Estamos finalmente a terminar a intervenção do nº 31, no Chiado, em Lisboa. O trabalho começou no verão passado e foi dividido por três fases: inventariação e separação de cerca de sete mil azulejos armazenados aleatoriamente na cave do edifício; selecção e montagem de paineis e posterior tratamento de conservação e restauro na oficina e, por fim, assentamento dos azulejos, preenchimentos e integração cromática in situ – o que estamos a fazer agora. Amanhã damos o trabalho por concluído, depois da aplicação da cera microcristalina.
Etiqueta: Construção
MOROSO
Comecei a fazer a parte chata da minha nova produção de azulejos; ou seja, a produção, propriamente dita. Fazer as lastras em barro, encher os moldes um a um – cuidadosamente, para que os relevos saiam perfeitos – tirar os azulejos dos moldes, metê-los a secar e controlar a secagem diariamente. Um trabalho moroso, que tem de ser caro, claro está e ninguém nesta altura dos acontecimentos tem dinheiro para gastar nestas coisas – não sei por que raio é que me meti nisto.
De qualquer modo não preciso de muitos, talvez uns doze de cada um; a ideia para já é começar a fazer um pequeno catálogo que sirva para trabalhar apenas sob encomenda – está fora de questão ter um stock aqui na oficina.
OITAVO
Terminei hoje mais um protótipo desta nova produção – o oitavo e último, para já. Bem sei que estou sempre a afirmar o mesmo, mas chegou a altura de começar a tirar provas e fazer as composições – uma chatice; o que eu gosto mesmo é de estar a modelar, mas pronto, não posso ficar assim ad eternum. E as outras ideias vou fazendo depois, calmamente e em paralelo.
POEIRADA E ENTULHO
Preparamo-nos para começar o assentamento do painel de azulejos que fizemos no fim do ano passado e que assinala o centenário da Faculdade de Ciências de Universidade de Lisboa. Para já, foi preciso abrir uma caixa em profundidade na parede, com cerca de quatro metros de altura por um metro e meio de largura, uma vez que a autora do painel quer que os azulejos fiquem à face desta – o que também me parece melhor. E depois de muita poeirada e algum entulho, está pronta.
SEXTO? SÉTIMO?
Hoje acabei mais um protótipo de um azulejo desta minha nova produção de 2013. Agora que percebi como é que a coisa funciona, estou a ficar boa nisto; este não demorou mais do que algumas horas a fazer – o que é bom, porque deste género, tenho ideias que nunca mais acabam. Enfim, tem um ou dois defeitos; mas só eu é que sei.
ESCACILHADO
Hoje resolvi fazer uma pausa na minha nova produção azulejar e pegar numas chacotas manuais, que fiz há algum tempo – há mais de dois anos, para ser precisa. Tratava-se de manufacturar umas réplicas, de 14x14cm e com cerca de 1,3cm de espessura, que viessem a colmatar as lacunas existentes no revestimento azulejar do séc. XVII, da Igreja da Ota; tarefa integrada na intervenção de conservação e restauro dos azulejos, que começámos nessa altura e que entretanto ficou parada. E as chacotas ali ficaram, empilhadas, a secar e a ocupar espaço na prateleira. Até hoje. Estive agora mesmo a escacilhá-las – tal como as originais – e finalmente estão prontas para enfornar. Sim, porque secas, já estavam.
MADRE
SACRISTIA
Fui contactada para ir fazer uma intervenção de emergência nos azulejos da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa – quer na zona da secretaria, quer na salinha dos paramentos.
Segundo consta, o culto a Nossa Senhora da Saúde começou em inícios do séc. XVI, época da grande peste. O povo, ao ver que todos os recursos humanos falhavam, recorreu a Nossa Senhora, organizando procissões de penitência em sua honra. Como o número de mortes foi diminuindo consideravelmente, passou a fazer-se uma grande procissão anual de agradecimento à Virgem Maria, a qual passou a ter o título de Nossa Senhora da Saúde.
