CONDUTIVÍMETRO

5º dia de dessalinização do painel Ni-2, no Museu Militar. Tal como se esperava, os azulejos estavam cheios de sais e o condutivímetro tem apresentado valores muito elevados – mais de 4000 micro Siemens; o que, para já, obriga a mudanças diárias de banhos. Curiosamente, as filas superiores apresentam valores muitíssimo mais elevados – chegaram aos 8000 micro Siemens – o que corrobora a ideia deste problema, aqui, ser causado principalmente pela infiltração de água vinda da caleira superior em mau estado e também pelo tubo interno dentro da parede, com a manilha partida, que descarregava água constantemente no tardoz dos azulejos; não ascendendo os sais por capilaridade, como tantas vezes acontece. A parede, entretanto, já foi picada até à sua estrutura; a manilha foi substituída; a caleira está arranjada e o novo reboco, à base de cal e areia lavada, já está feito. Agora é esperar que os valores da condutividade dos banhos baixem até serem considerados irrelevantes e os azulejos estão prontos para serem reassentes. O que vai demorar, seguramente, mais umas duas semanas.

PAINÉIS SUPERIORES

Começámos em força o tratamento dos painéis superiores do Pátio dos Canhões, no Museu Militar – começar em força é só uma maneira de dizer, uma vez que não é fácil movimentar o andaime por entre os inúmeros canhões ali colocados, nem fazê-lo chegar perto dos azulejos, contornando os candeeiros e muito menos colocá-lo de modo a que duas pessoas possam trabalhar ao mesmo tempo lá em cima. De qualquer modo e uma vez que os painéis inferiores estão mais avançados, começámos agora em força com os superiores: verificação do estado de adesão dos azulejos às paredes, levantamentos pontuais, consolidação de falhas de vidrado e rectificação de juntas. Felizmente estes painéis encontram-se em muito melhor estado de conservação do que os inferiores, portanto parece-me que a coisa, entre sombra e sol, vai andar depressa…

SAIS CRISTALIZADOS

Depois de vários anos assente numa parede com infiltrações de água vindas de uma caleira superior em muito mau estado e também de um tubo interno, cuja manilha em grés, se encontrava partida sabe-se lá há quanto tempo, era natural que o painel Ni-2 se encontrasse em muito mau estado de conservação. O facto dessa parede estar, ainda por cima, rebocada com argamassas à base de cimento e revestida a tinta plástica também não ajudou e claro que as juntas fechadas e os preenchimentos feitos com massas de elevado grau de dureza também não. Os sais solúveis existentes no corpo cerâmico cristalizaram aos primeiros raios de sol e não tiveram outro remédio senão sair pelas falhas e fissuras dos vidrados dos azulejos ainda na parede; por incrível que pareça, o elo mais fraco para eles saírem, uma vez que todo o painel se encontrava hermeticamente fechado, dando origem a novas falhas e destacamento de mais vidrados. Agora, depois de levantado todo o painel, é vê-los a aparecer nos tardozes e nas superfícies laterais dos azulejos – sempre se evitam danos nas superfícies vidradas. Para a semana, o painel entra integralmente em dessalinização e a partir daí podemos contar com umas três ou quatro com os azulejos dentro de água, medições de condutividade e mudança regular de banhos. Assim mais ou menos como pôr o bacalhau de molho.

ENTRETANTO, NO MUSEU MILITAR.

Entretanto, no Museu Militar, a intervenção nos azulejos do Pátio dos Canhões continua a bom ritmo e mais ou menos dentro do previsto: na fachada Norte, a mais problemática, levantaram-se da parede menos azulejos do que eu estava à espera; em compensação, nas outras todas e principalmente na Oeste, levantaram-se muitos mais do que aqueles que eu tinha pensado. Ou seja, vendo bem as coisas, talvez tenha ficado ela por ela dentro do que estava planeado; na verdade, talvez tenha até derrapado um pouco em relação às minhas previsões, mas graças à minha equipa maravilha (e agora com um elemento a menos), penso que, ao fim de dois meses, estamos ainda muito à vontade com o prazo proposto. De resto, tudo vai: os tardozes estão limpos de argamassas; as colagens estão todas despachadas; o biocida aplicado; foram encontrados inúmeros azulejos e fragmentos em falta, o que veio colmatar muitas lacunas; os registos gráficos estão todos feitos; o assentamento de alguns painéis já começou e muitas superfícies de junta abertas estão já fechadas. Para os próximos dias e para que a coisa siga no bom caminho, temos de contabilizar já o número exacto de réplicas a efectuar; começar o processo de dessalinização do painel Ni2 e fazer os primeiros preenchimentos de pequenas lacunas e falhas de vidrado, que são mais que muitas, nos painéis que já estão mais adiantados. Enfim, ainda há muito pela frente, mas parece-me que está tudo controlado. Assim o bom tempo se mantenha…

