POLÍCROMOS

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Continuam-me a chegar pedidos para fazer orçamentos de intervenções de conservação e restauro de azulejos – não percebo o que é que aconteceu de repente. Na verdade, fazer orçamentos não significa ter trabalho, a maior parte das vezes perde-se tempo em vão e depois a esperança – primeiro, a de receber apenas a resposta «Obrigado.» e mais tarde, a de conseguir o próprio trabalho.

Hoje fui ver (com olhos de ver, porque já conhecia) o conjunto azulejar do Mercado da Ribeira, em Lisboa. Aguardemos o que vai acontecer.

LEVANTAMENTO DE AZULEJOS

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Na semana passada estive ocupada com um pequeno trabalho de levantamento dos silhares de azulejos das paredes Norte, Este e Sul da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa. Os silhares encontravam-se em mau estado de conservação, com muitos vestígios de intervenções anteriores: inúmeros azulejos não pertencentes nem àquele conjunto nem àquela época; superfícies de junta fechadas com cimento, azulejos assentes em cimento, claro está e ainda inúmeras falhas de vidrado e fracturas simples e múltiplas. Para agravar a situação, a forte presença de humidade nas paredes, que se faz sentir em toda a sala (não nos podemos esquecer que a antiga Ribeira de Arroios passa ali por baixo, a poucos metros de profundidade) e visível nas argamassas de assentamento principalmente da parede Este, que se encontravam encharcadas, tal como o corpo cerâmico dos azulejos aí existentes.

De qualquer modo, a intervenção pedida – o levantamento dos azulejos, originais do séc. XVIII – está concluída.

Os azulejos foram retirados da parede, os seus tardozes foram limpos superficialmente, na medida do possível – muitos apresentavam argamassas demasiado carbonatadas ou argamassas à base de cimento, o que em ambos os casos significa quase o mesmo; ou seja, um elevado grau de dureza -, as fracturas foram coladas provisoriamente, apenas para que os fragmentos não se percam e por fim os azulejos foram acondicionados em caixas de plástico até que a sacristia sofra todas as obras que precisa e se decida o que fazer com eles. Mas para já, estão a salvo.

BEM SECOS

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Vou hoje enchacotar os azulejos Arte Nova que fiz há uns tempos para umas réplicas na entrada de um prédio na Rua Garret. Apesar do calor, a secagem tem sido feita muito controlada e lentamente – e ainda assim alguns azulejos empenaram. Acho que definitivamente vou abandonar a faiança; pelo que me foi dito, comporta-se melhor com peças rodadas.

ENCOMENDA

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Aqui há uns dias pediram-me um orçamento para executar um painel cerâmico segundo um projecto específico. Trata-se de um painel com características diferentes das habituais: a superfície será curva e por isso as peças cerâmicas – azulejos? – num total de 48, estão divididas por 4 tipologias de tamanhos diferentes, todas de grandes dimensões.  Para fazer o orçamento  e conseguir visualizar a coisa, optei por simular uma das peças – a da série maior, com 22x20x23cm – uma vez que tudo isto é novo para mim e tenho de quantificar bem todos os pormenores referentes à execução: tempos necessários para a manufactura, controles de secagem, coeficientes de retracção, nº de fornadas, vidrados, quantidades de materiais, impressão dos desenhos e embalagem. Trata-se de um desafio que tenho todo o gosto em aceitar; são este tipo de trabalhos que me permitem pôr à prova os conhecimentos que já tenho  e também aprender coisas novas – assim a encomenda vá para a frente.

CAMINHO

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Finalmente estão secas as primeiras provas da nova produção azulejar que comecei a fazer este ano. O tempo passa mais depressa do que eu gostaria e às vezes queria que o trabalho aqui da oficina andasse ao mesmo ritmo que ele, embora repita constantemente para mim mesma – e a experiência faz-mo sempre ver – que depressa e bem não há quem. Fazendo o balanço deste ano, agora que estamos em Junho e tendo em conta que ainda não fui contratada para prestar nenhum serviço desde Janeiro e também que tenho trabalhado imenso em duas produções cerâmicas distintas e lido imenso e feito imensas experiências e aprendido bastante; posso dizer que estou satisfeita.

Já consigo ver alguns caminhos; ideias não me faltam, assim vá a coisa devagar.

À MEDIDA

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Acabei de desenfornar os azulejos que me encomendaram para alternarem com estes industriais, de figura avulsa. As chacotas foram feitas à medida e os vidrados, um de cada cor, são a condizer com os tons existentes no resto do conjunto – tal como me foi pedido.

