PLACAS RELEVADAS

Há muitos anos tive o privilégio de participar na equipa que executou a intervenção de conservação e restauro do revestimento azulejar do quarto de D. Sebastião, no Palácio Nacional de Sintra. Os azulejos encontravam-se em bom estado de conservação e a intervenção consistiu essencialmente em limpeza e consolidações de superfícies vidradas.

Nessa altura estava eu longe de imaginar que alguma vez iria ter de executar réplicas desses azulejos e agora, ei-las. Tenho alguma dificuldade em chamar-lhes “azulejos”, na verdade tratam-se de placas cerâmicas relevadas, com cerca de 20x20cm, com 2cm de espessura – para mais, nunca para menos. O desenho foi retirado no local e o azulejo protótipo foi modelado em barro aqui na oficina, a olho, através de fotografia.

São grandes e pesados, são lindos! Acho que são os exemplares de maiores dimensões que já reproduzi.

 

RELEVADOS

Ainda na série de réplicas de azulejos de várias tipologias que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra, foram-me pedidos também dois exemplares destes frisos com um motivo vegetalista em relevo.

Os azulejos originais encontram-se em mau estado de conservação, apresentando não só pequenas e médias lacunas de corpo cerâmico, como também falhas de vidrado de grandes dimensões, algumas das quais quase na totalidade da superfície. Para esta situação contribui em larga escala o facto destes azulejos se encontrarem colocados num pátio exterior do palácio há mais de 500 anos e como se não bastasse, quando falamos de exterior, neste caso, estamos a referir-nos a um exterior… em Sintra.

Esta introdução toda é só para dizer que tive alguma dificuldade com a manufactura destes frisos; não tive nenhum azulejo original comigo aqui na oficina por onde me pudesse basear nem recorri a nenhum molde em silicone para confirmar o relevo, de modo que tive que me guiar pelas medidas que tirei quando lá fui ao local e modelar o protótipo em barro através das fotografias tiradas estrategicamente de vários ângulos; sendo que os azulejos originais, que parecem todos iguais, são na verdade todos diferentes  e que as falhas de vidrado e as pequenas lacunas de corpo cerâmico existentes não ajudaram a reproduzir, assim a olho, uma peça com estas características.

Nestas condições, estes exemplares foram a melhor reprodução que consegui fazer – têm um ar super-novo, mas se os deixarem no pátio lá fora por algum tempo, acho que rapidamente acabam por ficar mais parecidos com os originais.

 

 

 

 

ENCANASTRADO

 

Na recta final e ainda a verificar resultados das réplicas de azulejos quinhentistas que tenho andado a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Aqui duas reproduções que apresentam, de forma simplificada numa peça só, um pequeno troço da moldura em azulejos da porta da Sala das Sereias, originalmente do tipo alicatado – técnica que consistia em cortar com um alicate pequenos fragmentos de placas de barro vidradas. Estes fragmentos tinham formas mais ou menos geométricas e, depois de recombinados, formavam pequenos painéis decorativos; neste caso, com um motivo encanastrado.

 

 

 

 

 

ILUSÃO DE ÓPTICA

Começo a ver finalizadas as réplicas que tenho andado a fazer para o Palácio de Sintra; aqui dois exemplares que reproduzem de forma simplificada, numa peça só, o módulo composto originalmente por três azulejos independentes, de dimensões, formas e cores diferentes, cuja repetição compõe o revestimento azulejar das paredes da Sala Árabe, criando um padrão geométrico de elevado efeito de ilusão de óptica tridimensional  e que mais parece uma criação contemporânea do que uma obra com mais de 500 anos de existência.

 

 

 

FASES DA SECAGEM

Estou na recta final da manufactura das réplicas de azulejos para o novo circuito de acessibilidades do Palácio da Vila, em Sintra; depois deste, falta-me só fazer mais um – quer dizer, dois, porque foi-me pedido sempre dois exemplares de cada peça.

Acabei agora de modelar o último protótipo para o qual precisei de fazer molde e as novas chacotas encontram-se já em fase de secagem. Trata-se de um pequeno azulejo relevado, réplica dos frisos que rematam o revestimento cerâmico existente no Pátio Central do palácio e que bastante trabalho me deu, mais do que aquele que eu estava a contar – foi totalmente modelado a olho, através das fotografias que tirei quando lá fui, uma vez que não havia nenhum original guardado no acervo, que eu pudesse trazer aqui para a oficina para me guiar.

