Apesar da obra ainda não ter terminado, começaram a chegar os móveis ao 88: camas, colchões, sofás, espelhos, quadros, candeeiros. E com eles, chegou também a decoradora – simpática e despachada; perguntou-me logo se eu tinha tirado o curso na Ricardo Espírito Santo, claro e queixou-se do pó. Era a minha deixa para lhe perguntar porque é que estava um espaldar de cama colado com silicone a um painel de azulejos, que tanto trabalhinho tinha dado e redado a tratar e que agora está tapado integralmente, mas não tive coragem. Convenhamos que a cama, apesar de parecer em plástico, é de madeira lacada e o painel… bom, não se pode dizer que esteja todo tapado, sempre se vê um bocadinho; eu também já estou a ser mázinha! Enfim, «é um trabalho de paciência!», disse-me ainda a senhora, enquanto me observava a pintar alguns preenchimentos de falhas de vidrado, ao que eu respondi «ele há dias…».
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STA. ENGRÁCIA
Há mais de um mês que estou na recta final da intervenção de levantamento, tratamento e reassentamento dos painéis de azulejos do 88. Trata-se de uma recta muuuuuito looooonga; sempre que lá vou, para dar os retoques finais, perco ainda algum tempo a limpar novamente o que já estava limpo, ou a pôr uma massinha nalgum azulejo que tinha escapado – tal era a quantidade de coisas constantemente à frente dos painéis – ou ainda a ter de esperar que os electricistas ou os pintores ou os carpinteiros acabem de fazer o que têm de fazer antes de eu poder trabalhar. O mais engraçado é que me garantem sempre «Isabel, pode vir, já não está lá ninguém e queremos entregar a chave esta semana» e eu vou, decidida a acabar aquilo (falta-me sempre muito pouco para terminar) e no meio da poeirada vejo as mesmas equipas a refazerem o seu trabalho, ou a partirem algum tecto ou parede – ou algum azulejo. As senhoras da limpeza também lá andam, pelo menos desde antes do Natal, não sei bem a fazer o quê; coitadas, são mais umas que vão ter de refazer o seu trabalho não sei quantas vezes. Enfim, há que ver as coisas pelo lado positivo; pelo menos começo o ano com trabalho – apesar de ser sempre e ainda o mesmo trabalho e não ganhar nem mais um tusto por isso – o que, psicologicamente, resulta.
ANO NOVO!
Não me posso queixar: entro em 2012 logo a fazer um orçamento. Para um trabalho pequeno, bem sei; mas sempre é um orçamento de conservação e restauro de azulejos e provavelmente será aceite. Trata-se de um hall de entrada de um prédio dos anos 30, com painéis de azulejos figurativos executados na extinta Fábrica Lusitânia – da qual apenas resta a chaminé, conservada no exterior do edifício da Culturgest, ali no Campo Pequeno. O trabalho é simples e não tem nada que saber; o mais complicado ainda há-de ser a manufactura de cerca de catorze ou quinze réplicas de azulejos, que desapareceram (claro está!) e cujas chacotas, em pó de pedra e com aquelas dimensões, já não se fabricam. Mas enfim, nada que não se faça e que não se consiga orçamentar.
EM STAND BY…
Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.
No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.
No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.
OBRIGADA, INÊS!
Ontem comemorou-se mais um aniversário do Museu Militar; se não estou enganada, o centésimo sexagésimo qualquer coisa. Foi inaugurada uma exposição temporária sobre as Guerras Peninsulares e houve uma cerimónia oficial, com condecorações e entrega de diplomas de honra e também com uma apresentação do trabalho de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões. Fui completamente apanhada de surpresa, pois, apesar de já ter sido avisada que isto ía acontecer, fiquei convencida que a data era primeiro no dia 10 e depois, na terça-feira, dia 5 de Dezembro. Só não me lembrei é que dia 5 de Dezembro, afinal, calhava a uma segunda-feira – ontem, portanto e não hoje. Por acaso, na sexta-feira passada tratei de fazer um Power Point, ou melhor, fez a minha colega Inês (eu sózinha nunca teria conseguido!) e, por acaso, também, fui com ela ontem de manhã ao Museu Militar para começarmos a recolher material que já não é lá preciso, quando fui informada que estava tudo preparado para a tarde. Por sorte tinha o tal Power Point comigo e a Inês à mão, de modo que não tive outro remédio senão o de instalar a coisa ali mesmo e esperar que tudo corresse bem. Claro que não ensaiei nada e claro que não fui um pouco mais bem vestida, tal como tinha pensado, mas pronto; lá fiz uma apresentação para o Estado Maior do Exército e respectivas famílias, sempre com um olho nas fotografias e o outro na Inês, que as ía passando. Não me lembro bem do que é que disse, mas toda a gente estava atenta e no fim todos bateram palmas e vieram-me cumprimentar e dar-me os seus parabéns não só pela apresentação «claríssima!», como pelo óptimo trabalho executado. No final, bebi um Porto seco, comi um bolinho de chocolate e voltei para a poeirada.
