INSTITUTO DE MEDICINA TROPICAL

Começou hoje a intervenção de emergência no painel de azulejos da autoria de Lino António, no Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa. Quando me ligaram, no fim da semana passada, a perguntar qual era a minha disponibilidade para iniciar o trabalho, respondi «imediata!», apesar de andar a distribuir o meu tempo entre o 88, o Museu Militar e a oficina; ou seja, não tinha disponibilidade nenhuma. Felizmente, tenho um colega chamado Loubet, que também faz parte da equipa maravilha e que tem estado de reserva, desde que chegou do Pinhão, pronto para entrar na fase da integração cromática lá no Pátio dos Canhões, a qual eu tencionava  começar muito em breve – fase esta que agora vai ter de ser adiada mais umas duas semanas, uma vez que é ele quem vai tratar deste painel.

BALANÇO

Apesar de ser domingo, só hoje tive tempo para fazer o balanço da semana de trabalho que passou lá no 88. Aproveitando o facto de o Loubet e o Ivo estarem no Pinhão, esta semana serviu sobretudo para tratar e organizar tudo o que já estava levantado, antes de   começarem a chegar mais azulejos e instalar-se a confusão total: limpeza de argamassas, limpeza de vidrados, limpeza de fracturas, colagens de fragmentos e montagem final de painéis no chão, com reorganização dos azulejos em falta, reorganização de azulejos de cercadura e rodapé e substituição de casos em muito mau estado de conservação por outros idênticos retirados dos painéis que não vão voltar para a parede. Para não falar na tarefa mais morosa da semana, que nesta fase já vai também bastante adiantada – remoção de tintas sobre as superfícies vidradas, tanto em painéis ainda nas paredes do 3º piso, como em azulejos soltos; com aplicação de duas ou mais camadas de decapante de forte cheiro.

Resumindo: neste momento temos cerca de 15 painéis completamente prontos e fechados para serem encaixotados e todas as tarefas mais complexas e morosas praticamente terminadas. Fazendo o balanço ao fim de dez dias de trabalho, não me posso queixar; a obra está a correr bem e as tarefas mais complicadas estão quase despachadas. Há espírito de equipa e toda a gente faz o seu melhor. Mais uma vez, estão todos de parabéns!

5º PISO

Já despachei o levantamento de todos os azulejos do 5º piso e também de dois painéis do 4º. Estou com problemas com as fiadas de rodapé, os azulejos estão metidos quase dois centímetros para dentro do soalho e muitos deles encontram-se já fracturados ainda na parede, devido à dilatação da madeira, que está mesmo encostada às superfícies vidradas, o que torna a remoção dos azulejos bastante mais complicada e morosa. O empreiteiro prometeu-me que lá iria alguém com uma rectificadora cortar um pouco do soalho, de modo a aliviar a superfície do rodapé, mas há dois dias que espero e nada. Hoje tive a bela surpresa de encontrar alguns azulejos colocados com cimento – já estava a estranhar! – mas parece-me que estão só limitados àquela zona e pertencem a dois painéis que não irão voltar para a parede, o que é bom. No entanto, vou passar para a frente e deixá-los para o Loubet e para o Ivo… Eheheh! Eles gostam!

Nº 88

Após mais de dois anos de espera depois da entrega de um orçamento complexo, pelo qual nem sequer recebi acuso recepção, obrigado; fui há pouco tempo contactada por uma empresa que vai pegar em toda a obra de remodelação de um prédio na Baixa Pombalina. Todo o orçamento relativo a trabalhos de conservação e restauro dos azulejos existentes em quatro pisos tem de ser revisto para se começar a obra em breve. Se o nosso orçamento for adjudicado, supostamente eu, o Loubet e o Ivo, o núcleo duro aqui da oficina, vai ter de levantar das paredes cerca de seis mil e tal azulejos, para posterior tratamento e reassentamento. Como eles agora estão no Pinhão, a 300 Km daqui, com um trabalho que ainda vai demorar mais dois ou três meses, isto vai ter de haver aqui muita ginástica e jogo de cintura. E ainda vamos ter de arranjar uma equipa, claro… Bom, nada que não tenhamos já bastante experiência; não é a primeira vez que somos responsáveis por trabalhos grandes e também já tivemos de desmultiplicar-nos antes, com duas obras ao mesmo tempo. E com organização, a coisa vai.

