FRISO

          

Fui ontem buscar o outro azulejo Arte Nova – um friso – que ainda tenho de fazer para colmatar as lacunas existentes na parede do hall de entrada do nº 61. Será com certeza também proveniente da Fábrica de Loiça de Sacavém, mas depois de uma breve pesquisa, ainda não consegui encontrar nenhuma referência à sua existência – tenho de procurar mais.

Vou começar o processo todo de novo: retirar o desenho (o que não é fácil, uma vez que está pouco visível); moldar o relevo em gesso; tirar uma primeira prova e aperfeiçoar o que for preciso e, finalmente, tirar o número de réplicas pretendidas – neste caso, apenas três. Ah!, para não falar nas experiências de cor do vidrado. Começo a duvidar se me compensa este trabalho todo; mas pronto, gosto de o fazer e sempre fico com um molde já feito para o que der e vier.

1ª PROVA

Acabei de tirar a primeira prova do molde que tenho estado a fazer para as réplicas de azulejos Arte Nova. O objectivo é perceber o que é que tem de ser aperfeiçoado – verificar relevos e aprofundá-los, se necessário  (o contrário já não é possível; quer dizer, é, mas não vai ser agora a altura de falar nisso), corrigir espessuras de linhas e alisar superfícies. Que é o que vou fazer agora e depois dou esta fase por terminada.

GRAVAR

Comecei hoje a fazer o molde em gesso para a manufactura de réplicas dos azulejos Arte Nova que me encomendaram (e já percebi o quão ingénua fui com os preços que pedi; mas enfim, está-se sempre a aprender…).  Estive indecisa se havia de gravar directamente os baixos-relevos no gesso – o que gosto de fazer – ou se modelar primeiro uma réplica em barro vermelho e depois tirar o molde do mesmo – o que também gosto de fazer. Decidi-me pela primeira hipótese, mas rapidamente desisti: o trabalho é moroso e delicado, a vista já vai faltando, raciocinar constantemente em negativo é difícil e o risco de me enganar ou partir alguma aresta é elevado – o que é chato, principalmente se já estivermos quase com o molde concluído. Resolvi então passar ao plano B – fazer um protótipo em barro: gosto de modelar e apesar de moroso, sempre se controla melhor o processo de manufactura. Foi nesta altura que me deparei com um problema que temos (tenho) aqui na oficina e que continua a alastrar: não se faz (não faço) a manutenção do barro quando este não anda a ser preciso e depois deparamo-nos (deparo-me) com uns pedregulhos duros de argila branca, vermelha e outras tipologias que estão ali arrumados debaixo do taipal há uns anos e que ocupam imenso espaço e que não servem absolutamente para nada enquanto ninguém (eu) se der ao trabalho de meter aquilo tudo de molho e tiver mãozinhas, pachorra e coragem (que não tenho; nenhuma das enunciadas) para amassar aquilo tudo de novo.

Comecei hoje a fazer o molde em gesso para a manufactura de réplicas dos azulejos Arte Nova que me encomendaram. E está a correr bem.

ART NOUVEAU

Aqui há uns tempos – alguns, já – fui contactada no sentido de poder vir a ter de fazer umas réplicas destes azulejos da extinta Fábrica de Sacavém e que, segundo descobri no Catálogo de Preços Correntes da Real Fábrica de Louça de Sacavém – Azulejo; datado de Agosto de 1910, correspondem ao motivo 19-F, com a descrição «Azulejo com decoração Art Nouveau, com relevo e vidrado monocromático».

Na altura foi-me pedido um orçamento a contemplar o preço unitário de cada réplica com o mesmo tom, mas liso e eu, pelo sim, pelo não, entreguei também um orçamento onde especificava o preço unitário de cada réplica com o respectivo motivo relevado – caso quisessem. Quiseram. Cerca de 15 unidades, para as quais eu até já tinha aproveitado uma fornada para cozer também umas experiências de cor, esperando na altura adiantar trabalho e rentabilizar o forno.

ALICE JORGE E JÚLIO POMAR

Em Julho fui contactada pelo Departamento de Património Cultural e Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para orçamentar uma intervenção de conservação preventiva num dos painéis – maravilhosos, todos! – da Av. Infante Santo, em Lisboa. Neste caso, tratava-se do painel modernista da autoria de Alice Jorge e Júlio Pomar; em lastimável estado de conservação, com várias lacunas que perfazem já cerca de 600 azulejos (que muito provavelmente se perderam) e outros quantos em risco de destacamento. A proposta visava o registo gráfico pormenorizado do estado de conservação do painel, o seu levantamento integral e posterior tratamento preventivo – consolidações e limpeza. Os azulejos seriam então guardados enquanto não se encontrassem os desenhos dos motivos em falta, as tais 600 lacunas.

Meti-me imediatamente em campo – o trabalho interessava-me, por todos os motivos: contactei quatro ou cinco empresas de andaimes; fui ver e fotografar o painel duas vezes e depois de perspectivar várias abordagens à intervenção e respectivos custos, entreguei o orçamento pedido. Mais tarde, foi-me comunicado que muito provavelmente, à minha proposta inicial, teria de acrescentar também a fase do restauro e assentamento integral do painel – os desenhos tinham aparecido e já se podiam fazer as réplicas. Que eu aguardasse, que no fim de Agosto receberia um novo pedido para execução de novo orçamento.