Em meados dos anos 80, já no séc. XX, a Câmara Municipal de Lisboa mandou construir o Centro Comercial da Mouraria; o que estaria muito bem, não fosse a ideia brilhante de o colar, paredes meias, com esta igreja, mais precisamente com a zona da sacristia. Obviamente que essa construção colocou e continua a colocar em risco o estado de conservação do edifício, quer a nível estrutural quer a nível da incompatibilidade dos materiais. Neste momento, uma das paredes – a tal que precisa de intervenção de emergência – encontra-se escorada e em risco de colapso (e o tecto em madeira também não me parece que se safe) e é claro que os azulejos lá existentes, datados do séc. XVIII, precisam de ser levantados e, para já, acondicionados numa caixa.
Mais uma vez pude constatar o estado a que chegou o nosso património edificado, vítima de incúria, ignorância e asneirada consecutiva ao longo de vários anos, por parte de quem deveria ter conhecimentos, bom senso e capacidade de bater o pé e dizer não! – mesmo que outros interesses mais altos se levantem.
Neste caso, nem a Nossa Senhora lhes valeu.
ALICE JORGE E JÚLIO POMAR
Em Julho fui contactada pelo Departamento de Património Cultural e Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para orçamentar uma intervenção de conservação preventiva num dos painéis – maravilhosos, todos! – da Av. Infante Santo, em Lisboa. Neste caso, tratava-se do painel modernista da autoria de Alice Jorge e Júlio Pomar; em lastimável estado de conservação, com várias lacunas que perfazem já cerca de 600 azulejos (que muito provavelmente se perderam) e outros quantos em risco de destacamento. A proposta visava o registo gráfico pormenorizado do estado de conservação do painel, o seu levantamento integral e posterior tratamento preventivo – consolidações e limpeza. Os azulejos seriam então guardados enquanto não se encontrassem os desenhos dos motivos em falta, as tais 600 lacunas.
Meti-me imediatamente em campo – o trabalho interessava-me, por todos os motivos: contactei quatro ou cinco empresas de andaimes; fui ver e fotografar o painel duas vezes e depois de perspectivar várias abordagens à intervenção e respectivos custos, entreguei o orçamento pedido. Mais tarde, foi-me comunicado que muito provavelmente, à minha proposta inicial, teria de acrescentar também a fase do restauro e assentamento integral do painel – os desenhos tinham aparecido e já se podiam fazer as réplicas. Que eu aguardasse, que no fim de Agosto receberia um novo pedido para execução de novo orçamento.
Como já vamos em meados de Setembro e ainda não me chegou nenhum pedido às mãos, entrei ontem em contacto com o Técnico responsável por este assunto, o qual me respondeu que «infelizmente as notícias não são as que todos nós gostaríamos; as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades.» Mas que talvez para o próximo ano… E pronto; assim está o estado do nosso património. Talvez para o próximo ano a lacuna existente seja já de 900 azulejos e o melhor seja mesmo acabar de vez com aquele painel e alcatroar a parede inteira – que para estradas há sempre dinheiro.
31
Há coisa de um mês – antes de ir duas semanas para fora, a banhos – comecei um novo trabalho, desta feita no 31 de uma rua central em Lisboa. Para primeira fase tratava-se de separar e inventariar o espólio azulejar que tinha sido levantado da parede há mais de três anos e do qual não havia registo – e que se encontrava empilhado aleatoriamente na cave do edifício. Para além de se tentar perceber o que é que ali estava, havia também a necessidade de se encontrar 26m2 de uma padronagem específica e respectiva cercadura para revestir a escadaria de entrada que, segundo uma fotografia antiga, lá estaria originalmente e que não se sabia se ainda existia ou quanto é que existia.
Ao fim de cinco dias de trabalho intensivo conseguimos separar e inventariar cerca de 3817 azulejos – fora os oito caixotes com fragmentos da mesma tipologia – separados por 13 tipos de padronagem; 9 tipos de cercaduras; 12 tipos de rodapés; 2 tons de azulejos brancos e ainda 3 conjuntos de azulejos da mesma tipologia possível de serem analisados numa outra ocasião.
Para meu contentamento encontrámos quase toda a totalidade da padronagem pretendida, que, após tratamento de conservação e restauro, poderá voltar para a parede e cumprir a função para a qual foi feita.









