REVIVALISMO

Estou satisfeita com as chacotas que fiz desta réplica de um dos inúmeros azulejos em relevo executados pela extinta Fábrica de Massarelos, em meados do séc. XIX e que, por razões óbvias, podem ser encontrados a cobrir tantas fachadas de edifícios do Porto e do norte do país em geral.

Em laia de curiosidade, descobri agora que estes azulejos em relevo são designados como sendo de produção semi-industrial, uma vez que a tecnologia empregada no seu fabrico era ainda muito próxima à da manufactura e os motivos decorativos tinham um cariz revivalista, inspirado em padronagens e paletas cromáticas utilizadas em períodos anteriores. A repetição de um elemento para formar um módulo de padrão simples e o uso das linhas diagonais foram soluções estilísticas recorrentes nas padronagens pombalinas e o emprego do amarelo e branco provém dos tons característicos da paleta cromática do séc. XVII. É engraçado como nunca tinha pensado nisto antes, mas agora faz-me todo o sentido.

Voltando a estas réplicas e como já disse antes, estou satisfeita com os resultados. Ao contrário dos azulejos originais, os meus foram produzidos totalmente à mão. Estão enchacotados e prontos a entregar, tal como me pediram, para depois serem vidrados como bem o entenderem. Não houve nenhuma baixa, mas alguns deles estão um pouco mais tortos e empenados do que aquilo que eu gostaria; fruto da secagem, com certeza e talvez também do tipo de barro que utilizei. Para a próxima tenho de usar uma pasta com chamote, para evitar este tipo de problemas.

2020

Acabei o ano atarefada e comecei 2020 também atarefada.

Os projectos têm surgido e apesar de eu considerar que não há trabalhos mais importantes do que outros, a verdade é que alguns acabam por se impor pelo seu tamanho ou pelos prazos apertados que gosto de cumprir.

Isto para dizer que finalmente consegui reciclar todo o barro seco que tinha há que tempos dentro de um alguidar e lá arranjei coragem para o ir amassando, de acordo com a manufactura de uma série de azulejos de diferentes tamanhos e tipologias e espessuras, que me foram pedidos há algum tempo – e sem pressa – para vários projectos também eles com diferentes tamanhos e tipologias e espessuras.

Escusado será dizer que o fiz na época mais húmida do ano e que a oficina está gelada, portanto, ainda vão demorar a secar…

 

CHACOTAS

Estou a tentar acabar e entregar até ao final do ano todas as encomendas que tenho em mãos e que aos poucos vou dando vazão.

O tempo tem estado húmido e é difícil secar as peças aqui na oficina, mas ainda dentro do prazo previsto, consegui enchacotar estas peças que fiz há cerca de um mês, para um painel do tipo alicatado, igual ao revestimento azulejar da Sala Árabe do Palácio Nacional de Sintra – que já tinha feito este ano e que agora me foi encomendado outra vez.

Hoje estive a preparar os vidrados azul, verde e branco; ficam a repousar para amanhã serem utilizados e na sexta conto fazer uma fornada. Com um pouco de sorte fica tudo bem à primeira, mas não acredito que não haja peças com pequenos defeitos de vidrado e portanto ainda tenho margem para fazer retoques na próxima segunda-feira, enfornar e cozer de novo durante o Natal e ter tudo pronto dia 27, quando tenciono fechar a loja e voltar no ano novo, com novos projectos fresquinhos e a estrear.

 

EM SECAGEM

Entretanto, entre umas e outras coisas que tenho em mãos, acabei há uns dias de fazer a produção de chacotas para a execução de 100 réplicas de azulejos de meio-relevo, para as quais modelei o protótipo há cerca de um mês.

Tratam-se de réplicas de azulejos industriais, as quais estão a ser realizadas cem por cento à mão e que, obviamente, terão as devidas diferenças – apesar de eu estar a tentar fazê-los o mais parecidos possível. As chacotas são bastante finas e devem secar lentamente, empilhadas umas em cima umas das outras, para não correrem o risco de ficarem todas empenadas. O controlo de secagem é feito diariamente e os azulejos que se apresentam mais secos vão sendo estendidos em ganapos, para adiantar o processo – porque com a humidade que ainda se faz sentir aqui na oficina, estou a ver que nunca mais saio daqui.

