CHAMINÉ

Ontem fiz uma fornada de alta temperatura para uma colega que me pediu para cá vir cozer uma série de peças de porcelana. Como aqui na oficina temos um contador de electricidade bi-horário, programei o forno para arrancar às 22h, mas como a fornada que ela pretendia demorava cerca de dez horas até chegar aos 1250ºC, esta manhã, quando cheguei, por volta das nove e meia, já ele estava em fase de arrefecimento, mas ainda a 1225ºC. Abri a chaminé e por uns momentos deixei-me ficar ali por perto, a aproveitar o quentinho enquanto pensava o que é que poderia fazer hoje.

HUMIDADE

Hoje a cidade acordou coberta de nevoeiro. Aqui em Marvila está como eu gosto: não se vê nada para o outro lado da rua. A escuridão, aqui na oficina, é enorme e a humidade nem se fala, lá tive de acender o catalítico para ver se não gelava. Voltei agora de Mem Martins e, curiosamente – o tal microclima -, em Sintra o céu estava azul e de certeza que a temperatura era mais alta, pois cheguei a ter calor com o meu cachecol ao pescoço. Depois, à vinda para Lisboa, a IC19 foi entrando pelo nevoeiro, que se adensou cada vez mais à medida que eu me aproximava do rio. Faz frio lá fora e enquanto bebo o meu cházinho da tarde, antes de ir descarregar o carro, reparo que as janelas estão completamente molhadas.

CAPELA DO SENHOR DOS AFLITOS

Em 2002 eu e o Loubet fomos contactados pela delegação do IGESPAR de Évora para irmos fazer um trabalho na Capela do Senhor dos Aflitos, dentro do castelo de Campo Maior. Tratava-se de levantar da parede sete ou oito silhares de azulejos, de origem desconhecida e completamente trocados. Depois do levantamento, trouxemos os azulejos aqui para a oficina, removemos as argamassas dos tardozes, consolidámos falhas de vidrado e colámos fracturas e depois, com grande paciência, organizámos os puzzles, ainda conseguindo formar uma série de desenhos, apesar de terem ficado soltos uma série de azulejos com caras de anjos, concheados e bases de colunas, que não entravam em lado nenhum. O que nos tinha sido proposto, nessa fase, estava terminado e guardámos os azulejos em caixas devidamente identificadas por painéis e motivos soltos.

Entretanto, a pessoa que nos tinha contactado saiu do IGESPAR e na altura de entregar os azulejos, ninguém sabia bem com quem se deveria tratar do assunto e depois foi havendo várias mudanças no IGESPAR e nas Delegações Regionais, pelo que os azulejos aqui foram ficando, encaixotados e bem guardados num cantinho. Até que hoje, finalmente, veio alguém de Évora cá buscá-los. Ao que parece e, se tudo correr bem, porque não há dinheiro para nada e muito menos na cultura, a ideia é montá-los em suporte móvel de acrílico e talvez voltem para a capela de onde saíram. Espero bem que sim; a ver vamos.

ESPELHO

Apesar de ter aqui na oficina uma série de coisas que posso ir fazendo, ainda ando um bocado às aranhas com aquilo que realmente vou fazer. Tenho dificuldade em organizar o meu tempo quando ele é demais; os dias acabam por ir passando e parece que não faço nada. Quando estou muito ocupada, curiosamente, consigo encaixar um monte de coisas para fazer nos bocadinhos que tenho vagos, embora aí me farte de reclamar que não tenho tempo para nada. Bom, enquanto tento encarrilar para algum lado, vou aproveitar para colar este espelho em madeira e cabedal que uma amiga me pediu para colar. Eu bem lhe disse que esta não era a minha área, mas ela acha que farei sempre melhor do que ela, que é de biologia e canta bem, mas parece que tem pouco jeitinho de mãos…

FAXINA

Para encerrar de vez com o ano passado e antes de pensar o que é que vou fazer a partir de agora, hoje, para variar, decidi ser uma mulher faxinante: depois de ver que as réplicas que fiz saíram todas bem do forno, encaixotei todos os painéis de azulejos que ainda estavam por aqui estendidos no chão; apanhei todos os papelinhos com marcações que eu tinha feito para me orientar; aspirei o taipal e a bancada de trabalho; varri o chão todo da oficina , incluindo escritório e casa-de-banho; limpei a máquina de corte de azulejos (super-Practyl) e deitei fora toda aquela pequena tralha que não serve para nada, antes que o Loubet a visse. Antes de me ir embora ainda vou lavar o chão, para quando voltar na segunda-feira ganhar inspiração para fazer alguma coisa ao ver isto tudo limpinho.