FACHADA NORTE
Estão de volta à parede todos os painéis de azulejos da fachada Norte, incluindo o Ni-2, que esteve quase cinco semanas em dessalinização e todas as réplicas que foram necessárias fazer. A vista geral do pátio é já muito diferente e nesta fase, com todos os azulejos limpos, juntas fechadas e praticamente todos os preenchimentos feitos, quase parece que o trabalho está terminado – apesar da descoberta de mais um tubo de água todo rachado e com falta de alguns bocados no interior da parede da fachada Este, o que obrigou ao levantamento de não sei mais quantos azulejos que já estavam quase dados por terminados. Mas tudo bem, estou satisfeita com esta intervenção e ao que parece, até à data, o Estado Maior do Exército também.
LACUNAS
Finalmente parece-me que estão pintadas todas as réplicas dos azulejos para o 88. Digo parece-me, porque lá no prédio a azáfama continua e cada vez aparecem mais coisas à frente dos painéis – janelas, cozinhas, tábuas de soalho – e não consigo ter e certeza se tirei todos os desenhos de todos os pisos; não me admirava nada se no fim ainda ficassem duas ou três para se fazerem. Tive de pedir ajuda a umas colegas para me pintarem cerca de metade do que faltava – as dos azulejos das tomadas, os quais se optou por serem substituídos por réplicas para não se cortarem os originais – deixando para mim a tarefa de pintar os das lacunas; o que deu algum trabalho, uma vez que os azulejos envolventes se encontram na parede e tive de tirar os desenhos por outros com motivos semelhantes e estar aqui na oficina a pintar através de fotografia, tendo atenção para que as linhas de contorno e manchas de cor batessem certo com as dos originais. Agora é ir lá entregar tudo e verificar se há alguma coisa para repetir, o que espero que não…
RESTAURADORES/ENGENHEIROS!
Quase a completar quatro meses de intervenção no conjunto azulejar do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, a obra continua a bom ritmo. Depois de uma breve paragem de dois ou três dias de temporal, em que toda a equipa foi fazer reforço lá no 88 (onde a água, por acaso, também entra), tivemos de puxar pela cabeça para conseguirmos continuar a trabalhar, agora que o inverno se avizinha e seguramente, mais dias de chuva também – já muito bom foi o verão ter-se prolongado até fins de Outubro. Estamos a entrar na recta final do trabalho; a integração cromática arrancou agora e não dá para parar a obra. Felizmente que a minha equipa é muito expedita e, enquanto eu aqui na oficina pesquisava na net alguma solução de tendas rápidas ou toldos protectores, os meus colegas articularam-se entre comprar manga plástica e construir uma estrutura em madeira, o que parece ter solucionado o problema e a um custo muito mais económico. Gente multi-facetada, é o que é. Mais uma vez, posso afirmar que tenho muita sorte…
CORES
Comecei a trabalhar nas réplicas para integrarem o conjunto azulejar do 88. Como sempre, há pressa na entrega das mesmas, apesar de se lhes explicar que isto não se faz de um dia para o outro. Por acaso consegui comprar chacotas manuais, o que foi uma sorte, pois nem sempre há em stock o número suficiente que se precisa e já vai adiantar o processo. Agora, o costume; fazer experiências de cores, retirar desenhos, vidrar, limpar vidrados, picotar… Felizmente já tenho muitas cores onde me basear e é só fazer alguns acertos, mas entre enfornar e desenfornar, passa um dia.
BOLINHOS
Tenho comido um bolinho quase todos os dias, sempre que saio do 88. Podia ser pior e dar-me para beber, mas ainda não; por enquanto fico-me pelos doces. O assentamento dos painéis está todo pronto, exceptuando, claro, aqueles casos em que ainda não se decidiu o que fazer com as paredes, se são em alvenaria ou em Pladur ou em Aquapanel ou ainda se eram de uma forma, mas agora vão ser de outra. Há também os casos em que as paredes prontas têm de recuar vinte centímetros e aqueles em que elas já estavam acabadas mas que afinal têm de levar duas ou três tomadas – porque ali vai ser uma cozinha – e se voltam a abrir roços e levantam-se outra vez alguns azulejos para se passarem os fios eléctricos e também aqueles em que se chega à conclusão que naquele sítio, afinal, se pode abdicar da parede; mas assim, aqueles painéis já não ficam bem ali e o melhor será passá-los para outro lado, ou rodá-los para a horizontal, o que resulta muito melhor. A poeirada continua em alta e a confusão de gente também, mas no meio disto, continuamos a fazer preenchimentos e integração cromática onde podemos e a dar por terminados uma série de painéis, os quais vão sendo encontrados cobertos de entulho ou materiais vários das outras equipas, apesar dos vários alertas que já fizemos para os protegerem e nos quais não tencionamos voltar a tocar. Nesta altura estamos todos cansados e fartos de ali estar; já só queremos despachar o trabalho o mais rápido possível e sair dali para fora. Resta-nos o «está a ficar bom!» do engenheiro chefe, ao qual ainda acrescentou se eu lhe conseguia baixar o preço unitário das réplicas.












