BALAÚSTRES

P1120650

 

Há cerca de duas ou três semanas recusei uma encomenda que me fizeram para manufacturar 2100 balaústres em terracota, para uma casa particular. Nunca fiz um balaústre, mas não foi esse o problema, até faria uns quantos com todo o gosto; mas 2100 unidades não só ultrapassa toda a logística possível aqui da oficina, como também a minha vontade – quero ter trabalho, claro; mas não me apetece ficar a fazer balaústres durante meses e meses seguidos.

A semana passada, fui contactada para ir ver um trabalho num edifício em Lisboa, precisavam de alguém que fizesse uma pequena intervenção de restauro nos azulejos. Fui lá ver o que era – afinal os azulejos estão em óptimo estado de conservação, apenas umas falhitas de vidrado a precisarem de ser integradas e, curiosamente, uma série de balaústres no telhado, a precisarem de limpeza, consolidações de vidrados, preenchimentos e integração cromática.

Comecei ontem a limpá-los. São lindos.

O SR. CASTRO

O Sr. Castro tem sido uma presença constante e atenta desde o início da intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões – o Sr. Castro é motorista de um dos carros pretos e sempre brilhantes que ali costumam estar estacionados e passa muito tempo à espera de ter de ir a algum lado. O Sr. Castro acompanhou todas as fases do trabalho ao longo destes seis meses: o levantamento dos azulejos; a montagem dos painéis no chão; as colagens; a dessalinização; o reassentamento nas paredes; os preenchimentos e agora, a integração cromática. O Sr. Castro é conversador e é também um amante e um curioso  destas coisas; ao que parece, percebe de materiais e gosta, ele próprio, de meter a mão na massa e assim sendo, vai falando das «epoxes» e da cal, vai tirando apontamentos e vai dando a sua opinião. O Sr. Castro é muito simpático e prestável; foi graças a ele que fomos visitar a Sala dos Gessos e foi ele que hoje já nos veio dizer que quer organizar um almoço de despedida para a semana que vem, agora que estamos a acabar a obra. O Sr. Castro é um castiço – obrigada por tudo, Sr. Castro, vamos ter saudades suas.

PAINEL A PAINEL

Depois de todos termos visto o boletim meteorológico ontem à noite, decidimos que hoje ninguém vinha para o Museu Militar; supostamente ia chover o dia todo – o que afinal acabou por não acontecer. Nestes últimos dias temos andado a trabalhar e a parar constantemente, o que, vendo bem as coisas, acaba por interferir não só no ritmo de trabalho, como no material que se desperdiça e principalmente, naquilo que se faz e que se arrisca a ter de fazer novamente.

De qualquer modo, a intervenção avança dentro do previsto; aos poucos as inúmeras manchas brancas dos preenchimentos vão desaparecendo e a integração cromática vai sendo dada por terminada – azulejo a azulejo, painel a painel, ala por ala. Já percebi que o prazo que eu tinha estipulado para terminar o trabalho não vai ser cumprido, mas, se o tempo ajudar, espero dá-lo por concluído em meados de Maio.

PRIMAVERA

  

Primavera em Lisboa.

Finalmente temos uma estação como deve ser, à maneira antiga; como aquelas Primaveras que eu me lembro de quando era pequena – uns dias estava sol, outros chovia, ou então estava frio depois de uns dias de calor e assim se andava durante três meses, enquanto o clima fazia a sua transição do Inverno para o Verão seguinte. Tudo bem compartimentado em trimestres muito definidos.

Continuamos a nossa intervenção nos painéis de azulejos do Pátio dos Canhões. Com esta Primavera típica, a coisa vai um pouco mais devagar do que eu gostaria: ou está uma caloraça e não se consegue trabalhar ao sol; ou passa-se para a sombra e faz imenso frio ou está a chover e os azulejos ficam molhados e a integração cromática, com pigmentos aglutinados em cola não se conseguem fazer. Como seria de prever, já houve uma ou duas baixas na equipa e começo a pensar que deveria fazer a manutenção da nossa caixa de primeiros socorros com alguns analgésicos e anti-piréticos.