CAPELA DO SENHOR DOS AFLITOS

Em 2002 eu e o Loubet fomos contactados pela delegação do IGESPAR de Évora para irmos fazer um trabalho na Capela do Senhor dos Aflitos, dentro do castelo de Campo Maior. Tratava-se de levantar da parede sete ou oito silhares de azulejos, de origem desconhecida e completamente trocados. Depois do levantamento, trouxemos os azulejos aqui para a oficina, removemos as argamassas dos tardozes, consolidámos falhas de vidrado e colámos fracturas e depois, com grande paciência, organizámos os puzzles, ainda conseguindo formar uma série de desenhos, apesar de terem ficado soltos uma série de azulejos com caras de anjos, concheados e bases de colunas, que não entravam em lado nenhum. O que nos tinha sido proposto, nessa fase, estava terminado e guardámos os azulejos em caixas devidamente identificadas por painéis e motivos soltos.

Entretanto, a pessoa que nos tinha contactado saiu do IGESPAR e na altura de entregar os azulejos, ninguém sabia bem com quem se deveria tratar do assunto e depois foi havendo várias mudanças no IGESPAR e nas Delegações Regionais, pelo que os azulejos aqui foram ficando, encaixotados e bem guardados num cantinho. Até que hoje, finalmente, veio alguém de Évora cá buscá-los. Ao que parece e, se tudo correr bem, porque não há dinheiro para nada e muito menos na cultura, a ideia é montá-los em suporte móvel de acrílico e talvez voltem para a capela de onde saíram. Espero bem que sim; a ver vamos.

FAXINA

Para encerrar de vez com o ano passado e antes de pensar o que é que vou fazer a partir de agora, hoje, para variar, decidi ser uma mulher faxinante: depois de ver que as réplicas que fiz saíram todas bem do forno, encaixotei todos os painéis de azulejos que ainda estavam por aqui estendidos no chão; apanhei todos os papelinhos com marcações que eu tinha feito para me orientar; aspirei o taipal e a bancada de trabalho; varri o chão todo da oficina , incluindo escritório e casa-de-banho; limpei a máquina de corte de azulejos (super-Practyl) e deitei fora toda aquela pequena tralha que não serve para nada, antes que o Loubet a visse. Antes de me ir embora ainda vou lavar o chão, para quando voltar na segunda-feira ganhar inspiração para fazer alguma coisa ao ver isto tudo limpinho.

INÉDITO!

Hoje, quando estava a montar no chão o painel 16 para fazer as réplicas necessárias, tive esta surpresa: azulejos verdes e brancos! Tratei de ir logo abrir o documento que a Rita me enviou com as fotografias deste painel na parede e então, é mesmo verdade e inédito, pelo menos para mim; no meio do conjunto azul e branco, existem uns quantos verdes! Nunca tal tinha visto. Não são azulejos originais, claro; apesar de manuais e muito bem feitas, a pasta destas chacotas é bastante diferente e vê-se a olho nu. Agora, quando é que foram feitos e porque é que são a verde e branco, é que não consigo explicar… O Loubet, que entretanto passou por cá de fugida e tratou logo de perguntar «que é isto!?», avançou com a teoria da ética do restauro, ou seja, pode-se e deve-se diferenciar as réplicas dos originais. E ando eu aqui sempre aflita a tentar aproximar os tons o mais possível…

 

TERMINADO!

Está terminado! Acabámos ontem o trabalho de conservação e restauro dos painéis de azulejos da Igreja da Lousã. Ainda houve uma pequena confusão com o padre, que nos acusou de termos enchido a igreja de pó (o que é verdade) e eu, ao contrário do que ele pensa, ainda estive para lhe dizer que estas coisas não se fazem por obra e graça do Espírito Santo, o que em muito nos facilitaria o trabalho (aliás, nesse caso, nem os azulejos estariam a cair da parede…). Mas enfim, lá me controlei e deixei o Loubet explicar-lhe tudo muito pacientemente com a sua calma habitual… No final acabou tudo em bem e ele ficou satisfeito com o trabalho. E agora, venham os €€€, que muita falta fazem!