ART NOUVEAU

Aqui há uns tempos – alguns, já – fui contactada no sentido de poder vir a ter de fazer umas réplicas destes azulejos da extinta Fábrica de Sacavém e que, segundo descobri no Catálogo de Preços Correntes da Real Fábrica de Louça de Sacavém – Azulejo; datado de Agosto de 1910, correspondem ao motivo 19-F, com a descrição «Azulejo com decoração Art Nouveau, com relevo e vidrado monocromático».

Na altura foi-me pedido um orçamento a contemplar o preço unitário de cada réplica com o mesmo tom, mas liso e eu, pelo sim, pelo não, entreguei também um orçamento onde especificava o preço unitário de cada réplica com o respectivo motivo relevado – caso quisessem. Quiseram. Cerca de 15 unidades, para as quais eu até já tinha aproveitado uma fornada para cozer também umas experiências de cor, esperando na altura adiantar trabalho e rentabilizar o forno.

MUFLA DE EXPERIÊNCIAS

Chegou ontem o nosso novo forno, próprio para fazer experiências de cor. Vai dar um jeitão para adiantar os trabalhos de manufactura de réplicas – coze rapidamente e consome pouco. Leva três azulejos de cada vez; com jeitinho, quatro. E já fez a sua primeira fornada: portou-se muito bem.

AZUL E BRANCO

Comecei finalmente a produzir as réplicas para o nº 11 a Sta. Catarina – para já, os frisos; 160 unidades, que tiveram de ser todos rectificados, uma vez que as medidas dos azulejos originais já não se fabricam. Depois de algumas experiências de cores – de vidrados e tintas de alto fogo – e aprovação por parte do dono da obra, comecei ontem a pintá-los. São muito simples, em azul e branco. Que é como estes irão ficar depois de cozidos.

TINTAS DE ALTO FOGO

         

Comecei hoje a tratar de fazer experiências com tintas de alto fogo para pintar as réplicas dos azulejos de estampilha para a fachada do nº11, ali em Sta. Catarina. Pelas minhas contas não hão-de ser assim tantas – cerca de 65 azulejos de padrão e cerca de 140 frisos – e o mais trabalhoso será rectificar as chacotas com as medidas certas, que entretanto deixaram de se fabricar. Quantos às cores, quer-me cá parecer que, com um pouco de sorte, já tenho preparado um vidrado base, branco, muito idêntico ao dos originais e a tinta azul, se não me engano, também já está feita. Portanto, experiências, propriamente ditas, com receitas e tudo, só para o amarelo e para o verde. De qualquer modo ensaio tudo; assim como assim, enquanto não tiver dinheiro para comprar uma pequena mufla de experiências, esta que aqui está terá mesmo de fazer uma fornada meio vazia.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

LACUNAS

   

Finalmente parece-me que estão pintadas todas as réplicas dos azulejos para o 88. Digo parece-me, porque lá no prédio a azáfama continua e cada vez aparecem mais coisas à frente dos painéis – janelas, cozinhas, tábuas de soalho – e não consigo ter e certeza se tirei todos os desenhos de todos os pisos; não me admirava nada se no fim ainda ficassem duas ou três para se fazerem. Tive de pedir ajuda a umas colegas para me pintarem cerca de metade do que faltava – as dos azulejos das tomadas, os quais se optou por serem substituídos por réplicas para não se cortarem os originais – deixando para mim a tarefa de pintar os das lacunas; o que deu algum trabalho, uma vez que os azulejos envolventes se encontram na parede e tive de tirar os desenhos por outros com motivos semelhantes e estar aqui na oficina a pintar através de fotografia, tendo atenção para que as linhas de contorno e manchas de cor batessem certo com as dos originais. Agora é ir lá entregar tudo e verificar se há alguma coisa para repetir, o que espero que não…

CORES

Comecei a trabalhar nas réplicas para integrarem o conjunto azulejar do 88. Como sempre, há pressa na entrega das mesmas, apesar de se lhes explicar que isto não se faz de um dia para o outro. Por acaso consegui comprar chacotas manuais, o que foi uma sorte, pois nem sempre há em stock o número suficiente que se precisa e já vai adiantar o processo. Agora, o costume; fazer experiências de cores, retirar desenhos, vidrar, limpar vidrados, picotar… Felizmente já tenho muitas cores onde me basear e é só fazer alguns acertos, mas entre enfornar e desenfornar, passa um dia.

DE NOVO NA OFICINA

Enquanto deixo a minha equipa espalhada pelo 88, Museu Militar e Instituto de Medicina Tropical, estou agora de volta à oficina (que está caótica, por sinal…) para começar a fazer as réplicas para o 88. Há dois meses que ando a falar neste assunto, mas pronto; só agora é que finalmente se decidiram a mandar avançar com esta fase, como se se fizessem cerca de 130 azulejos – réplicas, ainda por cima – do dia para a noite: há que tirar todos os desenhos, comprar as chacotas adequadas, fazer experiências de vidrados e tintas, enfornar, desenfornar um dia depois, voltar a fazer ensaios… Enfim, «Isabel, dê prioridade a este assunto!» e lá vai ela, agora, à pressa, meter mãos-à-obra, quando se podia ter feito tudo muito mais tranquilamente…

A MIL…

Hoje vou fazer uma fornada de vidrados, quero ver se estas peças ficam prontas para as levar à loja na próxima semana. Com tanta coisa que ando a fazer ao mesmo tempo, começo a ficar baralhada com isto tudo; tenho peças a secar para enchacotar a 970º e outras a 1040º; por outro lado, tenho vidrados para cozer a 1020º e outros a 1240º. Isto para não falar nas experiências de barro pigmentado com diferentes percentagens de óxidos, nem nas tacinhas que estou a modelar. E mais os orçamentos que tenho para fazer pelo meio disto tudo, sem me enganar e que me roubam algum tempo. Os frasquinhos com experiências de vidrados desmultiplicaram-se rapidamente e uns servem para uma coisa e outros para outra, mas como estão bem identificados, não há margem para confusões – espero eu. Tenho pressa em ver resultados; ando entusiasmada, mas estes processos demoram o seu tempo e as semanas passam demasiado rápido. E o forno demora um dia até eu poder ver o que se passou lá dentro. Ufa!… Estou cansada…

OHAUS

Estou super-contente! Ontem comprei finalmente uma coisa que há muitos – muitos! – anos queria ter: uma balança de precisão, com sensibilidade até aos centésimos de grama. Caramba, nem era preciso tanto, décimos chegavam perfeitamente… E agora sim, isto é que vai ser fazer recitas de vidrados com algum rigor! É que, quando se trata de óxidos, meio grama pode fazer muita diferença, alguns são extremamente fortes! Bem sei que nisto das experiências há sempre muito desperdício de material; mas por que estar a usar 300g de vidrado base para conseguir pesar uns míseros 3g de óxido de cobalto, que corresponde a 1%? E isto é quando a balança que cá temos consegue pesar 3g, porque às vezes fica ali parada nos 2 e eu a deitar pitadinhas atrás de pitadinhas, com muito cuidadinho… e aquilo nem sequer mexe; até que de repente!, pumba, salta directamente para os 5g!… (É claro que aqui sai o meu vernáculo pessoal). Mas hoje até já consegui pesar 0,5g de óxido de cobre e a partir daqui é só dar largas à imaginação.