CHACOTAS

Começo a ver os resultados do trabalho que tenho andado a fazer nos últimos tempos.

Apesar de estar agora a modelar o protótipo de um friso em relevo e nem ter sequer ainda começado a trabalhar na última peça que me falta para terminar a encomenda do Palácio da Vila, em Sintra, tenho já as outras peças todas enchacotadas à espera de serem vidradas e depois cozidas novamente – a fase final do processo e aquela que mais me assusta no meio disto tudo.

 

HISPANO-ÁRABES

Continua a bom ritmo a manufactura de réplicas de azulejos que estou a fazer para o Palácio da Vila, a maioria dos quais em corda seca e aresta-viva – técnicas utilizadas nos azulejos de padronagem mudéjar, introduzidos na Península Ibérica através da cultura árabe e que chegaram a Portugal em finais do século XV, inícios de XVI, através de encomendas a oficinas hispânicas.

A corda seca e a aresta-viva, são no fundo uma evolução técnica do fabrico dos revestimentos murais de padronagem alicatada, composta por uma infinidade de pequenas peças únicas, de formas e cores diferentes, recortadas a alicate de placas de barro vidradas, de cor lisa. Com a introdução destas novas técnicas de fabrico – primeiro a corda seca e depois a aresta ou cuenca -, conseguia-se criar revestimentos com padronagens de efeito visual semelhante às anteriores, a quais podiam ser produzidas com maior rapidez e muito provavelmente, a mais baixo custo, não só de fabrico, como também de assentamento. As peças passaram a ser de maiores dimensões e para criar esse efeito visual, a superfície apresentava pequenas zonas estanques, as quais eram vidradas com cores diferentes e protegidas por separadores que impediam que estas se misturassem ao fundir durante a cozedura.

Assim, a corda seca consistia na gravação do desenho numa placa de barro ainda húmida. Os sulcos obtidos eram depois preenchidos a manganês misturado com uma gordura, garantindo assim a separação dos vidrados de várias cores durante a cozedura. Pelo contrário, a aresta-viva consistia numa saliência com o desenho, que era conferida ao barro ainda húmido com o auxílio de um molde de madeira ou metal. Estas saliências faziam o mesmo efeito de separador dos vidrados coloridos, impedindo-os de se misturarem durante a cozedura.

ESFERAS ARMILARES

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Entreguei as réplicas das Esferas Armilares em aresta-viva para a fonte do Miradouro de Santa Luzia – tal como esperava demorei um pouco mais do que o tempo previsto, mas em dez dias era tudo demasiado apertado, contando que tive de fazer um molde que teve de secar; depois tirar o número de exemplares pedido, que também tiveram de secar sem empenar;  fiz experiências de vidrados para acerto de cores e ainda tive de cozer as chacotas e por fim vidrá-las e cozer os vidrados.

Os tons não estão iguais, iguais; mas fiquei mais tranquila quando os responsáveis pela fiscalização da obra me disseram que réplicas são réplicas e que não se pretende enganar ninguém – um ponto de vista mais do que correcto do ponto de vista da conservação e restauro.

Agora fico à espera de ver como ficam na parede.

ARESTA-VIVA

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Na quinta-feira passada fui contactada para fazer algumas réplicas de azulejos para o Miradouro de Sta. Luzia, em Lisboa – o que veio mesmo a calhar, uma vez que estava sem trabalho de novo.

Tratam-se de alguns azulejos de aresta-viva com a esfera armilar, algumas figuras avulso 15x15cm e ainda meia-dúzia de azulejos figurativos manuais para colmatarem as lacunas da fonte, dos bancos e do painel com a vista de Lisboa existentes lá no Miradouro.

O que não dá jeito nenhum é o prazo curtíssimo que tenho para entregar principalmente as esferas armilares e as figuras avulso – dia 16 deste mês convinha que estivessem na parede e não gosto de começar um trabalho já em stress com o prazo.

Apesar de não serem muitas unidades de cada tipologia, preocupam-me sobretudo  os de aresta-viva, que para além da manufactura do molde, ainda há todo o processo  de execução de chacotas, que têm de secar controlada e lentamente o mais rápido possível, para que não empenem nem se partam durante a primeira cozedura e depois ainda a vidragem e a pintura e depois ainda a segunda cozedura.

Hoje tirei do forno as primeiras experiências de cores de vidrados; para já, parece-me que estou no bom caminho. Mas estou a achar isto tudo muito apertado.

ARESTA-VIVA

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Em Julho passado tive uma pequena encomenda de trinta réplicas de azulejos brancos para colmatarem algumas lacunas existentes numa parede de uma casa linda nas arribas frente a Lisboa. Aparentemente os azulejos são banais e para quem conheça a azularia portuguesa, esta patronagem mourisca em aresta-viva até é bastante vulgar; a questão é que parece já não se encontrar à venda no mercado chacotas industriais com 3mm de espessura e que meçam 14x14cm como as dos azulejos originais.

Tive de fazê-las à mão e depois de algumas experiências de cor, vidrei-as de branco.