DUAS SEMANAS

Faz hoje duas semanas que recomeçou o assentamento dos azulejos lá no 88 e resolvi parar o trabalho pela segunda vez: ou são as paredes que ainda não existem; ou é a solução esperada há dois meses sobre a melhor forma de se assentarem os azulejos no Aquapanel, uma vez que a argamassa tradicional destaca-se com facilidade e o cimento cola está fora de questão; ou ainda o chão que está torto e tem de ser nivelado; ou os tectos que têm de ser montados em Pladur; ou as portas de correr que nem sequer vão andar, ou…. Já para não falar nos belos remates que os estucadores, tão jeitosos, fazem a eito por cima dos azulejos, deixando as superfícies vidradas todas sujas e que a minha equipa investiu algum tempo e esforço para as deixar totalmente limpas na fase anterior – o que eu agora me recuso a fazer de novo. Sou organizada; ok, talvez até demais, mas acredito que só com algum método é que se consegue fazer este trabalho, principalmente quando se trata de assentar cerca de 6000 azulejos, com mais de cem anos, divididos por vários painéis e por vários andares. Neste momento, o 5º piso está com duas paredes por terminar, que ainda não se podiam fazer e passámos para o 4º, onde só duas salas estavam disponíveis. Sugeriram-me então passar para o 3º, mas aqui a confusão ainda é maior e não arrisco a mandar vir mais não sei quantos caixotes de azulejos, que sistematicamente são passados de um lado para o outro, sabe-se lá por que mãozinhas de ouro e assim iria seguir a coisa por ali abaixo, com pontas soltas por todos os lados. E, provavelmente, a minha sanidade mental também.

LINO ANTÓNIO

Acabei de chegar à oficina, coisa que não tenho feito ultimamente. Fui esta manhã ver este painel lindo, de 1958, da autoria de Lino António e que precisa de uma intervenção de emergência. As placas cerâmicas do lado esquerdo começam a destacar-se da parede, que está em muito mau estado e muitas delas já se encontram fracturadas e com pequenas lacunas e falhas de vidrado. São também já visíveis algumas eflurescências salinas que saem pelas superfícies de junta e também alguns escorrimentos calcáreos. Vou agora fazer dois orçamentos; um para esta primeira fase de levantamento das peças em risco e abertura de todas as juntas e o outro para o assentamento e posterior restauro, que aconselhei ser feito apenas depois uma intervenção a fundo na parede e no terraço, que, pelos vistos, são a origem do problema e sem a qual, todo o tratamento do painel terá sido em vão. Assim haja dinheiro para tudo…

DE VOLTA AO 88!

Tal como estava previsto, arrancou na quinta-feira passada o assentamento dos azulejos lá no 88. Tal como estava previsto, a confusão lá no prédio é total. Tal como estava previsto, a obra está atrasada. O que não estava previsto – e aqui ainda me consigo espantar com a minha ingenuidade ao fim de tantos anos de experiência -, era o 5º piso ter tanta gente a trabalhar ao mesmo tempo, quando me tinham prometido que aquilo iria estar pronto para nós e que iria estar tudo limpo para se poderem montar os azulejos no chão e colocá-los na parede sem nenhuns problemas. Mas não; para além de haver entulho e material por todo o lado, o pessoal do pladur andava ainda a construir paredes e tectos, os carpinteiros serravam madeiras e colocavam prumos novos e ainda passava pessoal de um lado para o outro, carregado com baldes de cimento, telhas e sub-telhas. Isto para não falar na poeirada que por ali andava, nem na chuva que às tantas começou a entrar pelo telhado (ou pela falta dele)  e nem na quantidade de rabos que tive de ver, de todas as formas e cores, sem que me pagassem mais por isso. Claro que várias vezes tive de montar painéis no chão e tornar a desmontar; claro que várias vezes tive de gritar «cuidado com os azulejos!», apesar de não me ligarem nenhuma e claro que tive de esperar que partissem uma ou duas paredes que já estavam muito bem estucadinhas até abaixo, sem que ninguém se tivesse lembrado que ali, afinal, levava azulejos. Claro que rapidamente comecei a bufar e a ficar irritada e a usar o meu melhor vernáculo; não é fácil trabalhar num prédio em obras, principalmente quando se é a única mulher no meio de, sei lá, uns 40 homens – trolhas, ainda por cima. Claro que na sexta-feira à tarde saí de lá a pensar que deveria aproveitar os saldos e comprar urgentemente uns sapatos de salto alto, ou algo do género que me fizesse sentir mais feminina no fim-de-semana. Mas isso, infelizmente, não estava contemplado em orçamento.