Como já vamos em meados de Setembro e ainda não me chegou nenhum pedido às mãos, entrei ontem em contacto com o Técnico responsável por este assunto, o qual me respondeu que «infelizmente as notícias não são as que todos nós gostaríamos; as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades.» Mas que talvez para o próximo ano… E pronto; assim está o estado do nosso património. Talvez para o próximo ano a lacuna existente seja já de 900 azulejos e o melhor seja mesmo acabar de vez com aquele painel e alcatroar a parede inteira – que para estradas há sempre dinheiro.

31

Há coisa de um mês – antes de ir duas semanas para fora, a banhos – comecei um novo trabalho, desta feita no 31 de uma rua central em Lisboa. Para primeira fase tratava-se de separar e inventariar o espólio azulejar que tinha sido levantado da parede há mais de três anos e do qual não havia registo – e que se encontrava empilhado aleatoriamente na cave do edifício. Para além de se tentar perceber o que é que ali estava, havia também a necessidade de se encontrar 26m2 de uma padronagem específica e respectiva cercadura para revestir a escadaria de entrada que, segundo uma fotografia antiga, lá estaria originalmente e que não se sabia se ainda existia ou quanto é que existia.

Ao fim de cinco dias de trabalho intensivo conseguimos separar e inventariar cerca de 3817 azulejos – fora os oito caixotes com fragmentos da mesma tipologia – separados por 13 tipos de padronagem; 9 tipos de cercaduras; 12 tipos de rodapés; 2 tons de azulejos brancos e ainda 3 conjuntos de azulejos da mesma tipologia possível de serem analisados numa outra ocasião.

Para meu contentamento encontrámos quase toda a totalidade da padronagem pretendida, que, após tratamento de conservação e restauro, poderá voltar para a parede e cumprir a função para a qual foi feita.

TRAVESSA DO TERREIRO A STA. CATARINA

  

  

Terminei a obra de restauro dos azulejos da fachada do nº 11 da Travessa do Terreiro a Sta. Catarina. A intervenção consistiu essencialmente na manufactura de cerca de 200 réplicas de azulejos, entre frisos e padronagem, que colmatassem a grande lacuna existente e que também substituíssem alguns azulejos que ali estavam e que não pertenciam àquele conjunto. Havia ainda – e continua a haver – algumas réplicas provenientes de uma outra intervenção anterior, que o dono da obra quis manter e ainda bem, porque estavam todas assentes em cimento, como já se estava mesmo à espera.

O resto da intervenção seguiu os procedimentos habituais: limpeza profunda, consolidações de falhas de vidrado, preenchimentos e integração cromática. Apesar da pouca segurança do andaime que me arranjaram e do escadote para acabamentos finais, acho que ainda assim ficou bem melhor do que estava. E espero que assim se aguente por uns bons anos.

FACHADA

Alvorada às seis e meia da manhã.

Ontem estive todo o dia com os ladrilhadores a assentar as réplicas que fiz para a fachada do nº 11 em Sta. Catarina. Às oito horas já lá estávamos os três e ainda bem, o trabalho foi bastante moroso e delicado – o prédio é muito antigo, nenhuma parede ou cantaria está de nível e havia muitos cortes a fazer nos azulejos, o que, sem a minha coordenação teria corrido mal. O Sr. Pedro já bufava por todos os lados e por mais que virasse cada azulejo que queria assentar, não havia meio de perceber onde é que tinha de fazer o corte e às vezes quase que nem eu. Entretanto os velhotes de cima não paravam de reclamar que tinham o tecto lá de casa numa miséria e que isso «eles» não querem saber; da janela da frente vinha um som irritante de tiroteio de um desses jogos modernos que agora para aí há; a carrinha tinha de ser constantemente chegada para a frente ou para trás, para poderem passar as da distribuição do gás e dos refrigerantes e o pó que nós fazíamos alastrava pela roupa estendida nos estendais lá da rua.

Mas conseguimos – às cinco e meia da tarde o Sr. Pedro deu o seu trabalho por concluído e eu ainda lá fiquei mais uma horita a limpar a fachada e a varrer a rua da sujidade que nós fizemos – e a outra que já lá estava no chão. Quando saí, fui beber uma mini ao café da esquina.

ESTADO LASTIMÁVEL

Estava redondamente enganada quando pensei que delegando alguns trabalhos para os meus colegas, ficando a meu cargo a coordenação e algumas tarefas mais do meu agrado – que também já mereço; ao fim de quase vinte anos a fazer conservação e restauro de azulejos! -, dizia eu, que pensava que iria ficar com tempo livre para dar largas à criatividade e dedicar mais tempo à minha produção cerâmica, que ultimamente tem estado mais parada do que o Mar Morto. Mas pronto; enganei-me redondamente e, em abono da verdade, nem cerâmica, nem este espaço de escrita que eu tanto prezo e que também já foi mais dinamizado e nem sequer as tais tarefas de restauro que me agradam mais meter a mão na massa: a papelada e o escritório, salvo raras excepções, têm-me ocupado o tempo todo.

Relatórios, orçamentos, contas, IVAs, fichas de inventário, computador, telefonemas. Durante todo o dia e ao serão também. Agora tenho de fazer mais um orçamento para o Museu Militar – os azulejos da escadaria de acesso ao gabinete do Sr. Director estão num estado lastimável e há muito tempo que precisam de uma intervenção. Eu é que não consigo pensar nisso agora; vai ter de esperar mais uns dias, pelo menos os suficientes para eu tirar umas férias e (tentar) limpar a cabeça.

Para já, amanhã vou começar a tratar da fachada do prédio em Sta. Catarina. Com andaime, sapatos de biqueira de aço, máscara e capacete.