LEVANTAMENTO DE AZULEJOS

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Na semana passada estive ocupada com um pequeno trabalho de levantamento dos silhares de azulejos das paredes Norte, Este e Sul da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa. Os silhares encontravam-se em mau estado de conservação, com muitos vestígios de intervenções anteriores: inúmeros azulejos não pertencentes nem àquele conjunto nem àquela época; superfícies de junta fechadas com cimento, azulejos assentes em cimento, claro está e ainda inúmeras falhas de vidrado e fracturas simples e múltiplas. Para agravar a situação, a forte presença de humidade nas paredes, que se faz sentir em toda a sala (não nos podemos esquecer que a antiga Ribeira de Arroios passa ali por baixo, a poucos metros de profundidade) e visível nas argamassas de assentamento principalmente da parede Este, que se encontravam encharcadas, tal como o corpo cerâmico dos azulejos aí existentes.

De qualquer modo, a intervenção pedida – o levantamento dos azulejos, originais do séc. XVIII – está concluída.

Os azulejos foram retirados da parede, os seus tardozes foram limpos superficialmente, na medida do possível – muitos apresentavam argamassas demasiado carbonatadas ou argamassas à base de cimento, o que em ambos os casos significa quase o mesmo; ou seja, um elevado grau de dureza -, as fracturas foram coladas provisoriamente, apenas para que os fragmentos não se percam e por fim os azulejos foram acondicionados em caixas de plástico até que a sacristia sofra todas as obras que precisa e se decida o que fazer com eles. Mas para já, estão a salvo.

ESCACILHADO

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Hoje resolvi fazer uma pausa na minha nova produção azulejar e pegar numas chacotas manuais, que fiz há algum tempo – há mais de dois anos, para ser precisa. Tratava-se de manufacturar umas réplicas, de 14x14cm e com cerca de 1,3cm de espessura, que viessem a colmatar as lacunas existentes no revestimento azulejar do séc. XVII, da Igreja da Ota; tarefa integrada na intervenção de conservação e restauro dos azulejos, que começámos nessa altura e que entretanto ficou parada. E as chacotas ali ficaram, empilhadas, a secar e a ocupar espaço na prateleira. Até hoje. Estive agora mesmo a escacilhá-las – tal como as originais – e finalmente estão prontas para enfornar. Sim, porque secas, já estavam.

SACRISTIA

Fui contactada para ir fazer uma intervenção de emergência nos azulejos da sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa – quer na zona da secretaria, quer na salinha dos paramentos.

Segundo consta, o culto a Nossa Senhora da Saúde começou em inícios do séc. XVI, época da grande peste. O povo, ao ver que todos os recursos humanos falhavam, recorreu a Nossa Senhora, organizando procissões de penitência em sua honra. Como o número de mortes foi diminuindo consideravelmente, passou a fazer-se uma grande procissão anual de agradecimento à Virgem Maria, a qual passou a ter o título de Nossa Senhora da Saúde.

Em meados dos anos 80, já no séc. XX, a Câmara Municipal de Lisboa mandou construir o Centro Comercial da Mouraria; o que estaria muito bem, não fosse a ideia brilhante de o colar, paredes meias, com esta igreja, mais precisamente com a zona da sacristia. Obviamente que essa construção colocou e continua a colocar em risco o estado de conservação do edifício, quer a nível estrutural quer a nível da incompatibilidade dos materiais. Neste momento, uma das paredes – a tal que precisa de intervenção de emergência – encontra-se escorada e em risco de colapso (e o tecto em madeira também não me parece que se safe) e é claro que os azulejos lá existentes, datados do séc. XVIII, precisam de ser levantados e, para já, acondicionados numa caixa.

Mais uma vez pude constatar o estado a que chegou o nosso património edificado, vítima de incúria, ignorância e asneirada consecutiva ao longo de vários anos, por parte de quem deveria ter conhecimentos, bom senso e capacidade de bater o pé e dizer não! – mesmo que outros interesses mais altos se levantem.

Neste caso, nem a Nossa Senhora lhes valeu.

31 DE DEZEMBRO DE 2010

31 de Dezembro de 2010.  Não posso dizer que este ano tenha sido dos mais famosos: três ou quatro trabalhitos pequenos no primeiro trimestre e mais dois ou três agora no final, o que deu mais ou menos uma média de seis meses de trabalho efectivo e outros seis a puxar pela cabeça a ver como é que me arranjava para ir pagando as despesas correntes lá de casa e aqui da oficina também. Mas nem tudo foi mau: a um tal de Jorge Inácio, dono da Mdf-Cr, uma empresa de restauro que não recomendo a ninguém, para quem trabalhei em Março, numa igreja em Cascais e cujo pagamento ainda continuo à espera, devo o facto de ter iniciado a minha produção cerâmica antes de optar por ir trabalhar para o Pingo Doce, já em desespero de causa e fartinha de certo tipo de restauradores, supostamente sérios, que para aí andam. Obrigada, Jorge! E quando puderes paga-me lá o que me deves, caramba; já lá vão nove meses e o dinheiro faz-me falta. Ainda não vivo da cerâmica, claro, mas gosto do processo criativo e tenho tido alguns elogios, o que me deixa sempre um bocado babada. E enfim, tive experiências novas; fui às feiras medievais; criei este blog (que tão bem me faz à sanidade mental durante as muitas horas que trabalho sózinha) e através dele, conheci pessoas novas e até vou entrar num documentário europeu.