M’HAMID EL GHIZLANE

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Observando  o mapa de Marrocos, M’Hamid el Ghizlane encontra-se no oásis onde a estrada nacional acaba, a cerca de 65o km a sudeste de Marraquexe; onze horas de autocarro – na melhor das hipóteses – doze ou mais para ser rigorosa. Dali para a frente, que é como quem diz, para todos os lados, está o deserto e quem vai até M’Hamid é por que quer entrar no deserto.

A povoação que vem assinalada no mapa é a nova M’Hamid el Ghizlane. Trata-se de uma aldeia com pouco interesse e muito menos beleza – está construída sob um molde urbanístico qualquer, que não é dali; espraiada à torreira do sol. A maioria das casas são feitas em tijolo de betão, não há árvores nem sombras e é impossível andar nas ruas largas durante as horas de mais calor – que são durante quase todo o dia, todos os dias do ano. Nem mesmo o rio Draâ, ali à sua beira, consegue refrescar o ambiente; o seu leito largo encontra-se totalmente seco (um dó!) e ao que parece a última vez que se viu água por ali foi há dois anos, quando se abriu a represa existente mais acima, perto de Ouarzazate e que serve para alimentar os campos de golf lá construídos. Nas casas da nova M’Hamid passa-se calor e muitos dos seus habitantes, no verão, mudam-se para as casas da família que ainda se mantêm na aldeia antiga e que são mais frescas.

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Um dos motivos que levou a maioria das pessoas a abandonar a velha M’Hamid el Ghizlane – a povoação mais importante daquele oásis, porta de entrada e saída das caravanas que  vinham e iam para o deserto; entreposto cujo mercado reunia viajantes e comerciantes vindos de todos os lados –  foi a inexistência de electricidade e água canalizada, que só agora ali estão a chegar. Outro talvez tenha sido a impossibilidade de circularem carros dentro da kasbah, toda construída em terra- a sua rua principal, a única que se vê em fotografia aérea, apresenta muitas zonas demasiado estreitas e as ruas transversais são como que corredores debaixo das casas; túneis escuros, compridos e frescos, iluminados aqui e ali por poços de luz vindos desde o exterior lá em cima, que acumulam também a função de ventilar cá em baixo. A circulação é feita a pé e de burro (e de motocicleta) e os drawas, os habitantes daquela região que sempre ali viveram e os que ainda ali vivem, estão mais do que adaptados àquela vida – a sua aldeia está sabiamente construída de forma a que ali se possa viver, defendida das amplitudes térmicas radicais que se fazem sentir.

Estive na velha M’Hamid el Ghizlane duas semanas e agora, acabadinha de chegar a Lisboa, parece que me ausentei por uns meses – ainda estou a fazer a agulha. O objectivo da minha ida foi o de participar no III Atelier de construção com terra, organizado pela associação espanhola Terrachidia. A ideia era restaurar a porta de entrada da kasbah, que se encontrava em mau estado de conservação e de preferência envolver a população local na sua recuperação, o que acabou por acontecer. Ali se fizeram adobes e se rebocou com terra. Aprendeu-se a construir em taipa e bebeu-se chá doce – demasiado doce! – nos intervalos, para recarregar as forças. Ali se tentou dizer os érres em árabe, com a garganta. Ali se suou, 40º; comeu-se pó. Muito pó, os olhos a arderem. Mediram-se ruas. Ali se viram noites estreladas sob a brisa morna do palmeiral. Ali se ouviu o chamamento para a oração, couscous à sexta-feira. Ali se subiu à duna mais alta, para ver o pôr-do-sol. Ali se falou e comunicou com a alma, com o sorriso. Cantou-se em francês. Viu-se e viveu-se outra realidade muito diferente, tudo tão forte, muito forte. Riu-se e chorou-se. Ali se está a começar a fazer um caminho. Alhamdulilah.

31

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Como previsto, terminámos hoje a intervenção de conservação e restauro dos azulejos da escadaria principal do nº 31 da Rua Ivens, em Lisboa. Com a aprovação dos engenheiros e dos arquitectos responsáveis pela obra. Mais uma vez pude confirmar que a preservação dos azulejos antigos e originais é uma mais valia na reabilitação de um edifício – em muitos casos, talvez seja o único vestígio de autenticidade que se mantém.