31 DE DEZEMBRO DE 2010

31 de Dezembro de 2010.  Não posso dizer que este ano tenha sido dos mais famosos: três ou quatro trabalhitos pequenos no primeiro trimestre e mais dois ou três agora no final, o que deu mais ou menos uma média de seis meses de trabalho efectivo e outros seis a puxar pela cabeça a ver como é que me arranjava para ir pagando as despesas correntes lá de casa e aqui da oficina também. Mas nem tudo foi mau: a um tal de Jorge Inácio, dono da Mdf-Cr, uma empresa de restauro que não recomendo a ninguém, para quem trabalhei em Março, numa igreja em Cascais e cujo pagamento ainda continuo à espera, devo o facto de ter iniciado a minha produção cerâmica antes de optar por ir trabalhar para o Pingo Doce, já em desespero de causa e fartinha de certo tipo de restauradores, supostamente sérios, que para aí andam. Obrigada, Jorge! E quando puderes paga-me lá o que me deves, caramba; já lá vão nove meses e o dinheiro faz-me falta. Ainda não vivo da cerâmica, claro, mas gosto do processo criativo e tenho tido alguns elogios, o que me deixa sempre um bocado babada. E enfim, tive experiências novas; fui às feiras medievais; criei este blog (que tão bem me faz à sanidade mental durante as muitas horas que trabalho sózinha) e através dele, conheci pessoas novas e até vou entrar num documentário europeu.

Não posso dizer que este ano tenha sido propriamente bom. Mas também não foi mau de todo… Enfim, não foi bom, nem mau; antes pelo contrário.

VERMEER

Nesta feira não me apanharam desprevenida! Era para ir vestida à época? Então lá fui! Bom… não sei se seria bem medieval, mas pelo menos era qualquer coisa que se assemelhasse… De um lençol velho fiz uma saia e uma touca, o avental é o que uso aqui na oficina e depois foi só ver o que é que tinha guardado lá para casa… Não ficou mal. Disseram-me que eu parecia «A leiteira», do Vermeer. É possível, é possível; não me tinha ocorrido, mas provavelmente estava no meu subconsciente quando pensei nisto. Obviamente, nunca iria vestida com um fato de cortesã, que essas não vendiam nada nas feiras e teriam, certamente, umas mãos mais cuidadas do que as minhas… E em boa verdade se diga que teria ganho mais dinheiro a posar para as fotografias, tal foi a quantidade de gente que me fotografou e que até posou comigo… Para a próxima vou pensar nisso!

FEIRA MEDIEVAL DE SINTRA

16, 17 e 18 de Julho de 2010. Esta era a minha banca, que afinal se chama stand. Apesar de muito vento e calor de dia e muito vento e frio à noite, correu bem! Com excepção de uns alfinetes e de uma estaca, não me esqueci de nada! E mesmo isso, foi-me emprestado pela vizinhança, que, mais uma vez, era muito simpática. Estou muito cansada, mas contente. Estava à espera de vender mais, mas parece que a tão falada crise está mesmo instalada e as pessoas não compram tanto como gostariam. De qualquer modo não me posso queixar; sempre trouxe algum dinheiro para casa, divulguei o meu trabalho e ouvi muitos elogios às minhas peças, o que me deixa um pouco babada e motivada para continuar. E entreguei muitos cartões a pessoas interessadas, o que talvez traga alguns frutos lá para a frente… E ainda obtive uma ou duas informações preciosas se quiser apostar nisto das feiras.

Já agora, obrigada, mais uma vez, aos amigos e familiares que por lá apareceram e que contribuíram com a sua opinião, companhia e força (e algum dinheirinho!) para eu continuar por esta nova via da cerâmica.

ULTIMA FORNADA

Uf! Tirei agora mesmo as ultimas peças do forno, mesmo a tempo de ir para a Feira Medieval de Sintra. Saíram todas bem! Acho que já estou a melhorar com os vidrados… Doze placas relevadas, doze tacinhas e uma taça alta. E já não tenho mais barro! Nem mais nenhuma feira em vista, para já. Espero vender bastante, estou a precisar do dinheiro. Se não, pelo menos divulgo o meu trabalho, o que é sempre bom. E oiço opiniões… Já tenho tudo pronto, só falta carregar o carro e fazer-me à estrada. Hoje a feira abre às 18h, mas as coisas têm de estar montadas duas horas antes. Espero que não chova, o tempo está esquisito e em Sintra nunca se sabe…

AHAHAH!

