PADRONAGEM MODERNISTA

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Dos 800 azulejos que tive de executar para o painel do Júlio Pomar e da Alice Jorge,  na Av. Infante Santo,  em Lisboa, cerca de 650  unidades foram para colmatar as lacunas existentes na padronagem que forma todo o fundo do painel e sobre a qual aparecem, então, as figuras soltas, representativas da vida quotidiana da Lisboa de então.

A padronagem existente é composta por azulejos de tipologias diferentes, que se repetem e conjugam formando módulos distintos e o número de azulejos a replicar variou consoante cada tipologia, de acordo com as necessidades dos originais em falta ou em avançado mau estado de conservação.

O maior problema – como sempre – foi o da afinação das cores; nenhuma delas era lisa e directa, mas sim uma mistura de tons dada pela sobreposição de vidrados, técnica muito querida pelos ceramistas modernistas, mas que eu pouco dominava, habituada como estava aos óxidos e tintas de alto fogo comuns da azularia tradicional dos séculos anteriores.

Começou assim a saga das experiências de vidrados; primeiro em busca dos tons lisos, opacos e transparentes; depois sobrepondo uns com os outros, opacos por baixo e transparentes por cima e vice-versa, que os resultados são diferentes. E ainda a recriação do mesmo efeito esponjado que os vidrados originais tinham; com esponja, ora bem, mas com qual esponja, mais miúdinha, menos miúdinha, e o efeito, mais aberto ou mais fechado? E fazê-lo vezes sem conta, sempre igual?

Finalmente e depois de tempo a mais do que o que eu tinha previsto, consegui que me aprovassem as cores todas – diga-se em abono da verdade, que os próprios originais variavam muitíssimo entre si e estávamos a ser mais papistas do que o papa. E depois de abrir as estampilhas necessárias a cada tipologia, pude por fim começar a produção em série dos azulejos, tentando executar manualmente os mesmos gestos e procedimentos sempre da mesma forma, 650 vezes, sobrepondo cores sobre cores, até estarem todos prontos para irem para a parede.

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ARCO DO ALHAMBRA

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Entreguei já todas as réplicas dos azulejos relevados que me encomendaram para o Arco do Alhambra – 10 “Parras”, 10 “Folhas de Videira”e 15 “Panóplias Militares” – que irão colmatar lacunas e substituir azulejos em franco mau estado de conservação existentes na superfície parietal.

A encomenda foi-me feita no início de Dezembro e ainda assim consegui fazê-la em tempo record, tendo em conta que para cada exemplar teve de ser modelado um protótipo inicial, fazer-se um molde e tirar-se mais do que o número de azulejos precisos; isto durante estes dois últimos meses em que a humidade e o frio aqui na oficina estiveram nos seus limites máximos e toda a secagem foi bastante complicada.

Depois foram as experiências de cor, inúmeros testes de vidrados base e tintas de alto fogo, receitas, referências e fornadas, que se foram acumulando aqui na bancada e que agora ainda tenho de inventariar. E a seguir vidrar e pintar cada um deles, com calma para o resultado ficar bem.

Anteontem entreguei as réplicas ao meu colega Ivo, que tem estado a fazer o restauro de todo o conjunto azulejar e que as vai assentar na parede – uma semana antes do prazo que eu tinha previsto, pois assim mo pediram de repente. Não fiquei totalmente segura quanto aos verdes, estava ainda a tirar conclusões quanto ao tom, à consistência da tinta e à temperatura de cozedura; ainda me faltou mais um passo, que já não tive tempo de o fazer. De qualquer modo os verdes originais variam bastante de tonalidades; basta pensar que uma produção daquela quantidade era cozida em fornos a lenha e sujeita a diferentes temperaturas entre si.

Estou curiosa para ver o resultado.

PANÓPLIAS MILITARES

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Ontem deixei vidrados e arranjados os azulejos das Panóplias Militares, os quinze que faltavam para acabar o conjunto de réplicas que tenho de fazer para a Pena. Hoje percebi que subestimei o tempo que tinha previsto para a pintura e demorei mais do que estava à espera com cada um deles; queria a todo o custo fazer uma cozedura ainda esta noite, mas deparei-me com muitos pormenores e tintas e pincéis diferentes, que não tinha ainda reparado com tanta atenção.

Com alguma calma, resolvi que pintava o que conseguisse; no limite, a fornada podia fazer-se amanhã. Ainda assim, terminei os dezasseis que precisava – um a mais e ainda é pouco, que nestas coisas não vá o diabo tecê-las.

De qualquer modo acho-os feiosos e não me parece que, sem necessidade, os vá voltar a fazer outra vez.

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Recta final

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Entrei na recta final da manufactura das réplicas para o Arco do Alhambra, no Palácio da Pena. Depois de fazer inúmeras experiências de cores de vidrados e tintas, tive de me forçar a decidir por algumas delas e arriscar-me a vidrar e pintar alguns azulejos, não fosse ficar aqui ad aeternum em busca de um tom que agora é um bocadinho mais verde limão e depois leva mais 0,3% de M702 e afinal também ainda mais um grama de manganês; mas diluído em 15ml e não em 30, como tinha feito antes – felizmente o prazo de entrega foi antecipado e de repente fiquei com cerca de uma semana a menos do que aquilo que eu estava a contar.

