PARALELO

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Tenho andado a tentar conciliar em paralelo toda a produção cerâmica que quero fazer – a azulejaria contemporânea e as peças tridimensionais. O objectivo é avançar com tudo ao mesmo tempo, lenta e calmamente, de modo a que nenhuma das tarefas se torne cansativa ou repetitiva – mas não está a ser fácil.

Primeiro, como sempre, quero ver tudo pronto em três tempos – como se tivesse algum tipo de encomenda de alguma coisa!; segundo, estou a trabalhar com dois materiais totalmente diferentes e incompatíveis – faiança e barro refractário; que é como quem diz, barro branco e barro refractário, no mesmo espaço e ao mesmo tempo: algum deles acaba por ser contaminado pelo outro e, claro, é o branco o mais afectado. Ainda não consegui perceber qual é a melhor metodologia, se trabalhar um dia numa coisa e outro na outra; se fazer de manhã  os azulejos e à tarde as taças e trocar no dia seguinte; se fazer dois dias seguidos cada uma delas. De qualquer modo, e para já, parece-me já ter conseguido arranjar um método de trabalho que funciona e também separar as áreas tanto de produção como de secagem – todo este processo tem sido uma aprendizagem bastante útil no que toca ao dia a dia de uma produção cerâmica oficinal e de todas as tarefas que lhe são inerentes e que vão muito além da simples criação artística. E todas têm de ser contabilizadas.

PRODUÇÃO EM SÉRIE

Há coisas que eu dantes – estou a falar de há cerca de uns vinte anos – pensava que nunca iria fazer. E quando, há dois anos, me comecei a aventurar pelos caminhos da cerâmica, em paralelo com os da conservação e restauro de azulejos, ainda mantinha essa mesma convicção, a de que havia coisas que eu nunca iria fazer. Até agora.

Fui convidada para participar numa pequena feirinha de Natal, em meados de Dezembro. A primeira reacção foi recusar – a minha produção cerâmica, que ia tão lançada, tem estado mais parada do que o Mar Morto já há que tempos; os mesmos que têm durado as intervenções de restauro que surgiram entretanto e das quais vivo. E como não consigo desmultiplicar-me mais do que em três ou quatro, está parada; ou seja, praticamente não tenho peças nenhumas.

Depois e uma vez que o ritmo dos trabalhos e dos orçamentos está a abrandar muito consideravelmente, pensei melhor e decidi então aceitar o convite que me foi feito  e participar na tal feirinha – não tenho nada a perder, antes pelo contrário. Ok, muito bem, e com que peças? Toda a gente sabe que as coisas não andam bem para ninguém (pronto, aqui podia fazer uns à partes, mas não é o momento) e não há dinheiro quase para se viver, quanto mais para se andar a gastar em prendinhas de Natal.  Portanto, o segredo é fazer umas peças baratinhas, que a tradição manda sempre oferecer qualquer coisa e as tradições têm muita força. E como é que se podem fazer peças baratinhas, quando o que se produz é 100% manual e artesanal? Baratinhas e, já agora, minimamente apelativas, claro?  É o que ando a tentar perceber e a fazer há cerca de uma semana – apesar de não estar lá assim muito convencida. Mas agora é tarde para voltar atrás.

CINCO

Tenho já cinco provas para as réplicas dos frisos Arte Nova que estou a fazer – preciso apenas de três, mas pelo sim, pelo não, é sempre melhor fazer umas a mais. E acho que ainda vou tirar mais algumas, não me vá o vidrado sair mal.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE!

Alguma vez tinha de me acontecer: fazer aquilo que eu tinha dito para mim mesma que nunca iria fazer! – e estou a falar estritamente da minha produção cerâmica. Quando há uns tempos reciclei um bocado de barro branco, era já no sentido de fazer estas peças em faiança, completamente diferentes do meu trabalho até agora e que tenciono adaptar a alfinetes de peito, também conhecidos por pregadeiras ou, como diria a minha avó, broches. Confesso que não me apetecia muito cair nesta onda do berloque, mas a verdade é que os berloques vão-se sempre vendendo e portanto decidi também tentar a minha sorte. Tal como nas peças que fiz para a feira setecentista, das Séries «Fragmentos», mais uma vez a azulejaria tradicional portuguesa foi a minha fonte de inspiração e é visível que o meu lado de restauradora de azulejos se manifesta fortemente. Estas são as primeiras que pintei, ainda a título experimental, sempre quero ver se resultam…

8 Kg

Já está reciclado! Depois de suar as estupinhas, o que não é mau tendo em conta que é inverno, consegui recuperar um bom bocado de barro branco que já me vai permitir fazer umas experiências de umas peças em faiança que ando para aqui a pensar. Não está perfeito, perfeito, mas atendendo a que não tenho nenhuma fieira, fiz o que os meu quarenta e oito quilinhos de gente permitiram amassar. Vou ter de ter cuidado com algumas bolhas de ar, mas isso é o básico que qualquer ceramista amador sabe. E ao preço a que está o barro branco, ainda consegui poupar 3,5€! Que grande pelintrice, bem sei; mas já ando nesta fase… Parecendo que não, esse dinheiro já me paga uma sopa e uma sandes de queijo no café aqui ao lado. E ainda sobra para o cafézinho.

Bleah!

TIPOS DE BARRO

Aqui há uns tempos fui contactada por um arquitecto que me descobriu na net e pelos vistos gostou do meu trabalho, no sentido de me encomendar a manufactura de uma série de peças cerâmicas para uma obra que ele tem em mãos. Trata-se de executar o revestimento para um chão e parte das paredes de uma casa-de-banho, segundo um projecto dele próprio, baseado nos azulejos enxaquetados e com variantes quer a nível das dimensões de cada peça, quer a nível da coloração própria de cada tipo de barro. Eu estou interessada, claro; para além de ser uma encomenda de trabalho, parece-me um projecto bem giro para participar. Vou agora fazer umas pequenas amostras com barro vermelho, terracota, barro branco e barro preto, para já ter um ponto de partida para lhe mostrar.

MÃOS NA MASSA

Hoje lá resolvi meter as mãos na massa, ou melhor, na lama. Com o frio que está aqui na oficina, foi precisa alguma coragem para fazê-lo e nem as luvas de borracha me ajudaram; aquilo estava gelado e doeram-me os ossos do braço inteiro, mas lá consegui ir amassando o melhor que pude, o que, pelo menos, sempre deu para aquecer um bocado. Não sei bem se a coisa está a resultar, ao fim de quatro dias dentro de água, pensei que os pedaços de barro seco já estivessem totalmente desfeitos, mas enganei-me e ainda encontrei bastantes grumos, o que não me parece bom sinal… Segundo o meu colega Ivo, o melhor é deixar ficar mais um tempo e depois tornar a amassar. Vou experimentar, a ver no que dá… (o que eu não daria para ter uma fieira! Mas pela maneira como estão as coisas, ainda vou ter muito que penar…)