Não posso dizer que este ano tenha sido propriamente bom. Mas também não foi mau de todo… Enfim, não foi bom, nem mau; antes pelo contrário.

PAINEL 16

Continuo a fazer as réplicas dos azulejos para a Igreja da Misericórdia, em Tavira. Fiquei de entregá-las todas no dia 3 de Janeiro, mas com Natal, fim-de-ano e férias escolares da minha filha à mistura, já avisei que não vou conseguir. Das dezoito do painel 11, bastante moroso, ficam por fazer ainda sete e do painel 17, que nem sequer cheguei a montar no chão, faltam as sete previstas. De qualquer modo, vou conseguir enviar para baixo quatro painéis concluídos, o que vai permitir à In Situ ter material suficiente para trabalhar durante a próxima semana. E isto quer dizer que tenho de ir enfornar já…

ENGANO

Quando a In Situ me confirmou que contava comigo para fazer mais umas sessenta réplicas para o conjunto azulejar da Igreja da Misericórdia, em Tavira, tratei de ir logo toda contente comprar cerca de setenta chacotas industriais, iguais às outras que eu já tinha utilizado há um ano, na primeira fase da pintura; ou seja,  com 14×14 cm de largura e 0,8 cm de espessura. Lá vim carregada para aqui com uma caixa e meia de chacotas, que era o que perfazia as tais setenta que eu tinha pedido. A caixa inteira entretanto já se acabou e hoje, ao abrir a meia caixa percebi imediatamente o erro: as chacotas têm 15×15 cm! Nem era preciso confirmar, que eu nestas coisas tenho olho clínico e normalmente erro por poucos milímetros. Pelo sim, pelo não, resolvi medir uma e, raios partam!, lá tenho de ir trocar isto! Logo agora que eu já ía toda embalada para as vidrar…

RESULTADOS

Hoje vi os resultados da fornada que fiz já com as réplicas dos azulejos pertencentes ao painel nº1 da Igreja da Misericórdia. O vidrado branco, como sempre, é o que dá mais nas vistas, mas dentro do conjunto, integram-se bem, até porque esta zona vai estar colocada num local bastante acima do nível dos olhos. Tenho este painel quase pronto, só me faltam os marmoreados, que, por terem muito branco e aguadas azuis muito claras, ainda me vão dar algum trabalhinho… E vou começar a montar os painéis 4 e 5, os próximos a intervir, para ir já olhando para eles e ver o que é que me espera.

EXPERIÊNCIAS DE CÔR

Fiz algumas experiências de côr para pintar as réplicas da Igreja da Misericórdia em Tavira. O azul escuro, não sei bem porquê, ultimamente não fica tão escuro como eu quero, agora acrescentei-lhe um pouco de óxido da cobalto e vou baixar um pouco a temperatura de cozedura. E depois, há sempre a questão do vidrado branco, que, sendo sempre branco, pode ser também rosado, azulado ou acinzentado… É uma questão de fazer várias experiências de uma vez só, para rentabilizar as fornadas e a partir daí, por comparação, ir aperfeiçoando os tons. Enfim, um processo moroso, que tem de ser sempre feito. De qualquer modo, acho que já posso arriscar em pintar a maior parte dos azulejos para este painel; tirando os marmoreados, penso que todos os outros já se irão integrar bem no conjunto.

PICOTADOS

Acabei de tirar todos os desenhos para fazer as réplicas para a Igreja da Misericórdia, em Tavira. Já cá tenho sete ou oito painéis, mas para já concentro-me no nº1; é melhor ir por partes e com algum método, senão às tantas já não sei a quantas ando e acabo por fazer azulejos repetidos ou pior, acabam por me escapar alguns. A Rita, da In Situ, que é quem está à frente do trabalho lá no Algarve, é bastante organizadinha e, a meu pedido, enviou-me toda a documentação que eu preciso, nomeadamente listagem de referências de réplicas por cada painel, fotografias e os azulejos em torno de cada um que tem de ser feito, para continuidade de linhas e manchas cromáticas.  E agora vou picotar os desenhos, que é sempre uma coisa que me deixa os olhos em bico…

RÉPLICAS PARA A IN SITU

Fui contactada pela In Situ para fazer as réplicas dos azulejos dos painéis da Igreja da Misericórdia, em Tavira, no seguimento de outras que eu já lhes tinha feito há mais de um ano. São uma série de painéis e este é o número 1. Para já, tenho de fazer os desenhos que faltam e experiências de cor. Só para este painel, são cerca de 26 réplicas…

Novidade: meti algumas das minhas peças à venda numa loja na Rua de Belém, a Original, mesmo ao lado dos Pastéis. À consignação, claro… Os preços ficam mais caros do que eu venderia numa feira, mas a verdade é que eu assim não tenho nenhum encargo com a coisa e aqui na oficina, paradas, é que não rendem nada. De modo que estou contente e a ver vamos.