Nº5

Acabaram agora do mo confirmar: ficámos com o trabalho no nº5! Depois de muitas contas e várias opções de metodologias de intervenção, entreguei a semana passada, conforme o combinado, o orçamento para a conservação e restauro do conjunto azulejar existente no jardim deste palacete em Lisboa. E ao que parece, é para começar o mais rápido possível; logo agora que reiniciámos o Museu Militar – vou ter de articular muito bem a minha equipa e provavelmente contar com mais dois ou três colegas novos. Felizmente as duas obras são em Lisboa, a cerca de duas colinas de distância entre elas, o que permite, se for preciso, transitar de uma para a outra na mesma semana e até no mesmo dia. Se chover muito, param as duas; que ambas são no exterior. E talvez nessa altura eu consiga vir aqui para a oficina trabalhar na minha produção cerâmica.

REINÍCIO

Reiniciámos hoje o trabalho de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, que foi interrompido por ser inverno e supostamente estar a chover muito – o que afinal não aconteceu; mas nada o fazia prever em novembro do ano passado, quando tivémos de parar por essa mesma razão. De facto, nem só a chuva atrapalha quando se trata de uma intervenção no exterior durante o inverno – o frio e humidade em nada ajudam quando se quer que a massa de preenchimentos seque, ou retocar com pigmentos aglutinados em cola. E ali sim, faz muito frio de manhã e o nevoeiro é bastante comum; os azulejos estão gelados e a chacota visível pelas falhas de vidrado está completamente molhada. De acordo com a fiscalização do trabalho, tínhamos decidido parar até inícios de Abril, mas uma vez que continua sem chover e já se vai sentindo um calorzinho durante o dia, decidi a semana passada que o melhor seria recomeçarmos já o trabalho, uma vez que ainda há muitos preenchimentos para se fazerem, principalmente nos painéis da fachada norte, que era a mais problemática – e assim já se vai adiantando qualquer coisa até que o tempo aqueça de vez e se possa começar com a integração cromática. Isto é, se não chover durante toda a primavera.

SALA DOS CISNES

Um dos privilégios de trabalhar nesta área é poder entrar em locais que normalmente estão vedados ao público; ou por serem particulares ou por se tratarem de zonas fechadas, de acesso privado apenas para quem lá trabalha. Ontem fui ver um palacete numa rua do centro de Lisboa, um daqueles palacetes pelo qual já tinha passado inúmeras vezes, mas que nem suspeitava – apesar de imaginar – da sua riqueza interior: os tectos com estuques trabalhados, as escadarias em madeira, os espelhos biselados, o jardim traseiro em sucalcos, o terraço no 1º andar e o conjunto azulejar. Foi por causa dos azulejos que lá fui, claro; mais um orçamento de restauro para fazer – na realidade, sete orçamentos para fazer; divididos pelas zonas onde se encontram os painéis. Só com isto prevejo perder uns dois dias, sem nenhuma garantia de ficar com o trabalho, ou parte dele e que será caro, o que é já evidente, dado o péssimo estado de conservação dos azulejos.

De qualquer modo, quando passar novamente naquela rua, já posso afirmar que uma vez entrei ali naquela casa – o que talvez nunca mais me volte a acontecer.

NÃO VI NADA!

Passei no 88 para entregar ao engenheiro uma 2ª via de uma factura minha, já antiga, que se extraviou (leia-se perderam). Como ele afinal não se encontrava por lá, pediu-me para deixá-la no seu escritório, a cozinha de um dos apartamentos do 1º piso, em cima da mesa, que «ali ninguém mexe» (leia-se vão perdê-la outra vez…).

Aproveitando que ali estava, resolvi ir coscuvilhar o prédio, está claro. Está claríssimo, também, que me ía dando uma coisinha má quando vi estes azulejos e mais uns quantos de outros painéis, completamente arrancados da parede. Segundo o pintor que ainda lá anda e ainda por lá vai continuar um bom tempo, parece que os carpinteiros tiveram de ir emendar as umbreiras das janelas, que estavam tortas e como aquilo, pelos vistos, não ía lá a bem, deram tantas cacetadas na madeira que acabaram por fazer este lindo trabalhinho, deixando os azulejos ali, empilhados no chão e um ou outro partido.

Confesso que, depois do impacto inicial, tive o sangue frio de fechar a minha malinha, descer as escadas e ir-me embora dali o mais rápido possível. Até à data ainda ninguém me telefonou por causa deste caso e não tenciono ser eu a falar deste assunto; o trabalho estava entregue com tudo pronto e se for para voltar lá, só com novo orçamento. Para todos os efeitos, eu não vi nada.

