INVULGARES

Comecei a ver os resultados da empreitada da manufactura de réplicas de azulejos que estive a fazer para a fachada de um antigo edifício no centro de Lisboa a qual me manteve bastante ocupada nestas últimas três semanas.

Estou bastante satisfeita; os mais complexos de fazer, estes azulejos de estampilha com acabamentos à mão, cuja padronagem é bastante invulgar – pelo menos eu nunca a tinha visto e eu já vi muita padronagem azulejar! – ficaram bastante bem e já estão prontos a irem para a parede.

PADRONAGEM

Acabei ontem a empreitada que andei a fazer este último mês e que me ocupou o tempo quase todo: produzir 1530 azulejos de padrão, pintados à mão um a um na técnica de estampilha, para revestirem um pequeno edifício na Ajuda, em Lisboa. A produção não foi complicada, mas exigiu alguma organização diária e metódica que permitisse não só que a mesma fosse avançando, mas também que me deixasse ainda algum tempo livre para fazer outros trabalhos que entretanto poderiam surgir ou outra coisa qualquer que me desse na real gana e que evitasse que eu entretanto desse em maluquinha.

Aproveitando a deixa do meu forno grande – assim chamado por ser o maior aqui da oficina, mas na verdade, para um trabalho destes, ser ridiculamente pequeno – levar apenas 120 azulejos de cada vez e as fornadas demorarem dois dias cada, a produção foi decorrendo sempre de igual modo, diariamente, desde meados do mês passado: vidrar 60 chacotas logo de manhã, depois pintar 60 azulejos em conjuntos de dez de cada vez, cada azulejo com 4 estampilhas até ficar pronto, meter os azulejos em duas gazetes de 30 cada uma e finalmente limpar o excesso de vidrado dos 60 azulejos feitos de manhã e que assim ficavam já prontos a pintar no dia seguinte. De dois em dois dias, desenfornar, encaixotar e voltar a enfornar. E de vez em quando preparar mais 10kg de vidrado, tendo em conta que o mesmo deve ficar a repousar para o dia seguinte antes de se poder usar.

Amanhã saem do forno os últimos 80 que enfornei ontem.

Não fiquei maluquinha entretanto, mas temo pela minha sanidade mental.

 

 

 

 

FACHADA AZULEJADA

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Mais um pedido de orçamento para fazer, desta vez para a manufactura de cerca de 260 unidades, entre padronagem e cercadura, de réplicas destes azulejos de estampilha – lindos! – que infelizmente já faltam e continuam a desaparecer numa fachada de um edifício no centro de Lisboa.

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TRAVESSA DO TERREIRO A STA. CATARINA

  

  

Terminei a obra de restauro dos azulejos da fachada do nº 11 da Travessa do Terreiro a Sta. Catarina. A intervenção consistiu essencialmente na manufactura de cerca de 200 réplicas de azulejos, entre frisos e padronagem, que colmatassem a grande lacuna existente e que também substituíssem alguns azulejos que ali estavam e que não pertenciam àquele conjunto. Havia ainda – e continua a haver – algumas réplicas provenientes de uma outra intervenção anterior, que o dono da obra quis manter e ainda bem, porque estavam todas assentes em cimento, como já se estava mesmo à espera.

O resto da intervenção seguiu os procedimentos habituais: limpeza profunda, consolidações de falhas de vidrado, preenchimentos e integração cromática. Apesar da pouca segurança do andaime que me arranjaram e do escadote para acabamentos finais, acho que ainda assim ficou bem melhor do que estava. E espero que assim se aguente por uns bons anos.

PROBLEMA OPOSTO

De volta ao Museu Militar, agora com o problema oposto: demasiado Sol, demasiada luz e demasiado calor. Tentamos trabalhar de acordo com a sombra; de manhã na fachada Este, à tarde na Oeste. E a partir da 15h, na Norte. A fachada Sul, excepto pequenos detalhes, está terminada. A cola, agora, endurece muito mais depressa e a acetona evapora mais rapidamente. Mas já falta pouco para dar o trabalho por concluído. Muito pouco.

BARALHADA

Confesso que estou a ficar baralhada com as previsões meteorológicas. Aproveitando a deixa que hoje iria chover – o que me pareceu normal, depois do dia de ontem -, avisei a minha equipa para ninguém ir para o Museu Militar e fui, carregada com o meu guarda-chuva, ver um trabalho para o qual fui contactada. Trata-se de uma pequena fachada em azulejos, a precisar de restauro, num pequeno prédio lisboeta, a precisar de uma pequena intervenção – enfim, um trabalho à minha escala.