Estive então a vidrar as chacotas das parras e das videiras. Aparentemente este processo não é assim tão linear como aquele a que eu estou habituada; uma vez que não se tratam de azulejos lisos, tive alguma dificuldade em perceber qual a espessura ideal do vidrado a aplicar – se mais fino, comportando-se melhor nas zonas relevadas mas ficando careca sobre o fundo; se mais espesso, cobrindo perfeitamente o fundo, mas com o risco de ficar com demasiada camada na zona do relevo, o que poderá traduzir-se em abertura de gretas ou fendilhamento das cores aquando da cozedura.

Agora falta a pintura. Amanhã, se tudo correr bem, ficam os 20 prontos a irem para o forno. E depois só faltam as Panóplias Militares – que têm cores completamente diferentes destes.

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RELEVO

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Dei por terminada a modelação do protótipo do azulejo relevado com a parra e o cacho de uvas.

É difícil parar; há sempre mais um retoquezinho a fazer e mais um pormenor a melhorar e mais qualquer coisa que ainda não está bem e o tornilho gira no seu eixo, sempre às voltas sobre si mesmo; infinitamente para a esquerda e para a direita, de modo a podermos trabalhar todos os ângulos de todos os ângulos, sem sairmos de mesmo lugar. Às vezes penso que nalguma altura deveria aparecer alguém aqui que me dissesse pára, pá, que isso já está mais do que bom!, mas não aparece ninguém e assim continuo a girar o tornilho de um lado para o outro, à procura de algo mais para fazer; os óculos  na ponta do nariz e uma bolinha de barro pequenina na mão.

Dei por terminada a modelação deste protótipo; lá me lembrei que ainda tenho mais outros dois para começar. E pensando que as dez réplicas que preciso fazer vão estar misturadas entre não sei quantos azulejos originais a não sei quantos metros de altura, se calhar não deverei estar assim tão preocupada com os detalhes do relevo – assim consiga as cores das tintas e dos vidrados.

CHÃO

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Estão prontos os azulejos para o chão da Capela Manuelina, em Sintra. Por mais experiência que tenha, há sempre algumas questões de trabalho que me continuam a escapar e que não contemplo em orçamento – nunca tinha feito chacotas tão grossas, 15x15x2cm e desta vez não me lembrei que poderia vir a ter problemas para as enfornar na cozedura de vidrados; as gazetes existentes no mercado são feitas para chacotas muito mais finas, para 1cm de espessura no máximo. Como sou engenhocas, acabei por conseguir contornar o problema, mas depois percebi que só conseguia enfornar 24 azulejos de cada vez, metade daquilo que tinha previsto inicialmente. Enfim; esta para a próxima não me vou esquecer. (E acabo de me lembrar agora mesmo, tarde demais, que teria sido giro se em vez de gazetes tivesse usado trempes para empilhar os azulejos dentro do forno – aliás, não era assim que se enfornava no séc. XVI? )

Hoje fui à Pena entregar todas as réplicas que me pediram – estes azulejos para o chão, os relevados com a estrela para o altar e ainda as cantoneiras verdes. Ficaram bem; vim de lá satisfeita, com um sorriso nos lábios e o Sol a bater-me na cara ao longo da IC19.

ESCACILHADAS E ENCHACOTADAS

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Estão terminados os azulejos que fiz para uma capela Manuelina, em Sintra e que irão colmatar cerca de vinte lacunas integrais existentes no altar. Pediram-me que entregasse as réplicas apenas em chacota, uma vez que os originais do séc XVI se encontram com inúmeras falhas de vidrado e também com zonas em que este se encontra já muito gasto – e pareceu-me correcto.  E cá estão elas, devidamente escacilhadas e enchacotadas.

ESTRELA

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Estive a modelar e a moldar um protótipo para executar apenas 22 réplicas deste azulejo maravilhoso do séc. XVI, com uma estrela relevada e 8,6×8,6cm e 2cm de espessura – tão simples e tão lindo! Tenho muita sorte por peças destas me passarem pelas mãos e mais ainda por alguém estar disposto a pagar-me para eu ter este privilégio e fazer o que gosto. Foram-me pedidas apenas as chacotas, uma vez que os originais se encontram com inúmeras falhas de vidrado, as quais possivelmente irão apenas ser consolidadas, mas não sei se resisto a não vidrar e pintar uma delas.

SÉC. XVI

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Estou bastante satisfeita: a semana passada foi-me adjudicado um trabalho de manufactura de réplicas de azulejos – lindos! – do séc. XVI, para uma Capela Manuelina; o que resta de um antigo convento em Sintra. Como sempre, o tempo não é muito e pedem-me urgência na entrega das réplicas; mas contra factos, não há argumentos: os azulejos maiores, 60 unidades de 15x15cm, têm 2cm de espessura, o que até não é muito se pensarmos que as cantoneiras, de 25cm de comprimento, têm 3. De modo que, só na secagem, prevejo umas três semanas pelo menos e isto esperando que o tempo se mantenha ameno. Para já, grande azáfama aqui na oficina, na produção de chacotas – as mais grossas que já fiz.