ou a pôr uma massinha nalgum azulejo que tinha escapado – tal era a quantidade de coisas constantemente à frente dos painéis – ou ainda a ter de esperar que os electricistas ou os pintores ou os carpinteiros acabem de fazer o que têm de fazer antes de eu poder trabalhar. O mais engraçado é que me garantem sempre «Isabel, pode vir, já não está lá ninguém e queremos entregar a chave esta semana» e eu vou, decidida a acabar aquilo (falta-me sempre muito pouco para terminar) e no meio da poeirada vejo as mesmas equipas a refazerem o seu trabalho, ou a partirem algum tecto ou parede – ou algum azulejo. As senhoras da limpeza também lá andam, pelo menos desde antes do Natal, não sei bem a fazer o quê; coitadas, são mais umas que vão ter de refazer o seu trabalho não sei quantas vezes. Enfim, há que ver as coisas pelo lado positivo; pelo menos começo o ano com trabalho – apesar de ser sempre e ainda o mesmo trabalho e não ganhar nem mais um tusto por isso – o que, psicologicamente, resulta.

ANO NOVO!

  

Não me posso queixar: entro em 2012 logo a fazer um orçamento. Para um trabalho pequeno, bem sei; mas sempre é um orçamento de conservação e restauro de azulejos e provavelmente será aceite. Trata-se de um hall de entrada de um prédio dos anos 30, com painéis de azulejos figurativos executados na extinta Fábrica Lusitânia – da qual apenas resta a chaminé, conservada no exterior do edifício da Culturgest, ali no Campo Pequeno. O trabalho é simples e não tem nada que saber; o mais complicado ainda há-de ser a manufactura de cerca de catorze ou quinze réplicas de azulejos, que desapareceram (claro está!) e cujas chacotas, em pó de pedra e com aquelas dimensões, já não se fabricam. Mas enfim, nada que não se faça e que não se consiga orçamentar.

EM STAND BY…

Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.

No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.

No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.

OBRIGADA, INÊS!

Ontem comemorou-se mais um aniversário do Museu Militar; se não estou enganada, o centésimo sexagésimo qualquer coisa. Foi inaugurada uma exposição temporária sobre as Guerras Peninsulares e houve uma cerimónia oficial, com condecorações e entrega de diplomas de honra e também com uma apresentação do trabalho de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões. Fui completamente apanhada de surpresa, pois, apesar de já ter sido avisada que isto ía acontecer, fiquei convencida que a data era primeiro no dia 10 e depois, na terça-feira, dia 5 de Dezembro. Só não me lembrei é que dia 5 de Dezembro, afinal, calhava a uma segunda-feira – ontem, portanto e não hoje. Por acaso, na sexta-feira passada tratei de fazer um Power Point, ou melhor, fez a minha colega Inês (eu sózinha nunca teria conseguido!) e, por acaso, também, fui com ela ontem de manhã ao Museu Militar para começarmos a recolher material que já não é lá preciso, quando fui informada que estava tudo preparado para a tarde. Por sorte tinha o tal Power Point comigo e a Inês à mão, de modo que não tive outro remédio senão o de instalar a coisa ali mesmo e esperar que tudo corresse bem. Claro que não ensaiei nada e claro que não fui um pouco mais bem vestida, tal como tinha pensado, mas pronto; lá fiz uma apresentação para o Estado Maior do Exército e respectivas famílias, sempre com um olho nas fotografias e o outro na Inês, que as ía passando. Não me lembro bem do que é que disse, mas toda a gente estava atenta e no fim todos bateram palmas e vieram-me cumprimentar e dar-me os seus parabéns não só pela apresentação «claríssima!», como pelo óptimo trabalho executado. No final, bebi um Porto seco, comi um bolinho de chocolate e voltei para a poeirada.