 

CERCADURA

 

Comecei finalmente a preparar-me para pintar uma série de réplicas variadas de azulejos do séc XVII, para as quais me foram pedidas chacotas não só com as mesmas medidas, como também com as mesmas espessuras dos azulejos originais – cerca de 1,5cm ou até um pouco mais,  e depois escacilhadas, à boa maneira dos azulejos tradicionais portugueses desta época.

As experiências de cor estão feitas, as de vidrados também – eles próprios variam um do outro. Vou começar por estes azulejos de cercadura, com anjos virados para a esquerda e para a direita, que são os meus favoritos.

 

 

EM SECAGEM

Aproveitando a deixa de duas encomendas que tive para fazer uma série de réplicas de azulejos de tamanhos, espessuras e técnicas diferentes, para fins variados, tenho andado ocupada a produzir chacotas manuais também para mim – e assim ficam já todas a ver se secam, que com o frio gelado que tem estado aqui na oficina, às vezes fico a pensar que têm mais utilidade como desumidificadores do ambiente e na melhor das hipóteses, lá para a Primavera devo conseguir cozê-las.

CINTRA

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Saiu ontem do forno o painel de azulejos que tenho andado a fazer já há alguns meses, durante as horas vagas, entre este e aquele trabalho mais institucional. Trata-se da encomenda de uma réplica de um painel de azulejos, ao meu critério, com cerca de 42x56cm, que me foi feita (há que tempos!) para uma casa de praia na zona de Sintra.

Em vez de uma réplica de um painel, resolvi trabalhar numa idéia que já tinha tido há muito tempo e pegando nalguns motivos soltos retirados da azulejaria tradicional portuguesa ao longo dos séculos, adaptei-os a chacotas manuais de diferentes tamanhos e fiz uma composição de réplicas – uma espécie de patchwork -, montando um painel com as dimensões pretendidas, numa composição que decidi ter por tema a Serra de Sintra.

Assim sendo, cercaduras, padronagens pombalinas, figuras avulso e motivos figurativos vários, saídos dos séculos XVII e XVIII aludem à fauna, à flora, ao mar, ao Monte da Lua e à Nossa Senhora da Praia. A Cintra.

Séc. XVIII

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Em paralelo com as réplicas dos azulejos relevados que fiz para o Arco do Alhambra, estive também a pintar meia dúzia de azulejos que integrassem as lacunas existentes no grande conjunto azulejar do séc. XVIII – em obras de conservação e restauro –  que reveste a parede da Sala D. Manuel, no Museu Nacional do Azulejo.

Saíram agora mesmo do forno; conto entregá-los para a semana que vem.

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CHÃO

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Estão prontos os azulejos para o chão da Capela Manuelina, em Sintra. Por mais experiência que tenha, há sempre algumas questões de trabalho que me continuam a escapar e que não contemplo em orçamento – nunca tinha feito chacotas tão grossas, 15x15x2cm e desta vez não me lembrei que poderia vir a ter problemas para as enfornar na cozedura de vidrados; as gazetes existentes no mercado são feitas para chacotas muito mais finas, para 1cm de espessura no máximo. Como sou engenhocas, acabei por conseguir contornar o problema, mas depois percebi que só conseguia enfornar 24 azulejos de cada vez, metade daquilo que tinha previsto inicialmente. Enfim; esta para a próxima não me vou esquecer. (E acabo de me lembrar agora mesmo, tarde demais, que teria sido giro se em vez de gazetes tivesse usado trempes para empilhar os azulejos dentro do forno – aliás, não era assim que se enfornava no séc. XVI? )

Hoje fui à Pena entregar todas as réplicas que me pediram – estes azulejos para o chão, os relevados com a estrela para o altar e ainda as cantoneiras verdes. Ficaram bem; vim de lá satisfeita, com um sorriso nos lábios e o Sol a bater-me na cara ao longo da IC19.