Vim agora de Sintra, por sorte, vi ontem no regulamento que as bancas tinham de ser montadas na véspera e eu estava convencida que era só no próprio dia. Cheguei por volta das onze e já lá estava imensa gente a tentar perceber onde é que iria ficar. Os lugares não são marcados, o que acho bem e disseram-me que os últimos a chegar, nas feiras medievais, «ficam lá para os fundos, ao pé dos camelos…». Bom, desta já escapei; até simpatizo com estes animais, mas parece que ao pé deles o cheiro não é dos melhores e depois, não tenho nada para lhes dizer, nem eles a mim. Portanto, a coisa está a melhorar. Entretanto lá me deram o espacinho que eu lhes tinha dito que iria precisar. Ahahah! Até me deu vontade de rir, acho que vou ser a pessoa com a banquinha mais pequena da feira! Vou ficar entre duas tendas grandes, não sei se alguém vai dar por mim!… Mas já valeu ter lá ído hoje, os cavaletes têm de levar uns calços e a extensão que eu ía levar tem de ser maior. E pronto! Agora é só tratar dos últimos pormenores que ainda faltam e amanhã lá vou eu! Vamos lá a ver no que isto vai dar…

DA MINHA AVÓ

Se a minha avó Isaura, que eu adorava, ainda fosse viva, teria hoje 95 anos. Foi a vê-la costurar que eu aprendi a coser à máquina e era também comum vê-la a fazer crochet, quando me levava ao jardim, entretida com rendas e outros lavores semelhantes que as meninas de há cem anos aprendiam na escola. Foi da minha avó que eu herdei esta máquina de costura e também três caixotes com tecidos, lençóis, naperons, rendas e linhas, que me ocupam um espaço precioso em casa, mas que nunca me consegui desfazer.

Ando-me a preparar para a Feira Medieval de Sintra. Em Elvas percebi que o aspecto da barraquinha, bem como o de quem vende, é muito importante para chamar a atenção de quem passa. Com lençóis velhos, estou a fazer umas forras para as bancadas, aos quais vou aplicar umas rendas soltas que tenho lá em casa. Nada de excessos. Fiz também uma saia comprida, franzida na cintura, que aproveitei de um lençol velho normalíssimo (tenho lá uns de linho, que ficariam maravilhosos, mas parte-se-me o coração só de pensar em meter-lhes a tesoura…). Já pedi a uma amiga, que é um ás da costura, para me fazer uma touca, daquelas justinhas à cabeça e que se usavam na idade média, não só para dormir, como também para sair à rua. E depois, com um avental que uso aqui na oficina,uma camisa de mangas compridas e dois ou três acessórios, fica pronto o brilharete!

CAVALETES E PRANCHETAS, PREGOS E PARAFUSOS

A Câmara de Sintra avisou-me que não têm bancas para os feirantes, que cada um deve ter a sua. Claro que eu ainda não tenho uma e, tão em cima do acontecimento, vou ter de improvisar mais uma vez. Por sorte, aqui na oficina, cavaletes e pranchetas não faltam e vai ser com a prata da casa que eu me vou amanhar (a retenção de custos continua…). A questão vai ser entre haver uma parte de cima ou não; por um lado protegia-me do sol, por outro e, pensando em Sintra, protegia-me de chuva ou da humidade nocturna, que lá o verão é sempre duvidoso… Mas isso implica uma estrutura qualquer, que eu agora não consigo pensar… Portanto e, para já, acho que vai ficar mesmo assim. O importante é que as pessoas não se tenham de baixar. E quando eu me tornar uma verdadeira profissional nestas andanças, logo penso como vou fazer as coisas.

NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA!

Ter ído a Elvas, entre outras coisas que aprendi, trouxe isto de bom: disseram-me que eu deveria tentar ir à Feira Medieval de Sintra, ainda este mês. Nem fazia ideia que essa feira existia. Entrei em contacto com a Câmara de Sintra e enviei-lhes o blog, para verem o meu trabalho. E aceitaram-me! Sintra significa Património e Património interessa-me! Estou muito contente, acho que as minhas peças nesta feira poderão ter uma outra visibilidade bem diferente do que em Elvas. Resolvi fazer rapidamente e com o pouco barro que me restava, uma série de tacinhas (que sempre vão tendo saída) e também uma pequena colecção das aplicações que eu uso nas taças grandes, para lhes colocar uns ímanes atrás. Acho que podem ficar bem giros e podem-se vender barato ou até oferecer… Nada como um objectivo para a cabeça começar logo a funcionar a mil!

