Fui contactada por uma nova loja que irá abrir em Évora agora no fim deste mês, início do próximo. Descobriram o meu trabalho no Castelo de Viana do Alentejo e estão interessados em ter algumas peças de cerâmica minhas para venda. Eu, claro está, também estou interessada nisso. Tenho é muito poucas peças disponíveis; estes dois anos dedicada aos trabalhos de conservação e restauro de azulejos deixaram parada a minha produção que entretanto tinha começado e que ia tão lançada – mas não me desmultiplico (mais ainda) e não me posso esquecer que é da conservação e restauro que tenho vivido nestes últimos vinte anos. De modo que hoje recomecei a fazer as minhas taças em barro refractário, as que fiz para as feiras medievais e setecentistas – já tinha saudades! Mas agora, com Isabel Colher no tardoz.
Etiqueta: Barro Refractário
CRUAS
Retomo a minha produção natalícia para o Mercado de Natal enquanto os azulejos do painel da Faculdade de Ciências secam – na verdade, o meu tempo tem sido muito bem rentabilizado; já tinha aproveitado a secagem da minha produção natalícia para fazer os azulejos da Faculdade de Ciências.
As peças em barro refractário já foram a cozer a noite passada e agora trato dos acabamentos nas de faiança – trabalho de sapa, lixar uma série de pecinhas pequenas, mas os acabamentos, toda a gente sabe, são morosos mas fazem a diferença e eu nestas coisas gosto de ser perfeitinha. Estas pensei-as para pendurar; na árvore de Natal, na porta da entrada, onde se quiser; só ainda não sei bem como é que hão-de ser decoradas, mas já tenho uma série de ideias. Mas primeiro tenho de acabar esta fase; se tudo correr bem, amanhã conto encher o forno grande para enchacotá-las – a estas e às mais não sei quantas que tenho já prontas aqui na oficina.
90 BOLINHAS
Tenho andado bastante atarefada com as várias peças que pretendo levar para a feirinha de Natal que vou fazer em meados de Dezembro – já tenho muitas, mas o problema é que quanto mais produzo, mais ideias tenho e mais peças faço; ou seja, isto assim corre o risco de nunca mais acabar e tenho de pôr um ponto final algures. Hoje vou começar a modelar as minhas tacinhas coloridas em barro refractário, que sempre tiveram algum sucesso. E acho que fico por aqui: não me posso esquecer de contar com os tempos da secagem, nem das jornadas a fazer os acabamentos finais e depois de enchacotá-las todas, ainda tenho de vidrá-las, pintá-las e fazer as segundas cozeduras. Mas sem stress; para já, para já, parece-me que está tudo controlado.
SELECCIONADA!
MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:
Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.
A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.
A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.
O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.
Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.
DOCUMENTAÇÃO DA OBRA
TÍTULO – Paixão que consome
DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm
PESO – 5,950 Kg
MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.
TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.
TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC
AUTOR – Isabel Colher
PRONTINHA!
Dou por terminada a minha peça em barro refractário para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» – mesmo em cima do prazo! Quero enviar ainda hoje a documentação pedida: nome da obra, dimensões, peso, tipo de cozedura, técnicas e materiais utilizados e Memória conceptual e justificativa da peça. E ainda três fotografias. Até dia 30 tem de ser tudo enviado. Estou satisfeita com o resultado, apesar das perninhas que entortaram e que me conseguem deixar com um certo nervoso miudinho – vou mandar as fotos dos lados mais fotogénicos, a ver se a coisa passa… e a ver se me lembro também de fazer uma errata na memória conceptual; tipo, onde se lê «alicerces, estacas firmes colocadas meticulosamente…», leia-se «alicerces, estacas colocadas meticulosamente…» ou mesmo só «alicerces, estacas…», apesar daquilo, muito honestamente, agora me parecer umas franjas, mas isso já é demais e teria de mudar todo o texto e puxar muito pela cabeça. Bom, de qualquer modo, essa questão prende-se só com as minhas expectativas e quem não saiba, é como quem não vê, embora eu já esteja para aqui a fazer reparos a isto tudo; melhor seria era manter-me caladinha. E a zona interior correu bem, estou contente; resultou como eu queria… Na verdade, qual é o máximo que me pode acontecer? É não ser seleccionada. E isso não tem mal nenhum.
CONTAGEM DECRESCENTE
Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.
PORCELANA
Nem ontem nem hoje fui para o 88, tenho de estar aqui na oficina para ir fazendo a minha peça que está num ponto crítico. Ontem resolvi construir uma cofragem em cartão duro para a conseguir virar ao contrário; as pernas são demasiado altas e estreitas e foi a melhor solução se não quero que haja azares – que ainda podem acontecer. Tenho de me apressar a trabalhar o interior, que na verdade é o que vai ser o exterior. Estive a fazer uma incrustação com porcelana, que segundo os testes que fiz anteriormente, irá cozer à mesma temperatura que o barro refractário, a cerca de 1250ºC. Provavelmente irá estalar nalguns pontos, os coeficientes de retracção das duas pastas são diferentes, mas tudo bem, vai ser assumido assim.
950º – 1300ºC
Preparo-me para fazer receitas de vidrados, para experiências. Como isto da cerâmica tem pano para mangas e é um percurso moroso e paciente, só agora há pouco tempo é que me caiu a ficha. Passo a explicar o problema: Se eu cozer o barro refractário à temperatura dos vidrados – 1020ºC-, não fica com o tom que eu quero e, os vidrados fervem se eu os cozer à temperatura do barro -1250ºC ou mais. Portanto,… tenho aqui um problema de incompatibilidades. Que tenciono começar a resolver; vou fazer experiências, com vidrados de alta temperatura, mais óxidos e corantes e tintas, sobre peças chacotadas a baixa temperatura, muito mais porosas e receptivas à calda de vidrado. E assim, no final, coze tudo à mesma temperatura. Tudo o que eu sei destes vidrados é teoria e sei que a obtenção de cores é mais limitada. Mas como tenho bastantes placas de experiências, é dar largas à imaginação e vai já tudo hoje direitinho para o forno. E com os resultados começo a aprender alguma coisa.
PLACAS DE EXPERIÊNCIAS
É sempre assim: há temporadas que ando para aqui a pensar o que é que hei-de fazer e os dias vão-se passando até que eu finalmente consigo encarrilar com algum processo produtivo. Quando isto acontece e eu meto a mão na massa, aparecem sempre inúmeras coisas para tratar, que me interrompem o trabalho e parece que não tenho tempo para nada. Retomei a minha produção cerâmica e quero fazer umas experiências com vidrados de alta temperatura, que nunca experimentei. Desta vez, para variar, fiz uma série de placas de experiências, com o barro refractário que costumo usar, para fazer receitas de vidrados. Normalmente experimento coisas novas logo com peças modeladas, sempre a pensar que se não correrem bem, «não há problema, é só uma experiência…», mas a verdade é que se correrem mal, fico sempre um pouco desapontada, pois uma peça cria sempre mais alguma expectativa do que uma mera placa de experiência. Para além de que poupo tempo. E material.







