UMA SARDINHA NO INVERNO

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Há dois anos concorri ao concurso «A sardinha é minha!», da EGEAC, com dois desenhos de duas sardinhas, pintados à mão e ambos baseados na azulejaria tradicional portuguesa. Nenhuma delas ganhou nenhum dos três primeiros lugares – serem a cara dos cartazes das Festas de Lisboa desse ano -; uma nem sequer foi seleccionada, mas a outra acabou por ficar dentro das 150 finalistas e integrar a exposição que foi feita nessa altura. Fiquei satisfeita.

Nunca mais liguei nenhuma a estas sardinhas. Na verdade, nem a estas nem a outras; não tenciono concorrer de novo e para mim este tema estava encerrado. Isso até aqui há uns dias, quando sou contactada de novo pela EGEAC que me comunica que eu – ou melhor, a minha sardinha – tinha sido seleccionada pela Fábrica de Cerâmica Rafael Bordallo Pinheiro para ser integrada numa colecção de 20 sardinhas em porcelana que eles pretendem fazer. Isto, se eu estivesse interessada, claro e se o meu desenho for adaptável à sardinha protótipo deles.

É o que estou a fazer agora; a adaptar o desenho. Com as mãos geladas e o pingo no nariz; a pensar no calor de Junho, com bailarico e cheiro a sardinha assada.

SELECCIONADA!

MEMÓRIA CONCEPTUAL E JUSTIFICATIVA:

Peça quadrangular em barro refractário que contém um cone com uma figura humana no seu interior – Paixão que consome.

A escolha do barro refractário remete para o próprio edifício, para a arquitectura monumental em pedra.

A peça é uma caixa que simboliza a vida onde tudo cabe; os abertos e fechados das faces laterais são os seus alicerces; estacas colocadas meticulosamente cujo ritmo regular confere a ideia de estabilidade, tranquilidade, silêncio.

O cone central concâvo no interior da caixa é a paixão que se instala de repente e quebra a regularidade – o indivíduo entrega-se-lhe compulsivamente e deixa-se levar por um turbilhão ruidoso de sentimentos; os quais, reinando sobre a sua vontade, lhe vão consumindo a razão aos poucos, levando-o à perda da sua individualidade.

Ao ser engolido pelo remoinho que a sua própria tempestade bio-química gera, o indivíduo fica refém da paixão; o azul escuro, cor da profundidade e símbolo do infinito e a espiral branca, um sem-fim com a cor da pureza, mas também do isolamento e até mesmo da morte, sugam-no para o fundo, aprisionando-o dentro da caixa, cujas aberturas laterais remetem agora para as grades de uma prisão.

DOCUMENTAÇÃO DA OBRA

TÍTULO – Paixão que consome

DIMENSÕES – 26cm x 26cm x 18cm

PESO – 5,950 Kg

MATERIAIS UTILIZADOS – Barro refractário, porcelana e óxido de cobalto.

TÉCNICAS UTILIZADAS – Lastras, columbinas, incrustações e forma maciça escavada.

TIPO DE COZEDURA – Atmosfera oxidante, alto fogo – 1270ºC

AUTOR – Isabel Colher

 

ATÉ AQUI TUDO BEM.

  Finalmente consegui virar para cima a minha peça de cerâmica, após quase três semanas na incógnita sobre o que se passaria do lado de dentro! A  primeira fornada correu muito bem – ao menos alguma coisa! – e pude constatar, com agrado, que o homem lá continua de braços abertos e com um sorriso de felicidade na cara; tem bom feitio, claro, fosse eu e não estaria tão contente. A incrustação de porcelana também parece ter aguentado, já tinha feito dois ou três testes de experiências, mas não estava muito segura quanto à coisa. De resto, tudo igual: o que já estava torto, torto continuou; bom teria sido ter-se endireitado pelas artes do fogo, mas assim não aconteceu e pelo menos não piorou… Acabei agora de aplicar o óxido de cobalto (que trabalheira!…) e a peça vai já directinha para o forno, agora sim, para cozer a alta temperatura. E até segunda não quero pensar mais neste assunto!

CONTAGEM DECRESCENTE

Continua a secar a minha peça em barro refractário e porcelana para a Exposição Nacional de Cerâmica Contemporânea. O que eu mais receava aconteceu – as pernas estão todas empenadas, o que me irrita ligeiramente… Tivesse tido mais tempo e este problema teria sido contornado, tinha bastado tapá-las com um pano húmido enquanto todo o resto secava; mas agora paciência, é no que dão as pressas e eu até já sabia. Tenho ainda mais uns dias antes de a enfornar e ainda não estou segura que ela esteja bem seca, apesar do barro já estar com uma tonalidade muito mais clara do que no início. O homem, lá dentro, está há duas semanas de cabeça para baixo, espero que ainda não lhe tenha acontecido nada (o máximo que lhe pode ter acontecido é ter perdido aquele sorriso de felicidade que tinha na cara – o que é normal com qualquer pessoa face a tanta adversidade); nem me arrisco a virar a peça para cima antes de a cozer, estou com medo de partir as pernas, que nesta fase estão bastante frágeis e só de pensar que ainda as tenho de lixar e dar os acabamentos finais, fico logo a tremer, o que não ajuda nada, claro. Bom, o tempo continua a contar e agora é levar isto até ao fim; sempre se aprende mais qualquer coisinha.

PORCELANA

Nem ontem nem hoje fui para o 88, tenho de estar aqui na oficina para ir fazendo a minha peça que está num ponto crítico. Ontem resolvi construir uma cofragem em cartão duro para a conseguir virar ao contrário; as pernas são demasiado altas e estreitas e foi a melhor solução se não quero que haja azares – que ainda podem acontecer.  Tenho de me apressar a trabalhar o interior, que na verdade é o que vai ser o exterior. Estive a fazer uma incrustação com porcelana, que segundo os testes que fiz anteriormente, irá cozer à mesma temperatura que o barro refractário, a cerca de 1250ºC. Provavelmente irá estalar nalguns pontos, os coeficientes de retracção das duas pastas são diferentes, mas tudo bem, vai ser assumido assim.

CHAMINÉ

Ontem fiz uma fornada de alta temperatura para uma colega que me pediu para cá vir cozer uma série de peças de porcelana. Como aqui na oficina temos um contador de electricidade bi-horário, programei o forno para arrancar às 22h, mas como a fornada que ela pretendia demorava cerca de dez horas até chegar aos 1250ºC, esta manhã, quando cheguei, por volta das nove e meia, já ele estava em fase de arrefecimento, mas ainda a 1225ºC. Abri a chaminé e por uns momentos deixei-me ficar ali por perto, a aproveitar o quentinho enquanto pensava o que é que poderia fazer hoje.