TAÇAS SETECENTISTAS

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Estou a terminar as peças para a loja A roda da fortuna, em Évora e que ficaram a meio quando fui para Marrocos. Voltei a pegar na minha ideia antiga que fiz há dois, três anos?, para a feira setecentista de Queluz: criar peças únicas, baseadas na azulejaria portuguesa do séc. XVIII, mas que não sejam azulejos.

Na altura tive algumas questões técnicas que não consegui ultrapassar e agora também tenho; na verdade são ainda as mesmas – de lá para cá meteram-se uma série de trabalhos de conservação e restauro e toda a minha produção e experimentação cerâmica, que ia tão lançada, ficou parada. Agora, aos poucos, tudo recomeça e tenho várias frentes para acudir ao mesmo tempo, o que lá vou conseguindo.

ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE!

Alguma vez tinha de me acontecer: fazer aquilo que eu tinha dito para mim mesma que nunca iria fazer! – e estou a falar estritamente da minha produção cerâmica. Quando há uns tempos reciclei um bocado de barro branco, era já no sentido de fazer estas peças em faiança, completamente diferentes do meu trabalho até agora e que tenciono adaptar a alfinetes de peito, também conhecidos por pregadeiras ou, como diria a minha avó, broches. Confesso que não me apetecia muito cair nesta onda do berloque, mas a verdade é que os berloques vão-se sempre vendendo e portanto decidi também tentar a minha sorte. Tal como nas peças que fiz para a feira setecentista, das Séries «Fragmentos», mais uma vez a azulejaria tradicional portuguesa foi a minha fonte de inspiração e é visível que o meu lado de restauradora de azulejos se manifesta fortemente. Estas são as primeiras que pintei, ainda a título experimental, sempre quero ver se resultam…

MOLDES

Decidi retomar a minha produção cerâmica que já estava parada há algum tempo. Estou a fazer mais placas relevadas, agora com a colecção completa das sete da Série Horto e as do costume que tenho à venda no Mosteiro dos Jerónimos. E ainda mais taças novas, da Série Fragmentos, que já tinha feito à laia de experiência e à pressa para ir à Feira Setecentista de Queluz em Julho do ano passado, mas agora com o barro refractário que eu costumo usar. Quero ainda modelar mais três novas placas relevadas, para uma nova série que tenho em vista, mas tudo a seu tempo; primeiro tenho de pôr estas todas novamente a mexer…

PAUSA

Estou contente. Decidi fazer uma pausa na manufactura das chacotas, antes de ficar maluquinha de todo. Passo muitas horas sózinha aqui na oficina, o que até nem me desagrada, – gosto de trabalhar em silêncio quando estou concentrada. Mas, de vez em quando, trocar umas impressões com alguém; tirar dúvidas sobre o meu trabalho, rir um bom bocado; faz-me bem e eu preciso. Assim e antes que este espaço se torne um diário delirante da minha imaginação, resolvi canalizar a minha criatividade para o bom caminho e parar de fazer sempre a mesma coisa de enfiada. Até porque não há pressa. Se eu fizer dez chacotas por dia, no fim desta semana terei todas as que preciso. E consigo avançar com a cerâmica. Portanto… Estou com ideias para peças novas, mas antes de mais e para que não me esqueça, fiz já mais três placas relevadas para a Série Horto, para concluir o conjunto de sete que eu tinha pensado. Estas são os protótipos, em barro vermelho, para execução de moldes.

Todos os dias arranjo uma desculpa para não ir bater a portas de lojas. Com este pretexto, hoje estive também a actualizar a minha página de cerâmica, que agora já tem também as fotos das peças que eu levei para a Feira Setecentista e às quais chamei Série Fragmentos.

FEIRA SETECENTISTA DE QUELUZ

30, 31 de Julho e 1 de Agosto de 2010.

Já está! Muito gira, esta feira! Gostei. Bem organizada, com bancas com produtos diferentes, seleccionados à época (embora haja sempre uns desvios, claro, mas não muitos…) e animação histórica bem feita e engraçada. A organização teve o cuidado de fornecer roupa aos comerciantes e artesãos, de modo que tudo estava bem unificado. A mim trataram de me dar uma touca, mais setecentista, uma vez que a outra que eu tinha era demasiado medieval.