A parte melhor de todas, foi ter recebido outro telefonema, também da Câmara de Sintra, a convidarem-me para participar numa feira setecentista que vai haver no fim de Julho ao pé do Palácio de Queluz! Eu nem imaginava que havia feiras setecentistas! Bom, tive de recusar o convite, com muita pena minha, mas não tenho nenhum material pensado nesse sentido… Apesar de já muitas ideias, algumas antigas, começarem agora a ganhar consistência! Para o ano contam comigo, porque «as suas peças são muito bonitas!» É claro que, agora, estou aqui sentada sózinha, mas de sorriso na cara…

Aproveitando ainda a experiência da outra feira, fiz também uns pequenos suportes para meter os preços das peças, assim não vão ter hipóteses de voar!

VELAS EM ELVAS.

Uma vez que não pensei na iluminação da minha barraquinha na feira Medieval de Elvas, consegui contornar o problema espalhando várias velas por cima do balcão e da mesa de apoio onde estavam as peças. Juntamente com a fraca iluminação que eu tinha de duas lâmpadas, até acho que ficou com um ambiente… medieval. Em todo o caso, já ando a pensar em fazer uns candeeiros, também em barro refractário, para levar à próxima feira que eu vá brevemente…

FESTIVAL MEDIEVAL DE ELVAS

2, 3 e 4 de Julho de 2010: Festival Medieval de Elvas. Chegada na sexta-feira, por volta do meio-dia, muito calor. Deram-me duas barraquinhas singelas, com um balcão fininho. À minha volta, os profissionais destas coisas, atarefavam-se a montar mesas e cavaletes e panos e bancas próprias com tudo pensado. Como me tinham dito que só era preciso levar o que eu tencionava comercializar, assim o fiz: não levei mais nada. Erro nº1. Lá fui rapidamente comprar umas esteiras e uma mesinha de apoio para ter dentro da barraca. Por sorte, as pessoas à minha volta eram muito simpáticas e emprestaram-me ainda mais uma mesa, sobre a qual pude ainda pôr umas peças, para não ter de ficar tudo no chão. Enfim, depois de muito suar, lá consegui improvisar o meu estaminé, que, apesar de tudo, ficou simpático…

A meio da tarde vieram umas pessoas da organização entregar-me duas lâmpadas. Erro nº 2: não levei extensões, nem fios elétricos e o cabo que dava para a minha barraca era muito pequeno. A custo, lá o consegui puxar até ao cimo do balcão principal e por sorte, a vizinha do lado tinha uma extensão grande, com a qual consegui pendurar a outra lâmpada sobre a barraquinha do lado. Depois, com uma série de velas dentro das tacinhas pequeninas, consegui que tudo ficasse com um ambiente bem simpático!

O festival abriu com um cortejo, por volta das seis da tarde e todos os comerciantes estavam trajados ao estilo medieval, ou, pelo menos, de uma forma que nos poderia reportar à época. Erro nº3: eu não. Vá lá que levei um vestido comprido que, mais ou menos, até disfarçava e andei o tempo todo com ele, mas faltavam-me as bolsas penduradas, as peles, os coletes e os adereços em cabedal… Felizmente lembrei-me de calçar uns sapatos de lona com sola de corda e lá fiquei com um ar medievo-contemporâneo (que, segundo um amigo meu, é também o ar das minhas peças, portanto, tudo bem!).

Ao fim do primeiro dia, à hora de fechar, deparei-me com o último e importantíssimo erro: como fechar as barracas. Tinham-me dito que não havia nenhum problema com a segurança durante a noite, que o local iria estar vigiado, mas a verdade é que o recinto da feira era em plena rua aberta e toda a gente, os profissionais, tinha lonas com fechos e alertaram-me logo para eu não deixar as peças todas à vista. Mais uma vez, a vizinha do lado, muito simpática, emprestou-me um pano grande com o qual eu tapei tudo e fechei o melhor que pude a minha barraquinha. Diga-se, em abono da verdade, que não houve problema nenhum e tudo correu muito bem!

Apesar de não ter vendido o que esperava, consegui cobrir os custos, recebi vários elogios ao meu trabalho (que muito me agradaram), conheci gente muito simpática e para a próxima tudo correrá muito melhor com aquilo que aprendi!