De volta à oficina, depois da super-constipação com direito a febre apanhada no Mercado de Natal que fiz a semana passada. Para piorar ainda mais o cenário, o forno grande, onde estávamos a cozer os azulejos para o painel da FCUL, estragou-se a semana passada, ao fim de dez anos a funcionar como deve ser – já estava no seu direito, claro; mas não foi na melhor altura, quando temos o trabalho para entregar até dia 31. Mas enfim; por sorte temos o forno mais pequeno, no qual estamos a adiantar e a enfornar as chacotas (no dobro do tempo…) para as conseguirmos deixar já vidradas e depois, quando o grande estiver arranjado (espero que ainda hoje…), é só vir cá à oficina fazer fornadas de vidrados, dia-sim, dia-não, quase de empreitada. Com um pouco de sorte e mesmo à justa, com Natal e tudo pelo meio, vamos conseguir fazer as quatro fornadas que faltam até ao prazo estabelecido. E talvez ainda mais uma de emergência, para as baixas que apareçam entretanto.
Etiqueta: Painel de azulejos
170
Muito a medo, fizemos anteontem a primeira fornada de chacotas dos azulejos em faiança do painel da Faculdade de Ciências de Lisboa. Digo muito a medo porque não tínhamos a certeza se elas já estariam bem secas, apesar de terem passado mais de duas semanas (três?) desde que as primeiras a serem feitas foram postas ao ar aqui na oficina – mas tem estado muito frio e muita humidade e a secagem, nada. De qualquer modo o tempo está a contar; o painel tem de ser entregue até dia 31 de Dezembro e resolvemos arriscar. A fornada foi muuuuuito leeeeenta e correu bem: abrimos o forno hoje e já temos cerca de 170 chacotas, quase metade da totalidade do painel. E destas, uma boa parte foi vidrada esta tarde e metida novamente no forno para uma fornada de vidrados que irá arrancar hoje às dez da noite. Se tudo correr bem, na sexta-feira teremos os primeiros 80 azulejos do painel prontos.
SECAGEM
Terminámos a primeira etapa da manufactura dos 372 azulejos do painel em faiança que estamos a fazer para a Faculdade de Ciências de Lisboa. Hoje tirámos dos ganapos os últimos 90 que fizemos na sexta-feira e empilhámo-los, tal como os restantes, para a primeira fase da secagem – é que, apesar do frio que se faz sentir na oficina e da humidade que vem do rio, correm o risco de ainda assim, empenarem. E agora é esperar mais uns dias para lhes fazermos os acabamentos finais, depois passá-los para um outro suporte mais arejado e esperar que sequem definitivamente para os podermos enchacotar e passar à fase seguinte. O que era bom que acontecesse lá para o fim deste mês.
A-12
Terminámos hoje a manufactura das chacotas manuais para o painel de azulejos do calendário que estamos a fazer para a Faculdade de Ciências de Lisboa. No último, o A12, correspondente ao dia 31 de Dezembro, esgrafitámos no tardoz o nome da oficina que os produziu – a Tardoz – e os símbolos de quem os executou – Isabel Colher e Margarida Melo Fernandes. Uma gracinha que será encontrada se alguma vez o painel vier a ser levantado da parede.
NOVO PAINEL
Comecei anteontem a produzir aqui na oficina, mais a Margarida, um painel de azulejos para a Faculdade de Ciências de Lisboa e que servirá para assinalar o centenário da sua existência – será inaugurado em Abril de 2013, mas terá de ser entregue até ao fim deste ano. Trata-se de um projecto de uma designer gráfica e que nós iremos não só executar, como também coordenar a montagem e o seu assentamento na parede. O painel representa o calendário e é composto por doze fiadas verticais – os meses -, com trinta e um azulejos cada fiada – os dias; cada dia com um símbolo avulso impresso, ou um azulejo liso a colmatar os meses mais pequenos. No total, 372 azulejos.
Estou muito satisfeita com este trabalho e principalmente com a nova mesa de lastras, oportunamente comprada, que nos permite fazer as chacotas num tempo três vezes mais rápido: a nossa previsão inicial (sem a mesa) de manufacturar um mês por dia, de repente alterou-se para um trimestre diário, ou seja, amanhã acabamos de fazer as chacotas, em quatro dias apenas, em vez dos doze que esperávamos. E o melhor de tudo: sem esforço!
MESA DE LASTRAS
Comprei uma mesa de lastras – finalmente! Aos anos que sonhava com uma, mas ainda são carotas e nunca se proporcionou; de modo que lá fui estendendo as lastras de barro com o rolo da massa e dando cada vez mais cabo dos meus pulsos. Bem sei que não estamos em época de investimentos, mas descobriram-me esta em segunda mão (obrigada pela dica, Tiago) e, apesar de já cá a ter na oficina há algum tempo, só hoje é que a montei – e entretanto tenho andado a fazer as lastras com o rolo da massa e a dar cabo dos meus pulsos. Mas é linda! Toda em ferro, totalmente mecânica e manual, nos antípodas do digital – não se liga a nenhum programa, não tem porta USB nem é um I-Qualquer Coisa – mesmo como eu gosto!!! Até leva massa consistente! Está aqui uma coisa mesmo a sério. Ainda não a experimentei, mas vai já começar a dar um jeitão a partir da semana que vem, quando começar uma produção de um painel cerâmico com cerca de 400 azulejos feitos à mão. E agora só fica a faltar a fieira.
