O Sr. Castro tem sido uma presença constante e atenta desde o início da intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões – o Sr. Castro é motorista de um dos carros pretos e sempre brilhantes que ali costumam estar estacionados e passa muito tempo à espera de ter de ir a algum lado. O Sr. Castro acompanhou todas as fases do trabalho ao longo destes seis meses: o levantamento dos azulejos; a montagem dos painéis no chão; as colagens; a dessalinização; o reassentamento nas paredes; os preenchimentos e agora, a integração cromática. O Sr. Castro é conversador e é também um amante e um curioso destas coisas; ao que parece, percebe de materiais e gosta, ele próprio, de meter a mão na massa e assim sendo, vai falando das «epoxes» e da cal, vai tirando apontamentos e vai dando a sua opinião. O Sr. Castro é muito simpático e prestável; foi graças a ele que fomos visitar a Sala dos Gessos e foi ele que hoje já nos veio dizer que quer organizar um almoço de despedida para a semana que vem, agora que estamos a acabar a obra. O Sr. Castro é um castiço – obrigada por tudo, Sr. Castro, vamos ter saudades suas.
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MESA DE COLAGENS
Apesar da minha experiência de quase 20 anos a restaurar azulejos, há sempre algumas coisas que conseguem escapar. Quando fiz o orçamento para este trabalho no 88 e respectivo planeamento de tarefas e tempos previstos para cada fase, cometi alguns erros crassos que já tinha obrigação de saber. Senão, vejamos: incluí-me na equipa de levantamento dos azulejos, a qual planeei decorrer em simultâneo com a equipa de limpeza e tratamento dos mesmos e na qual também me inseri; subestimei a tarefa de limpeza de tintas dos vidrados, que está a dar água pela barba e que apesar do seu bom andamento, demora muito mais do que o previsto; não me lembrei que alguém (eu própria) tinha de tratar de toda a logística do trabalho como a compra de materiais e toda a organização de papeladas, contabilização de painéis e tudo o mais inerente ao decorrer da obra; finalmente, devia ter-me lembrado que alguém deveria estar exclusivamente a fazer colagens de fracturas e falhas de vidrado, tarefa que tenho sido eu a fazer ultimamente para que se possam despachar painéis completos dali para fora. O mais engraçado é que, no meio disto tudo, ainda pensei que iria ter dois dias livres por semana para ficar aqui na oficina a tratar da minha produção cerâmica… O que vale é que a minha equipa de trabalho é bastante expedita e felizmente lembrei-me de dar margens de tempo para o cumprimento desta fase. Portanto, está tudo bem.
CAPELA DO SENHOR DOS AFLITOS
Em 2002 eu e o Loubet fomos contactados pela delegação do IGESPAR de Évora para irmos fazer um trabalho na Capela do Senhor dos Aflitos, dentro do castelo de Campo Maior. Tratava-se de levantar da parede sete ou oito silhares de azulejos, de origem desconhecida e completamente trocados. Depois do levantamento, trouxemos os azulejos aqui para a oficina, removemos as argamassas dos tardozes, consolidámos falhas de vidrado e colámos fracturas e depois, com grande paciência, organizámos os puzzles, ainda conseguindo formar uma série de desenhos, apesar de terem ficado soltos uma série de azulejos com caras de anjos, concheados e bases de colunas, que não entravam em lado nenhum. O que nos tinha sido proposto, nessa fase, estava terminado e guardámos os azulejos em caixas devidamente identificadas por painéis e motivos soltos.
Entretanto, a pessoa que nos tinha contactado saiu do IGESPAR e na altura de entregar os azulejos, ninguém sabia bem com quem se deveria tratar do assunto e depois foi havendo várias mudanças no IGESPAR e nas Delegações Regionais, pelo que os azulejos aqui foram ficando, encaixotados e bem guardados num cantinho. Até que hoje, finalmente, veio alguém de Évora cá buscá-los. Ao que parece e, se tudo correr bem, porque não há dinheiro para nada e muito menos na cultura, a ideia é montá-los em suporte móvel de acrílico e talvez voltem para a capela de onde saíram. Espero bem que sim; a ver vamos.
ESPELHO
Apesar de ter aqui na oficina uma série de coisas que posso ir fazendo, ainda ando um bocado às aranhas com aquilo que realmente vou fazer. Tenho dificuldade em organizar o meu tempo quando ele é demais; os dias acabam por ir passando e parece que não faço nada. Quando estou muito ocupada, curiosamente, consigo encaixar um monte de coisas para fazer nos bocadinhos que tenho vagos, embora aí me farte de reclamar que não tenho tempo para nada. Bom, enquanto tento encarrilar para algum lado, vou aproveitar para colar este espelho em madeira e cabedal que uma amiga me pediu para colar. Eu bem lhe disse que esta não era a minha área, mas ela acha que farei sempre melhor do que ela, que é de biologia e canta bem, mas parece que tem pouco jeitinho de mãos…