ALMOFARIZ

Na sexta-feira fui ao Palácio da Pena mostrar algumas das minhas (muitas) experiências de brancos que fiz para colmatar as lacunas de azulejos existentes no vão da janela neo-gótica da capela. Apesar de ter comigo duas pequenas amostras dos azulejos originais, os tons eram tão diferentes um do outro que a melhor solução foi lá ir, para ver in-situ e com o director do Palácio, qual era a que melhor se adaptava ao local – se é que alguma se adaptava. Foram escolhidos dois tons que já se assemelham muito aos do restante conjunto e a ideia é vidrar uma chacotas com um e outras com o outro, para garantir uma boa vibração tonal daquela zona, que se encontra cheia de luz.

Como estou lançada nisto de fazer experiências de brancos, resolvi pegar nas amostras escolhidas e, a partir dessas, já me ocorreram mais não sei quantas receitas que posso experimentar – podia ficar assim o resto da vida; as hipóteses desmultiplicam-se a olhos vistos.  Vou partir de um vidrado base que temos aqui na oficina, que nunca usamos e que agora se revelou ser o mais adequado para estas réplicas. O saco estava guardado há que tempos e o pó apanhou alguma humidade, havendo alguns torrões que têm de ser desfeitos no almofariz. É uma tarefa um pouco morosa, mas fico com a impressão de ser uma ceramista a sério, parecida com os senhores que vêm nas imagens dos livros de cerâmica que temos aqui na oficina.

REAL FÁBRICA DE LOUÇA DE SACAVÉM

Fui contactada para fazer um orçamento para manufactura de cerca de 30 réplicas destes azulejos Arte Nova, em pó de pedra, que, tal como eu supunha e acabei de confirmar, são provenientes da extinta Fábrica de Louça de Sacavém.  Depois de uma pequena investigação, descobri que, segundo o Catálogo de Preços Correntes da Real Fábrica de Louça de Sacavém – Azulejo, datado de Agosto de 1910, correspondem ao motivo 19-F, com a descrição «Azulejo com decoração Art Nouveau, com relevo e vidrado monocromático». É precisamente este vidrado monocromático que eu vou ter de replicar, uma vez que, com grande pena minha, me foram pedidos azulejos com as mesmas dimensões, mas lisos.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

E AGORA?

De novo na oficina. E agora? Confesso que tenho andado por aqui um pouco às aranhas a tentar organizar-me sobre o que fazer; não é fácil fazer a agulha, assim de repente, de uma fase cheia de trabalho, para outra mais tranquila. Tenho tratado de papelada – finanças, cartas de apresentação, actualização do currículo e organização de fotografias. Mas os dias vão passando e parece que ainda não fiz nada este mês, ou muito pouco. Aproveitando que tenho de cozer as chacotas para as réplicas dos azulejos alicatados para o Palácio da Pena, resolvi também tratar de umas outras, que fiz com o Loubet já há que tempos, para um possível trabalho que nunca foi para a frente e que para ali ficaram, a secar e a ocupar espaço. São chacotas manuais, de 11X11cm, que nem sei bem para que é que irão servir, mas pronto; ficam cozidas e arrumadas e depois logo se vê o que é que se fará com elas. E sempre se rentabiliza uma fornada, que isto não está para desperdícios.

RUA DA ASSUNÇÃO, Nº 88 – TERMINADO!

Não fosse esta constipação que me está a deitar abaixo há dois dias e hoje tinha um motivo para ir comemorar: dois meses depois do previsto e alguns  €€€ fora do orçamento, acabei – finalmente! – a intervenção no 88! (Quando digo acabei, quero dizer que dei como acabado, porque ali ainda tudo pode acontecer). 7750 azulejos do séc. XIX, divididos em vários painéis de padronagem pombalina e figurativos D. Maria que foram levantados, reorganizados, restaurados e reassentados nos novos apartamentos dos cinco pisos do edifício pombalino da Rua da Assunção, nº 88, em Lisboa. Estou satisfeita; até o primeiro lance das escadas, que tinha sido quase todo roubado, resultou bem – improvisado com  azulejos soltos de padronagem e cercaduras que sobraram dos outros painéis. Agora é tratar de fazer o relatório da intervenção, entregá-lo e receber o que ainda falta. E depois, é fazer rapidamente a agulha para outro lado, tentando esquecer tudo isto. Mas não aquilo que aprendi – que ainda foi bastante.

ALICATADOS

Fui contactada pelo Palácio da Pena para executar algumas réplicas que colmatem uma pequena lacuna existente no vão da janela da capela. Tratam-se de azulejos alicatados, brancos. Fiz as chacotas a semana passada e agora estou à espera que sequem, o que não é fácil,  dada a humidade existente aqui na oficina…