ESTAÇÃO DE AVEIRO

Comecei o ano a pintar 24 réplicas de azulejos para colmatarem as lacunas existentes nos revestimentos das floreiras das janelas da antiga estação de comboios de Aveiro.

O conjunto azulejar desta estação, datado de 1916 e produzido na extinta Fábrica de Louça da Fonte Nova, é composto por 28 painéis de azulejos policromos (azuis e amarelos), da autoria de Francisco Pereira e Licínio Pinto, os quais representam cenas ferroviárias, paisagens naturais, figuras populares e actividades tradicionais ou monumentos desta região.

Para além destes painéis figurativos, a estação encontra-se ainda decorada do chão até ao telhado, quer na fachada exterior, quer na fachada que dá para o cais, com uma série de azulejos distribuídos por pequenas cartelas, molduras recortadas e revestimento das floreiras das janelas do andar superior, o que faz com que todo este conjunto seja considerado um prodígio decorativo – e que agora está a ser restaurado.

ESMERALDA

Saíram hoje do forno os últimos azulejos manuais que fiz para o Atelier de Arquitectura Inês Brandão e que irão forrar a chaminé da cozinha de um apartamento que está a ser renovado no centro de Lisboa.

Estou muito satisfeita com este trabalho, é o tipo de encomenda que gosto: quantidade controlada de azulejos – 2m2 apenas -, a qual pode ser feita cuidadosamente e com tons personalizados de acordo com o pedido do cliente. Dentro do orçamento estavam contemplados testes de cores, não só de vidrados, como também de tintas e ainda duas amostras no formato final. E se assim não fosse, nunca me ocorreria utilizar este vidrado tão branco como fundo, nem este verde esmeralda ou azul esmeralda, ou o que lhe queiram chamar – depende do nível de daltonismo de cada um -, pois estou demasiado formatada no clássico azul escuro sobre branco antigo. E assim ficaram lindos!

RELAXADA

Estou quase a acabar de pintar os quinze azulejos com várias ilustrações de plantas do Ártico, que me encomendaram da Finlândia.

Foram-me enviadas fotocópias a cores com os desenhos a reproduzir, os quais tiveram de ser redimensionados para o tamanho dos azulejos – 15x15cm, neste caso -; uns foram aumentados, outros reduzidos e no final cada ilustração é relativamente pequena e tem alguns detalhes que custam a entender.

Confirmei mais uma vez como é importante usar as ferramentas adequadas a cada tarefa que se faz e agora trabalho levemente com a pontinha de pincéis cada vez mais fininhos, que raramente uso; a paleta de cores é aguada q.b., os tons são aplicados por camadas, primeiro os mais claros, depois os mais escuros. Não estou habituada a pintar desenhos assim tão delicados; tento que pareçam o mais natural possível, mas tenho dificuldades – são os pincelinhos, são as cores, as tintas, a escala e o pormenor. No entanto, à medida que avanço de uns para os outros vou compreendendo cada vez melhor o que é que devo fazer e como é que devo fazer; depois relaxo e deixo a mão executar – se calhar, no final, deveria repetir os dois ou três azulejos que pintei no início, mas não sei se vou ter paciência para isso.

 

 

 

LAPIN YLIOPISTO

Ainda estou espantada com as coisas que me acontecem! Alguém me descobriu na Finlândia e ontem recebi uma carta directamente da Lapin Yliopisto, na Lapónia – a universidade mais setentrional da União Europeia -, com 24 ilustrações de plantas que me pedem para pintar em azulejos. Será para a casa do Pai Natal?

1876

Tal como estava combinado, ontem entreguei as oitenta réplicas de azulejos de estampilha que fiz para o coreto do Jardim do Tarro,  em Portalegre, construído em 1876.

O prazo foi apertado e a luta contra o tempo não me permitiu fazer muitos mais testes de cores e fiquei a achar que o branco poderia ser talvez um bocadinho mais acinzentado; o azul escuro não está tão escuro e fundido como o dos azulejos originais e o brilho, pois…; estes azulejos são mais brilhantes, mas tive problemas com as tintas sobre os vidrados mate dos testes que experimentei e achei que era melhor não arriscar com a produção, assim tão em cima da hora, porque depois não havia tempo nem margem para voltar a repetir tudo – ainda para mais, com chacotas 13,5×13,5cm, que já não se fabricam e que já tinha deixado cortadas antes de ir para férias.

