
Terminei já há algum tempo as réplicas dos azulejos da Fábrica das Devesas que me pediram para fazer de modo a colmatar as lacunas de dez frisos de um prédio na Rua da Saudade, em Lisboa. Não fiquei propriamente satisfeita com os resultados: devido a situações várias, não tinha todo o tempo do mundo para me dedicar a este trabalho e tive de geri-lo entre inúmeras outras coisas para fazer, com a agravante de haver uma certa urgência na sua entrega, para assentamento – felizmente o mau tempo deu-me alguma margem de manobra, atrasando a obra.
O primeiro problema com que me deparei foram as estampilhas – demasiado pequenas e delicadas, tive de abrir mais do que as que estava à espera; enganei-me várias vezes, perdi tempo e material e cheguei a irritar-me com aquilo. Pergunto-me como é que eles as fariam na época, mas com certeza que seria da mesma maneira – muita paciência, uma tesourinha e boa vista. Depois, o azul. Os azulejos originais apresentavam um tom liso, sem marcas de trincha; parecia-me um decalque, ou qualquer coisa do género. Fiz algumas experiências de cor e tentei criar o mesmo efeito, com uma pequena esponja – o azul, aplicado um pouco mais espesso e mesmo com fundente, acabava por borbulhar e aplicado com a trincha, não tão forte, apresentava um efeito mais aguado e translúcido.
Depois o meu forno avariou, a meio de uma cozedura – podia acontecer em qualquer altura, mas não.
Soube que os azulejos originais, datados de 1910, não constam do catálogo de então, com a mesma data. Ao que parece, terão sido uma encomenda especial para este prédio e porquê aqui para esta zona – coração de Lisboa – é ainda mais intrigante, uma vez que as Devesas forneciam, não só, mas principalmente o norte do país. Segundo fui informada, os azulejos que ainda estão nas paredes, tais como os meus, também não pautam pela perfeição: apresentam chacotas de má qualidade, defeitos de fabrico no vidrado e defeitos de pintura, sobretudo nos azuis – “não há dois iguais”.
O que, apesar de não me alegrar, lá me tranquilizou.