REVIVALISMO

Estou satisfeita com as chacotas que fiz desta réplica de um dos inúmeros azulejos em relevo executados pela extinta Fábrica de Massarelos, em meados do séc. XIX e que, por razões óbvias, podem ser encontrados a cobrir tantas fachadas de edifícios do Porto e do norte do país em geral.

Em laia de curiosidade, descobri agora que estes azulejos em relevo são designados como sendo de produção semi-industrial, uma vez que a tecnologia empregada no seu fabrico era ainda muito próxima à da manufactura e os motivos decorativos tinham um cariz revivalista, inspirado em padronagens e paletas cromáticas utilizadas em períodos anteriores. A repetição de um elemento para formar um módulo de padrão simples e o uso das linhas diagonais foram soluções estilísticas recorrentes nas padronagens pombalinas e o emprego do amarelo e branco provém dos tons característicos da paleta cromática do séc. XVII. É engraçado como nunca tinha pensado nisto antes, mas agora faz-me todo o sentido.

Voltando a estas réplicas e como já disse antes, estou satisfeita com os resultados. Ao contrário dos azulejos originais, os meus foram produzidos totalmente à mão. Estão enchacotados e prontos a entregar, tal como me pediram, para depois serem vidrados como bem o entenderem. Não houve nenhuma baixa, mas alguns deles estão um pouco mais tortos e empenados do que aquilo que eu gostaria; fruto da secagem, com certeza e talvez também do tipo de barro que utilizei. Para a próxima tenho de usar uma pasta com chamote, para evitar este tipo de problemas.

AMARELO E BRANCO

Finalmente consegui ter tempo para retomar o projecto de execução de réplicas de um dos inúmeros azulejos em relevo das fachadas do Porto, proveniente da antiga Fábrica de Massarelos, projecto que ficou parado desde Março e que nessa altura falei aqui e também aqui.

Trata-se da manufactura de uma série de chacotas que a Alba e a Marisa, da Gazete Azulejos, me encomendaram e que serão entregues assim mesmo, sem serem vidradas; mas que eu, claro está, não resistirei em fazer duas ou três a mais para tentar reproduzir os tons dos azulejos originais.

O MOLDE

Sexta-feira acabei de modelar o protótipo da réplica do azulejo de Massarelos que irei produzir.

Demorei mais tempo do que estava à espera; nisto do modelar nunca sei bem se prefiro ir acrescentando o barro por camadas até adquirir o relevo pretendido ou se, pelo contrário, é melhor partir de um bloco inicial e ir removendo o material até chegar à forma desejada, de modo que vou fazendo uma mistura das duas técnicas; ora acrescento, ora removo e posso ficar nisto horas, sem avançar absolutamente nada, obcecada em tentar reproduzir o mais fielmente possível o motivo original e repetindo várias vezes para mim mesma “pronto, já está; agora os detalhes fazem-se no molde”, mas depois reparo num pormenor que não me parece bem e lá recomeça tudo – não direi infinitamente, porque nalguma altura tenho de terminar e sim, passar ao molde.

Hoje estive a fazê-lo. É igualmente viciante. É nesta fase que se executam os tais detalhes que falei há pouco e também os acabamentos finais. Aperfeiçoam-se relevos, avivam-se arestas, arredondam-se formas, alisa-se o fundo. Trabalha-se em negativo e com precisão e é preciso estar atento para não se fazer asneira, qualquer erro fica marcado no gesso. A tentação de se ficar ali a retocar, a retocar, é bastante grande, mas agora já não funciona o método de voltar a acrescentar material quando já se removeu demasiado. Ainda bem!