213

Vidrar e limpar vidrados. 213 vezes até agora. Colocar a primeira estampilha e pintar o laranja, para começar. Ajustar a segunda estampilha sobre a primeira e pintar o rosa. Continuar com o rosa e pintar a terceira estampilha. Passar ao azul; acertar a quarta estampilha com as anteriores e pintar. Seguir para a quinta estampilha; conferir e pintar, ainda de azul. 213 vezes até agora. Verde: posicionar a sexta estampilha e pintar. Permanecer no verde para pintar a sétima estampilha. Finalmente o preto, quase a acabar; rectificar a oitava estampilha com todas as precedentes e pintar. Concluir com a nona estampilha, pintar igualmente de preto. 213 vezes até agora. Enfornar. Desenfornar. Encaixotar.

Recomeçar.

UM METRO QUADRADO

Tenho andado ocupada a pintar réplicas de azulejos da Fábrica das Devesas, para colmatarem as lacunas existentes numa fachada de um prédio em Lisboa. Para já, foram-me pedidos 10m2 e para falar muito francamente, espero que não sejam precisas mais – são 500 unidades no total, executadas manualmente uma a uma.

A produção vai avançando devagarinho, ao meu ritmo; tento fazer entre 12 e 15 unidades por dia, mas ontem, por exemplo, só pintei 6 – tenho de conjugar entre aquilo que consigo e o restante trabalho que tenho em mãos. Para já ainda estou confortável com o prazo, mas não posso dar hipóteses de ter de trabalhar sob pressão – não gosto de o fazer, nunca; mas muito menos neste caso, em que o processo de manufactura é minucioso e portanto, pouco acelerável.

Neste momento tenho cerca de 120 unidades prontas e mais 60 já pintadas e à espera de serem cozidas. Passinho a passinho se faz o caminho.

MOSAICO

E um ano depois do previsto inicialmente, eis que recebo agora luz verde para arrancar com a manufactura de 500 réplicas destes azulejos de fachada para colmatarem as lacunas existentes num edifício de rendimento em Lisboa.

Tratam-se de azulejos industriais de estampilha, com cento e poucos anos, produzidos na extinta Fábrica de Sacavém, em Lisboa, os quais podem ser encontrados igualmente a revestir algumas fachadas no norte do país, uma vez que foram executados também pela desaparecida Fábrica das Devezas, em Vila Nova de Gaia.

Curiosamente e graças ao meu amigo Fábio Carvalho, autor do blog Azulejos Antigos no Rio de Janeiro , que me mostrou o livro Las Azulejerías de La Habana, Cerámica Arquitectónica Española en América, onde este padrão aparece apelidado como “Mosaico”, descobri que estes azulejos têm influência espanhola – em finais do séc. XIX foram produzidos pelo menos em três fábricas na zona da Valência – e podem ser encontrados como revestimento cerâmico exterior não só em Portugal e Espanha mas também em Cuba, chegando até mesmo a haver um exemplar em exposição no Museu do Azulejo de Montevideu, no Uruguai.

1876

Tal como estava combinado, ontem entreguei as oitenta réplicas de azulejos de estampilha que fiz para o coreto do Jardim do Tarro,  em Portalegre, construído em 1876.

O prazo foi apertado e a luta contra o tempo não me permitiu fazer muitos mais testes de cores e fiquei a achar que o branco poderia ser talvez um bocadinho mais acinzentado; o azul escuro não está tão escuro e fundido como o dos azulejos originais e o brilho, pois…; estes azulejos são mais brilhantes, mas tive problemas com as tintas sobre os vidrados mate dos testes que experimentei e achei que era melhor não arriscar com a produção, assim tão em cima da hora, porque depois não havia tempo nem margem para voltar a repetir tudo – ainda para mais, com chacotas 13,5×13,5cm, que já não se fabricam e que já tinha deixado cortadas antes de ir para férias.

De qualquer modo, estou satisfeita; este padrão é muito bonito e apesar de tudo, os azulejos ficaram bem – agora fico a aguardar a fotografia in situ.

 

CORETO

Após uma merecida pausa de três semanas, para descansar e tentar meter a cabeça no lugar, estou de volta à oficina directamente para produzir 80 réplicas de azulejos de padrão para o coreto do Jardim do Tarro, em Portalegre, as quais prometi entregar até dia 6 de Setembro, no máximo. O tempo está a contar e não permite fazer muitas experiências de cores – vou ter de assumir rapidamente o que me parecer o mais semelhante possível; porque depois, entre vidrar as chacotas todas, pintar e cozer, de repente já lá estamos.