São agora três da tarde e ainda não choveu, o que me deixa levemente enervada. Digo a mim mesma que tomei a melhor opção em ter parado o trabalho por hoje, que os painéis estariam todos molhados à mesma; mas a verdade é que estas paragens desorganizam a minha metodologia de trabalho com os meus colegas. Bom, para já, posso começar a fazer este novo orçamento, que convém entregar o mais rapidamente possível. E para amanhã, amanhã se verá.

FACHADA NORTE

Estão de volta à parede todos os painéis de azulejos da fachada Norte, incluindo o Ni-2, que esteve quase cinco semanas em dessalinização e todas as réplicas que foram necessárias fazer. A vista geral do pátio é já muito diferente e nesta fase, com todos os azulejos limpos, juntas fechadas e praticamente todos os preenchimentos feitos, quase parece que o trabalho está terminado – apesar da descoberta de mais um tubo de água todo rachado e com falta de alguns bocados no interior da parede da fachada Este, o que obrigou ao levantamento de não sei mais quantos azulejos que já estavam quase dados por terminados. Mas tudo bem, estou satisfeita com esta intervenção e ao que parece, até à data, o Estado Maior do Exército também.

AZULEJOS SOLTOS

Faz hoje uma semana que começámos a intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões, no Museu Militar. Apesar de ainda ser cedo para balanços, o trabalho corre a bom ritmo: as quatro fachadas foram identificadas por Norte, Sul, Este, Oeste e os registos gráficos dos painéis inferiores estão já todos prontos – cerca de 15 por cada uma. Eu tenho andado entretida a fazer quebra-cabeças com os azulejos soltos que caíram ou foram retirados in-extremis e que me foram entregues em caixas com pouca ou nenhuma marcação; numa tentativa de montar as zonas que faltam nos painéis da fachada Norte, a que apresenta mais problemas de conservação e consequentemente também grandes lacunas azulejares. A coisa não é fácil, mas aos poucos lá vai e neste momento já estão montadas três grandes zonas. E amanhã passo àquilo que eu chamo de cacaria…

CASA DE FERREIRO…

Como se costuma dizer, em casa de ferreiro, espeto de pau. Tenho este azulejo de fachada lá em minha casa há imenso tempo; tanto, que já nem me lembro como é que ele veio parar às minhas mãos. Gosto muito dele nem sei bem porquê; não é especialmente bonito, mas é feito em pó de pedra, uma técnica caída em desuso, muito comum na extinta Fábrica de Loiça de Sacavém e gosto muito de o ver ali, penduradinho na parede entre outras coisas, poucas, que eu tenho na parede e considero especiais. Há coisa de uns seis meses, ops!, levou sem querer um piparote e estatelou-se no chão de mosaico hidráulico lá da casa-de-banho, que apesar de já ter mais de sessenta anos de existência, não está ainda suficientemente amaciado por quatro gerações de uso. Fiquei chateada com o facto, acho que ainda praguejei qualquer coisa e meti-o bem à vista, a ver se o trazia para aqui para a oficina, ou não faça eu restauro, ainda por cima, de azulejos. Mas para ali foi ficando, até que hoje, finalmente, o trouxe para cá. Quero aproveitar esta semana que estou de folga das réplicas da In Situ, para tratar de pequenas coisas que estão pendentes e nunca mais se resolvem. Como por exemplo, colá-lo.

CALÇADA MARQUÊS DE ABRANTES

Na sexta-feira passada fui ver este prédio na Calçada Marquês de Abrantes, em Lisboa. Fui contactada por uma empresa para uma sub-empreitada de conservação e restauro dos azulejos do edifício. Estive quase três dias para estruturar uma metodologia de trabalho e respectivos preços unitários e por metro quadrado, que deveria ser entregue até hoje, sem falta – o que já aconteceu.

A intervenção consistirá no levantamento de todos os azulejos interiores existentes nas chaminés das cozinhas e nos rodapés das escadas e manufactura de réplicas para posterior assentamento. Quanto às fachadas exteriores, quatro no total, teremos de verificar o estado de adesão dos azulejos nos quatro pisos e levantar os que estiverem em risco de destacamento. Depois, todo o conjunto será tratado in situ e serão também feitas as réplicas necessárias para colmatar lacunas e azulejos em muito mau estado de conservação.

Para o piso zero, que já não tem azulejos em duas das fachadas e as outras duas mantêm apenas poucos originais, está contemplado o revestimento com réplicas que lhe devolva a sua integridade original. Estamos a falar de quase cerca de oitenta metros quadrados, coisa pouca, portanto…