IGREJA DE STA. LUZIA

Não há fome que não dê em fartura: mais um orçamento que me foi solicitado; agora para os painéis de azulejos da fachada lateral da Igreja de Sta. Luzia, aqui em Lisboa, para entregar até dia 2 de Setembro. Ontem enviei finalmente o do Sr. Roubado e agora ando aqui às voltas para perceber em quanto é que este vai ficar. Tudo isto, claro, entre coordenar os trabalhos do Museu Militar e os do 88, que arrancam amanhã. E mais reuniões e telefonemas e contas e mais contas e facturas para entregar e recibos para receber, com Iva e sem Iva… Ufa, estou uma verdadeira mulher de negócios; eu, que sempre fui medíocre a matemática.

ORGANIZAÇÃO

Está tudo preparado para se recomeçarem os trabalhos no 88. Ontem fui com as minhas colegas Inês e Margarida (excelente equipa!) ao armazém da Tranquilidade, onde estão guardadas todas as caixas com os azulejos que saíram das paredes e, em cerca de duas horas e pouco conseguimos separar todos os painéis pela ordem dos pisos onde agora irão entrar: para o quinto, todos do quinto, mais uns do terceiro e outros do segundo; para o quarto, alguns do quarto, mais alguns do terceiro; para o terceiro, alguns do terceiro, mais uns quantos do segundo; para o segundo, muitos que já eram do segundo e para o primeiro, que não tinha azulejos, vários do segundo e um ou outro do terceiro. Sem esquecer aqueles que de início não estavam contemplados serem levantados das paredes, mas que afinal sempre saíram. E pondo à parte aqueles que não vão voltar para lado nenhum e que irão ficar em armazém à espera de melhores dias. Enfim, no total, cerca de 1750 azulejos, encaixotados e que nós as três andámos a separar e a transportar de um lado para o outro e que deixámos organizados com etiquetas para não haver confusão quando os trolhas os forem lá buscar, piso por piso.

OBSESSIVO/COMPULSIVO

Entrámos na terceira semana de trabalho no Museu Militar. O mapeamento dos painéis inferiores com o registo do estado de conservação dos azulejos está todo feito; os preenchimentos de falhas de vidrado e pequenas lacunas com argamassas inadequadas foram todos removidos – excepto os do painel Ei -2, que eram tantos e tão rijos, que a tarefa é mais morosa e só se faz com a ajuda do vibroincisor -; o biocida está aplicado em todas as fachadas e as juntas estão a ser rectificadas a bom ritmo. Enfim, entre sombra e sol (e chuva ontem!), a minha equipa demonstra mais uma vez ter boa capacidade de trabalho e de organização, e as fachadas Este, Sul e Oeste avançam todas em paralelo, mais depressa do que eu previa. A fachada Norte, a mais problemática, está à espera do Loubet e do Ivo, que vêm directamente do Pinhão, sem passar pela casa da partida, nem receber os dois contos, para levantar integralmente todos os azulejos existentes, que se encontram em péssimo estado de conservação e muitos em risco de destacamento. Graças a esta parede, a minha função nos últimos dias tem sido a de agrupar e organizar fragmentos, numa tentativa obsessiva de encontrar, identificar e aproveitar o máximo de azulejos originais, antes de apurar o número de réplicas exacto que será necessário fazer-se. A coisa não é fácil e muito menos óbvia, os fragmentos são separados por uma lógica qualquer, que passado um bocado é substituída por outra que parece melhor e depois mais outra ainda; mas a verdade é que aos poucos, aos poucos… está quase tudo encontrado!