LINO ANTÓNIO

Acabei de chegar à oficina, coisa que não tenho feito ultimamente. Fui esta manhã ver este painel lindo, de 1958, da autoria de Lino António e que precisa de uma intervenção de emergência. As placas cerâmicas do lado esquerdo começam a destacar-se da parede, que está em muito mau estado e muitas delas já se encontram fracturadas e com pequenas lacunas e falhas de vidrado. São também já visíveis algumas eflurescências salinas que saem pelas superfícies de junta e também alguns escorrimentos calcáreos. Vou agora fazer dois orçamentos; um para esta primeira fase de levantamento das peças em risco e abertura de todas as juntas e o outro para o assentamento e posterior restauro, que aconselhei ser feito apenas depois uma intervenção a fundo na parede e no terraço, que, pelos vistos, são a origem do problema e sem a qual, todo o tratamento do painel terá sido em vão. Assim haja dinheiro para tudo…

MOSTEIRO DE ALCOBAÇA

Ontem fui ao Mosteiro de Alcobaça levar a minha peça para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea que irá inaugurar a 24 de Setembro; o prazo de entrega terminava hoje, imagino que tanta antecedência seja para se ter tempo de fazer o catálogo. Confesso que fiquei um pouco preocupada quando a deixei lá empacotada no chão de uma sala, juntamente com outras que já ali estavam – aquelas pernas são muito frágeis e supostamente a peça vai ser manuseada algumas vezes, tanto para ser fotografada, como para depois ser exposta da forma que eu pedi. Enfim, espero que seja tudo gente cuidadosa; o melhor é tentar não pensar muito neste assunto.

SELECCIONADA!

MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:

Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.

A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.

A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.

O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.

Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.

DOCUMENTAÇÃO DA OBRA

TÍTULO – Paixão que consome

DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm

PESO – 5,950 Kg

MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.

TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.

TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC

AUTOR – Isabel Colher

 

PRONTINHA!

Dou por terminada a minha peça em barro refractário para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea, que se irá realizar em Setembro no Mosteiro de Alcobaça, sob o tema «A estética da paixão / A paixão pela estética» – mesmo em cima do prazo! Quero enviar ainda hoje a documentação pedida: nome da obra, dimensões, peso, tipo de cozedura, técnicas e materiais utilizados e Memória conceptual e justificativa da peça. E ainda três fotografias. Até dia 30 tem de ser tudo enviado. Estou satisfeita com o resultado, apesar das perninhas que entortaram e que me conseguem deixar com um certo nervoso miudinho – vou mandar as fotos dos lados mais fotogénicos, a ver se a coisa passa… e a ver se me lembro também de fazer uma errata na memória conceptual; tipo, onde se lê «alicerces, estacas firmes colocadas meticulosamente…», leia-se «alicerces, estacas colocadas meticulosamente…» ou mesmo só «alicerces, estacas…», apesar daquilo, muito honestamente, agora me parecer umas franjas, mas isso já é demais e teria de mudar todo o texto e puxar muito pela cabeça. Bom, de qualquer modo, essa questão prende-se só com as minhas expectativas e quem não saiba, é como quem não vê, embora eu já esteja para aqui a fazer reparos a isto tudo; melhor seria era manter-me caladinha. E a zona interior correu bem, estou contente; resultou como eu queria… Na verdade, qual é o máximo que me pode acontecer? É não ser seleccionada. E isso não tem mal nenhum.

ATÉ AQUI TUDO BEM.

  Finalmente consegui virar para cima a minha peça de cerâmica, após quase três semanas na incógnita sobre o que se passaria do lado de dentro! A  primeira fornada correu muito bem – ao menos alguma coisa! – e pude constatar, com agrado, que o homem lá continua de braços abertos e com um sorriso de felicidade na cara; tem bom feitio, claro, fosse eu e não estaria tão contente. A incrustação de porcelana também parece ter aguentado, já tinha feito dois ou três testes de experiências, mas não estava muito segura quanto à coisa. De resto, tudo igual: o que já estava torto, torto continuou; bom teria sido ter-se endireitado pelas artes do fogo, mas assim não aconteceu e pelo menos não piorou… Acabei agora de aplicar o óxido de cobalto (que trabalheira!…) e a peça vai já directinha para o forno, agora sim, para cozer a alta temperatura. E até segunda não quero pensar mais neste assunto!

CADEIRA

Tenho andado um bocado bloqueada com o trabalho aqui na oficina: a desarrumação continua – não me apetece arrumar nada! -, o que não ajuda para dar início seja ao que for. Bem sei que posso recomeçar a minha produção cerâmica, que ía bem lançada antes da obra do 88 e que ficou a modos que pendurada; mas estou à espera que arranque o trabalho do Museu Militar (o que supostamente deveria ter acontecido durante a semana passada) e não quero estar a começar uma coisa para depois ter de a interromper logo a seguir. De modo que, para já, para já, estou a pensar recuperar esta cadeira de escritório, resgatada de um dos contentores de entulho lá do 88 e que apesar de tudo está em bom estado de conservação: apenas alguma ferrugem nas pernas, o que se contorna facilmente e muito pó no estofo de lona, o que se contorna ainda melhor…

CONTAGEM DECRESCENTE

Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.

FAZER NADA!

Hoje não me apetece fazer nada! Esta oficina está a maior confusão: depois de termos descarregado todo o material do 88 (juntamente com mais uns móveis que também vieram de lá e mais uma série de caixotes com casacos de cabedal antigos que descobrimos num armário antigo do Rei das Peles) e ainda o material que o Ivo e o Loubet também resolveram vir cá deixar e que já não precisam no Pinhão, isto está impraticável e não sei por que ponta comece. Tenho coisas para fazer, claro; poderia começar a lavar e a arrumar a ferramenta, ou começar a organizar e a limpar a minha bancada de trabalho, onde a minha peça em cerâmica está a secar (e a empenar), no meio de montes de tralha. E depois há todo o trabalho de bastidor; papelada, contas, relatórios para fazer e preparação de mapas de trabalho e estratégias para a obra do Museu Militar, que se avizinha. E mais um orçamento para Santarém, que ainda não percebi se já passou o prazo ou não… Mas enfim, estou em fase de descompressão e preciso é de uns dias de papo para o ar. O que não irá acontecer.

SECAGEM

Começou a fase de secagem da minha peça; consegui colar a figura humana lá dentro mesmo in-extremis para a poder virar de novo ao contrário e tirar a cofragem da parte de trás, o que já não foi fácil – o barro já estava a retrair e ameaçava rachar nalguns pontos, mas depois de algum stress lá consegui fazer tudo sem partir nada. Acho… Agora é ir controlando a secagem, que convém ser lenta e homogénea, para que as paredes não empenem. O tempo está a meu favor, a oficina não está muito quente e começo a desconfiar que até poderia estar um pouco menos húmida, se quero enfornar no máximo daqui a três semanas… Bom, é ir ficando atenta e ver o que é que acontece.