ALICE JORGE E JÚLIO POMAR
Em Julho fui contactada pelo Departamento de Património Cultural e Divisão da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para orçamentar uma intervenção de conservação preventiva num dos painéis – maravilhosos, todos! – da Av. Infante Santo, em Lisboa. Neste caso, tratava-se do painel modernista da autoria de Alice Jorge e Júlio Pomar; em lastimável estado de conservação, com várias lacunas que perfazem já cerca de 600 azulejos (que muito provavelmente se perderam) e outros quantos em risco de destacamento. A proposta visava o registo gráfico pormenorizado do estado de conservação do painel, o seu levantamento integral e posterior tratamento preventivo – consolidações e limpeza. Os azulejos seriam então guardados enquanto não se encontrassem os desenhos dos motivos em falta, as tais 600 lacunas.
Meti-me imediatamente em campo – o trabalho interessava-me, por todos os motivos: contactei quatro ou cinco empresas de andaimes; fui ver e fotografar o painel duas vezes e depois de perspectivar várias abordagens à intervenção e respectivos custos, entreguei o orçamento pedido. Mais tarde, foi-me comunicado que muito provavelmente, à minha proposta inicial, teria de acrescentar também a fase do restauro e assentamento integral do painel – os desenhos tinham aparecido e já se podiam fazer as réplicas. Que eu aguardasse, que no fim de Agosto receberia um novo pedido para execução de novo orçamento.
Como já vamos em meados de Setembro e ainda não me chegou nenhum pedido às mãos, entrei ontem em contacto com o Técnico responsável por este assunto, o qual me respondeu que «infelizmente as notícias não são as que todos nós gostaríamos; as finanças municipais retiraram a verba prevista para a intervenção, a qual será utilizada noutras necessidades.» Mas que talvez para o próximo ano… E pronto; assim está o estado do nosso património. Talvez para o próximo ano a lacuna existente seja já de 900 azulejos e o melhor seja mesmo acabar de vez com aquele painel e alcatroar a parede inteira – que para estradas há sempre dinheiro.
SALA CAMBOURNAC
Terminámos hoje a intervenção de conservação e restauro do painel de azulejos/placas cerâmicas com a assinatura Lino António 1958; na Sala Cambournac do Instituto de Medicina Tropical, em Lisboa.
A intervenção foi realizada em duas fases: a primeira consistiu no faceamento, levantamento de emergência das três primeiras fiadas verticais do painel – que estavam em risco de destacamento da parede, apresentando já fracturas múltiplas, pequenas lacunas volumétricas e algumas falhas de vidrado -, abertura de todas as superfícies de junta e restauro dos azulejos levantados. A segunda, após reparação das paredes e das suas causas de degradação, consistiu no reassentamento dos azulejos – com argamassas tradicionais à base de cal -, limpeza integral do painel, preenchimento de falhas de vidrado e reintegração cromática e pictórica.
As superfícies de junta irão continuar abertas até ao fim do verão e do tempo mais quente; com a quantidade de água que existia nas paredes e com as oscilações térmicas naquele local, é bem possível que ocorra a cristalização de sais solúveis que não queremos que saiam pelos vidrados.
PAINEL TOPONÍMICO
Fui contactada para fazer o restauro deste pequeno painel toponímico em azulejos, pertencente a uma casa particular em Cascais. É lindo! Foi-me entregue neste estado de conservação; nem está assim tão mau, tendo em conta que não faço ideia de quem é que o terá levantado e uma vez que as argamassas dos tardozes são de média dureza – muito provavelmente já se encontrava em destacamento da parede. Para além de três ou quatro azulejos fracturados, uma pequena lacuna, meia dúzia de falhas de vidrado e algumas fissuras para consolidar, o painel não apresenta mais patologias. Nada que não se vá fazendo em paralelo com as experiências de cor para o nº 11 de Sta. Catarina e o relatório da intervenção no Museu Militar.
O SR. CASTRO
O Sr. Castro tem sido uma presença constante e atenta desde o início da intervenção de conservação e restauro dos azulejos do Pátio dos Canhões – o Sr. Castro é motorista de um dos carros pretos e sempre brilhantes que ali costumam estar estacionados e passa muito tempo à espera de ter de ir a algum lado. O Sr. Castro acompanhou todas as fases do trabalho ao longo destes seis meses: o levantamento dos azulejos; a montagem dos painéis no chão; as colagens; a dessalinização; o reassentamento nas paredes; os preenchimentos e agora, a integração cromática. O Sr. Castro é conversador e é também um amante e um curioso destas coisas; ao que parece, percebe de materiais e gosta, ele próprio, de meter a mão na massa e assim sendo, vai falando das «epoxes» e da cal, vai tirando apontamentos e vai dando a sua opinião. O Sr. Castro é muito simpático e prestável; foi graças a ele que fomos visitar a Sala dos Gessos e foi ele que hoje já nos veio dizer que quer organizar um almoço de despedida para a semana que vem, agora que estamos a acabar a obra. O Sr. Castro é um castiço – obrigada por tudo, Sr. Castro, vamos ter saudades suas.