As novas peças tiveram um certo sucesso e, tal como eu imaginava, os turistas terão de ser o meu público prioritário. A minha amiga Jule, que é alemã e vai agora de volta para Berlim, levou um dos pratinhos para oferecer aos pais, dizendo-me que as minhas peças «são Lisboa». As taças altas foram logo vendidas, uma a um casal francês e as outras duas a um senhor alemão, que ainda me comprou mais uma das outras taças medievais e duas tacinhas pequenas. O meu melhor cliente, portanto, até agora. «Isto, muito bom!», foi o que ele me disse. Fiquei toda babada, claro está!

De resto, ainda não percebi bem se quero continuar a fazer feiras ou não. Tem o lado simpático e divertido de se conhecer pessoas e receber dinheiro imediato; por outro, está-se muitas horas a olhar para ontem, em que não se passa nada. Tenho de pensar nesta questão e também tratar de encontrar duas ou três lojas específicas onde faça sentido colocar as minhas peças… Mas para já, estou muito cansada e preciso de uns dias para ficar de papo para o ar!… Ufa!…

LINHA SETECENTISTA

Estas são as primeiras amostras das minhas peças da linha Setecentista. Enfim, dizer «linha» nesta fase talvez seja um pouco exagerado; «segmento de recta», para já, está mais apropriado… Tal como eu receava, duas das taças altas saíram mal e também dois solitários. Vão ter que ficar aqui na oficina, a contribuir para o resto de entulho que cá guardamos, à espera que um dia se faça alguma coisa com ele. Mas apesar de tudo, estou satisfeita. Gosto especialmente das peças com as letras e acho que percebi o que correu mal … Apesar de não estarem perfeitas, levo todas as outras já hoje para a Feira Setecentista de Queluz (a propósito, arranjaram-me uma banca deles!), sempre são cinco pratinhos, quatro solitários e três taças altas. Juntando ao resto das peças que me sobraram das outras feiras, acho que vou ter uma banca compostinha! Agora, mais uma vez, é carregar tudo para o carro e depois descarregar tudo na feira, esperando não destilar com esta caloraça… Lá vou!

OLHOS EM BICO!

Estou com os olhos em bico! Hoje estive a vidrar e a pintar as novas peças. É o ultimo dia que tenho para ainda as enfornar e conseguir levá-las a tempo para a Feira Setecentista de Queluz depois de amanhã. Continuo com medo deste processo, não estou segura com os vidrados e muito menos com o branco, que por várias vezes já me saiu mal. O problema é que em cruas parecem sempre bem e só depois é que se vêem os resultados… E isto de estar a pintar coisinhas morosas à pressa não dá; se bem que pequenos defeitos de fabrico até darem graça às peças e terem também a ver com a época. Mas pronto, já estão terminadas! Umas mais inspiradas do que outras, claro, mas há gostos para tudo… – e é o que me vale!

TEMPO CONTADO

Fiz cinco pratinhos e cinco taças altas novas. E ainda mais seis solitários. Este barro é novo, tem chamote mais fina, não sei bem como vai resultar, mas não havia o que eu costumo trabalhar. Por um lado, talvez até seja melhor, pois quero pintar os motivos como se fossem fragmentos de azulejos ou faiança e o grão mais fino facilita. Já tenho esta ideia há muito tempo, para possíveis peças para pôr à venda no Museu do Azulejo. Tenho o tempo contado, se as quiser levar à Feira Setecentista, no fim da próxima semana e ainda falta quase tudo: secar, lixar, cozer, vidrar e pintar, cozer novamente. Acho que vou ter de acelerar o processo nalguma fase…

PEÇAS NOVAS

Resolvi ir à Feira Setecentista de Queluz, no fim deste mês. É verdade que eu tinha dito que não ía, quando a Câmara Municipal de Sintra me convidou para participar; aleguei que as minhas peças tinham sido idealizadas para as feiras medievais e que eu achava que não se adaptavam a este novo tema. Também é verdade que ainda lhes disse que, embora tivesse já umas ideias, não tinha tempo suficiente para fazer peças novas, mas que para o ano contassem comigo. Só que pensei melhor, falei com a Câmara e afinal vou. Vou, «mas só com estas peças que restam, não gasto nem mais um tostão em barro!»

Hoje fui comprar barro. Foram só dois pacotinhos… Fiz peças novas. Tem estado calor e talvez elas sequem. Domingo, no máximo, têm de ser enfornadas. Como não tenho muito tempo para experimentar ideias novas, continuo na mesma linha das que já tenho, mas com uma decoração diferente. Azul e branca, como na época áurea da azulejaria portuguesa do séc. XVIII.

Entretanto, espero não mudar de ideias mais vez nenhuma.