Confesso que ainda ficaria de bom grado mais uma semana sem vir cá – o que não é nada normal, apetece-me sempre vir para a oficina! – mas enfim, noblesse oblige.

 

PADRONAGEM INDUSTRIAL

Mais uma encomenda pronta e a riscar da lista dos mil e um afazeres que tenho tido entre mãos desde o início do ano e cujos prazos de entrega vou tentando cumprir ordeiramente e por ordem de chegada ou complexidade – desta feita, cerca de 90 réplicas de azulejos de fachada, de padronagem industrial, que curiosamente me foram encomendados para um revestimento de uma casa de banho e que, não é para me gabar, mas acho que ficaram muito bem.

 

O ANO DA ESTAMPILHA

Entre as mil e uma coisas que ando a fazer ultimamente, comecei esta semana a trabalhar em mais um pequeno projecto de réplicas de azulejos para uma fachada de um edifício em Lisboa – de repente e, agora que já estamos em Dezembro, começo a aperceber-me de que nunca tinha feito tantos azulejos de estampilha como neste ano; desta vez serão cinquenta unidades deste padrão e mais quinze para o respectivo friso e curiosamente já é a segunda variante desta padronagem linda que faço em tão pouco tempo.

 

 

 

 

 

TESTES DE COR

De volta à oficina e às mãos na massa depois de uma estada fora para banhos e limpeza da cabeça.

Para já, a rentrée coincide com um novo projecto – manufactura de réplicas deste azulejo de padrão e respectivos frisos, cerca de 200 unidades no total que irão colmatar as lacunas existentes na fachada de um edifício em Setúbal. As estampilhas já estão cortadas e os primeiros testes de cor, acabados de pintar, vão hoje para o forno.

MAIS PADRONAGEM

 

Coisas que acontecem: depois de ter feito cerca de 1500 azulejos novos para revestirem integralmente uma fachada de um edifício na Ajuda, sobre a qual falei aqui, tive logo a seguir uma outra encomenda de mais 130 réplicas de outros azulejos de estampilha aparentemente iguais, para colmatarem as lacunas de outra fachada de outro edifício, este na Lapa.

Quando digo aparentemente iguais, refiro-me ao facto destes serem uma outra variante do mesmo tema; não só por serem em tons de verde, mas também por medirem 13x13cm (aquela medida que não dá jeito nenhum) contra os 14x14cm dos anteriores. Até o padrão, que todos diríamos ser igual, afinal é um pouco diferente.

Com isto quero dizer que as chacotas tiveram de ser cortadas todas uma a uma e as estampilhas feitas de novo de acordo com as estas medidas e este motivo – o que soube bem, pois assim pareceu-me que afinal estava a trabalhar num projecto diferente do anterior. E estava.

 

 

 

ESTAMPILHA

Aqui há uns tempos fui desafiada para criar pequenos conjuntos de 4 azulejinhos manuais, pintados, com 7x7cm cada, para servirem de decoração de cozinha. Lembrei-me imediatamente daqueles pequeninos que faço, baseados na azulejaria tradicional portuguesa – que são tããão giros! – e quando os mencionei, disseram-me que sim, que “podiam ser esses e também outros, quaisquer outros que eu quisesse criar”.

Neste ponto confesso que bloqueei – mais de vinte anos a trabalhar em conservação e restauro de azulejos, dentre os quais os últimos seis ou sete foram dedicados a pintar réplicas para monumentos e edifícios, dão nisto. “Outros quaisquer, que eu quisesse criar… ” Como assim? Mas que mais é que se pode pintar em azulejo que não seja baseado na azulejaria tradicional portuguesa? Impossível, NÃO HÁ NADA!!! Ok, ok, bem sei que já criei uma série de azulejos diferentes – que se podem espreitar aqui – mas enfim, era outra coisa; eram azulejos relevados, não eram azulejos pintados.

Depois, aos poucos, lá fui raciocinando, claro; cozinha… cozinha…; o que é que tem a ver com cozinha?, o que é que pode ter a ver com cozinha?; e as ideias começaram a surgir; primeiro devagar, depois mais depressa  e depois em catadupa; sempre com a cabeça a mil e o entusiasmo de produzir, produzir!, de modo a quase ter de ser arrancada aqui da oficina.

E pronto; aqui estão eles; os primeiros resultados – azulejos manuais, pequeninos, pintados com estampilha.

E agora já tenho mais ideias novas.