NOVA TENTATIVA

Lá pintei novamente estes azulejos para integrarem uma casa-de-banho… Por um lado, agora é mais fácil acertar as cores, tendo por base os primeiros que saíram mal; por outro, agora estou bastante mais insegura no que diz respeito a esta questão. E depois, o facto de estar aqui na oficina a trabalhar sózinha também não ajuda, às vezes falta-me uma segunda opinião e acabo por andar aqui às voltas com perfeccionismos  desnecessários…

NEVOEIRO

Finalmente! É bastante comum, no Inverno, a vista daqui da porta da oficina ter este aspecto, ou seja, não se ver um boi a três palmos de distância! Quando comecei este blog, ía a Primavera já bem adiantada, de modo que ainda não tinha tido oportunidade de registar este momento e, tirando a humidade por todo o lado, confesso que gosto! Supostamente, ali mais abaixo, atrás dos arbustos, fica a linha do combóio e mais abaixo ainda, costuma ver-se perfeitamente o Tejo e a Ponte Vasco da Gama… Assim sendo, volto para dentro rapidamente, acendo todas as luzes e ponho o cachecol para continuar os meus trabalhos de restauro…

(DES)ARRUMAÇÃO

Por mais que eu arrume, volta e meia esta oficina fica um bocado caótica, acho que é o que dá fazer várias coisas ao mesmo tempo. Neste momento, as bancadas de trabalho mais parecem prateleiras de (des)arrumação e isto é não estando cá os meus ricos colegas, se não é que iria ser mesmo bonito. Bom, de qualquer modo, hoje já despacho mais três painéis com réplicas para a In Situ, sempre é espaço que se ganha, mas tenho de dar uma volta a isto antes de recomeçar a fazer as minhas peças em cerâmica, que têm estado paradas e o Natal a passar-me todo ao lado…

CASA DE FERREIRO…

Como se costuma dizer, em casa de ferreiro, espeto de pau. Tenho este azulejo de fachada lá em minha casa há imenso tempo; tanto, que já nem me lembro como é que ele veio parar às minhas mãos. Gosto muito dele nem sei bem porquê; não é especialmente bonito, mas é feito em pó de pedra, uma técnica caída em desuso, muito comum na extinta Fábrica de Loiça de Sacavém e gosto muito de o ver ali, penduradinho na parede entre outras coisas, poucas, que eu tenho na parede e considero especiais. Há coisa de uns seis meses, ops!, levou sem querer um piparote e estatelou-se no chão de mosaico hidráulico lá da casa-de-banho, que apesar de já ter mais de sessenta anos de existência, não está ainda suficientemente amaciado por quatro gerações de uso. Fiquei chateada com o facto, acho que ainda praguejei qualquer coisa e meti-o bem à vista, a ver se o trazia para aqui para a oficina, ou não faça eu restauro, ainda por cima, de azulejos. Mas para ali foi ficando, até que hoje, finalmente, o trouxe para cá. Quero aproveitar esta semana que estou de folga das réplicas da In Situ, para tratar de pequenas coisas que estão pendentes e nunca mais se resolvem. Como por exemplo, colá-lo.

ARCO-ÍRIS

Para além de outras, uma das vantagens desta oficina é a vista, que muitas vezes me ajuda a arejar as ideias. Anteontem, ao sair daqui, tive a agradável surpresa de descobrir que, se existir mesmo um pote de ouro na ponta do arco-íris, já sei que ele se encontra algures no meio do Tejo, ali no mar da palha. Estou seriamente a pensar em comprar um fato de mergulho e, nos dias sem trabalho, que prevejo virem a ser muitos no próximo ano, posso sempre dar um mergulhinho e procurar por ele, que bem falta me faz… Nunca se sabe, mas se o encontrar, provavelmente não terei de passar nenhum recibo verde, espero que venha todinho só para mim, livre de taxas e de impostos. E não digo nada a ninguém!