Ficou com pequenas diferenças, mas todos os originais as têm entre si.

 

CHACOTAS

Começo a ver os resultados do trabalho que tenho andado a fazer nos últimos tempos.

Apesar de estar agora a modelar o protótipo de um friso em relevo e nem ter sequer ainda começado a trabalhar na última peça que me falta para terminar a encomenda do Palácio da Vila, em Sintra, tenho já as outras peças todas enchacotadas à espera de serem vidradas e depois cozidas novamente – a fase final do processo e aquela que mais me assusta no meio disto tudo.

 

HISPANO-ÁRABES

Continua a bom ritmo a manufactura de réplicas de azulejos que estou a fazer para o Palácio da Vila, a maioria dos quais em corda seca e aresta-viva – técnicas utilizadas nos azulejos de padronagem mudéjar, introduzidos na Península Ibérica através da cultura árabe e que chegaram a Portugal em finais do século XV, inícios de XVI, através de encomendas a oficinas hispânicas.

A corda seca e a aresta-viva, são no fundo uma evolução técnica do fabrico dos revestimentos murais de padronagem alicatada, composta por uma infinidade de pequenas peças únicas, de formas e cores diferentes, recortadas a alicate de placas de barro vidradas, de cor lisa. Com a introdução destas novas técnicas de fabrico – primeiro a corda seca e depois a aresta ou cuenca -, conseguia-se criar revestimentos com padronagens de efeito visual semelhante às anteriores, a quais podiam ser produzidas com maior rapidez e muito provavelmente, a mais baixo custo, não só de fabrico, como também de assentamento. As peças passaram a ser de maiores dimensões e para criar esse efeito visual, a superfície apresentava pequenas zonas estanques, as quais eram vidradas com cores diferentes e protegidas por separadores que impediam que estas se misturassem ao fundir durante a cozedura.

Assim, a corda seca consistia na gravação do desenho numa placa de barro ainda húmida. Os sulcos obtidos eram depois preenchidos a manganês misturado com uma gordura, garantindo assim a separação dos vidrados de várias cores durante a cozedura. Pelo contrário, a aresta-viva consistia numa saliência com o desenho, que era conferida ao barro ainda húmido com o auxílio de um molde de madeira ou metal. Estas saliências faziam o mesmo efeito de separador dos vidrados coloridos, impedindo-os de se misturarem durante a cozedura.

RELEVADO

Tenho andado sem mãos a medir com a manufactura de réplicas para o Palácio da Vila, em Sintra.

Para além dos azulejos de aresta-viva e corda seca, que por si só já são complexos de executar, o maior desafio é reproduzir os azulejos com motivos em relevo.

Apoiada no cálculo de retração que o barro sofre após a secagem e a cozedura, o protótipo de cada azulejo é modelado à vista, tentando que o motivo em relevo se assemelhe o mais possível ao do azulejo original e respeitando não só as suas dimensões como também a sua espessura – neste caso, cerca de 16x16cm e quase 3cm de espessura, maravilhoso!

Depois do modelo estar terminado, tira-se-lhe um molde em gesso, a partir do qual é possível reproduzir tantos azulejos quantos se queira ou precise – neste caso, dois.

500 ANOS

Comecei a trabalhar numa encomenda para o novo circuito de acessibilidades previsto para o Palácio da Vila, em Sintra – a manufactura de réplicas de alguns dos azulejos mais antigos existentes em Portugal, quase todos provenientes de Sevilha, durante os séculos XV e XVI.

Trata-se de azulejos com diversas tipologias e técnicas diferentes, na sua maioria em aresta-viva e corda-seca – uma vez que este palácio possui a maior colecção de azulejaria hispano-mourisca in situ-, mas também alicatados, esgrafitados e relevados, os quais tenho de tentar reproduzir de acordo não só com as dimensões e espessura, mas também com as texturas e tonalidades.

Estou muito satisfeita, a fazer o que mais gosto. E um bocadinho orgulhosa, também.

 

 

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Painel de azulejos apresentado no âmbito da exposição RE7 By the Nest, baseado na malha urbana de um dado lugar, feita pela conjugação de edifícios e infra-estruturas existentes e de espaços vazios, não edificados.

140cmx140cm