EQUIPA REFORÇADA

    

 

Não fosse a chuva de hoje, que nos obrigou a interromper o dia e estaríamos sete – contando comigo – a trabalhar nos painéis do Pátio dos Canhões, no Museu Militar. A equipa foi reforçada para esta etapa final que, se correr bem, tenciono que acabe daqui a um mês. Há muito trabalho pela frente e bastante moroso: entre inferiores e superiores, faltam preencher ainda alguns painéis e sobretudo, fazer a integração cromática em quase todos. De momento a equipa está dividida equitativamente entre tarefas – eu vou dando uma maõzinha onde for preciso e rectificando pequenos pormenores que foram deixados para trás -, mas para a semana mais duas pessoas transitarão para a pintura. E penso que assim todas as frentes estarão cobertas – até surgir uma estratégia melhor.

ÚLTIMA ETAPA

Entrámos ontem na última etapa da intervenção de conservação e restauro do conjunto azulejar do Pátio dos Canhões, no Museu Militar – a integração pictórica. São muitos os preenchimentos a integrar; o trabalho é moroso, mas já deu para reparar que, com apenas uma tonalização se devolve a integridade original aos azulejos e os painéis surgem restaurados. Ainda não há previsões para terminar a obra, mas com alguma calma,  método e reforço da equipa, espero conseguir que tudo esteja feito até finais de Abril – no fim desta semana já se deve ter uma estimativa de quanto mais tempo ainda iremos precisar.

EM STAND BY…

Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.

No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.

No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.

RESTAURADORES/ENGENHEIROS!

Quase a completar quatro meses de intervenção no conjunto azulejar do Pátio dos Canhões, no Museu Militar, a obra continua a bom ritmo. Depois de uma breve paragem de dois ou três dias de temporal, em que toda a equipa foi fazer reforço lá no 88 (onde a água, por acaso, também entra), tivemos de puxar pela cabeça para conseguirmos continuar a trabalhar, agora que o inverno se avizinha e seguramente, mais dias de chuva também – já muito bom foi o verão ter-se prolongado até fins de Outubro. Estamos a entrar na recta final do trabalho; a integração cromática arrancou agora e não dá para parar a obra. Felizmente que a minha equipa é muito expedita e, enquanto eu aqui na oficina pesquisava na net alguma solução de tendas rápidas ou toldos protectores, os meus colegas articularam-se entre comprar manga plástica e construir uma estrutura em madeira, o que parece ter solucionado o problema e a um custo muito mais económico. Gente multi-facetada, é o que é. Mais uma vez, posso afirmar que tenho muita sorte…

BOLINHOS

Tenho comido um bolinho quase todos os dias, sempre que saio do 88. Podia ser pior e dar-me para beber, mas ainda não; por enquanto fico-me pelos doces. O assentamento dos painéis está todo pronto, exceptuando, claro, aqueles casos em que ainda não se decidiu o que fazer com as paredes, se são em alvenaria ou em Pladur ou em Aquapanel ou ainda se eram de uma forma, mas agora vão ser de outra. Há também os casos em que as paredes prontas têm de recuar vinte centímetros e aqueles em que elas já estavam acabadas mas que afinal têm de levar duas ou três tomadas – porque ali vai ser uma cozinha – e se voltam a abrir roços e levantam-se outra vez alguns azulejos para se passarem os fios eléctricos e também aqueles em que se chega à conclusão que naquele sítio, afinal, se pode abdicar da parede; mas assim, aqueles painéis já não ficam bem ali e o melhor será passá-los para outro lado, ou rodá-los para a horizontal, o que resulta muito melhor. A poeirada continua em alta e a confusão de gente também, mas no meio disto, continuamos a fazer preenchimentos e integração cromática onde podemos e a dar por terminados uma série de painéis, os quais vão sendo encontrados cobertos de entulho ou materiais vários das outras equipas, apesar dos vários alertas que já fizemos para os protegerem e nos quais não tencionamos voltar a tocar. Nesta altura estamos todos cansados e fartos de ali estar; já só queremos despachar o trabalho o mais rápido possível e sair dali para fora. Resta-nos o «está a ficar bom!» do engenheiro chefe, ao qual ainda acrescentou se eu lhe conseguia baixar o preço unitário das réplicas.

RESTAURADO!

Primeiro painel de azulejos acabado no 88! (Bom, bom; ainda falta proteger a integração cromática com cera microcristalina, mas amanhã de manhã, logo cedo pela fresquinha, vou aplicá-la sobre os preenchimentos e aí sim; pode-se proteger todo o painel com cartão antes que venham os barradores, ou os electricistas, ou os carpinteiros, ou os pedreiros, ou os pintores e nos sujem aquilo tudo de novo e a gente tenha do limpá-lo aí pela 4ª vez!…) E para ali não volto!