De qualquer modo, estou satisfeita; este padrão é muito bonito e apesar de tudo, os azulejos ficaram bem – agora fico a aguardar a fotografia in situ.

 

CORETO

Após uma merecida pausa de três semanas, para descansar e tentar meter a cabeça no lugar, estou de volta à oficina directamente para produzir 80 réplicas de azulejos de padrão para o coreto do Jardim do Tarro, em Portalegre, as quais prometi entregar até dia 6 de Setembro, no máximo. O tempo está a contar e não permite fazer muitas experiências de cores – vou ter de assumir rapidamente o que me parecer o mais semelhante possível; porque depois, entre vidrar as chacotas todas, pintar e cozer, de repente já lá estamos.

Confesso que ainda ficaria de bom grado mais uma semana sem vir cá – o que não é nada normal, apetece-me sempre vir para a oficina! – mas enfim, noblesse oblige.

 

QUARTO DE QUATRO

Terminei hoje o último quarto do painel que tenho estado a pintar para o revestimento de um balcão com quatro metros de comprimento e que tenho de entregar no dia 17 deste mês.

Estou ansiosa para finalmente ver o painel inteiro – vai a cozer esta noite e entretanto tento arranjar espaço para o estender no chão aqui da oficina; confesso que estou um pouco receosa com as transições entre os quatro segmentos, não tenho a certeza se são feitas harmoniosamente ou não. De qualquer modo e, à cautela, daqui a dois dias já vejo resultados e se alguma coisa estiver mal, ainda tenho tempo de a refazer ou aperfeiçoar e entregar tudo no prazo pedido.

 

 

 

AZUL E BRANCO

Às vezes acontece-me isto. Pedem-me um orçamento para a manufactura de um painel de azulejos, com um determinado tipo de decoração e tamanho e até amostras de cor de possíveis vidrados em tons âmbar e depois, afinal, o painel vai ser maior do que aquilo que estava previsto, os vidrados transparentes desaparecem e a decoração pedida passa a ser aquela tradicional, figurativa, a azul e branco – aquela que eu não sei fazer e que normalmente recuso; não sou uma pintora de painéis de azulejos, há quem faça disso a sua vida e o faça muito melhor do que eu.

Mas às vezes acontece-me isto; e não sei bem como, nem de que maneira, mas dei por mim a pintar uma paisagem rural, a azul e branco, num painel de azulejos de quatro metros de comprimento, que ainda por cima não me cabe todo no taipal e que tem de ser pintado em quatro quartos, um de cada vez e que tenho a sensação de ir avançando com o trabalho sem ter bem a certeza do que é que estou a fazer e sempre com medo que saia tudo mal, mas enfim; eu avisei.

 

 

 

CRUA

Acabei de vidrar a primeira amostra das réplicas de frisos em relevo que estou a fazer para o Palácio Nacional de Sintra.

Confesso que, de uma forma geral, estou sempre pouco confiante com a questão dos vidrados e em casos como este ainda mais, uma vez que os mesmos são aplicados com trincha, coisa a que não estou habituada e fico sempre um pouco angustiada com o trabalho, pois não consigo ter noção da espessura das camadas que apliquei, – se demasiado finas, se demasiado espessas. E em ambos os casos temos defeitos de vidrado depois da cozedura.

Enfim, vai ao forno esta noite; resultados, agora, só na segunda-feira. Vou passar o fim-de-semana a fazer figas.

 

 

 

MAÇAROCA E FLOR-DE-LIS

Depois da empreitada que tive no final do ano passado, a produzir cerca de 50 réplicas de azulejos diferentes, com várias tipologias, tamanhos e espessuras para o Palácio Nacional de Sintra, foi-me agora pedida  ainda a manufactura de mais dois exemplares, que não tinham ficado decididos na altura.

Trata-se de uma réplica de um dos elementos do friso de azulejos relevados da Sala Árabe, compostos por duas peças verticais, com uma maçaroca numa flor-de-lis. Tal como a maioria das outras réplicas que fiz anteriormente, não existe nenhum exemplar disponível para ter comigo aqui na oficina, nem retirei nenhum molde do relevo directamente dos azulejos na parede, pelo que a modelação das peças é feita a olho, tentando reproduzir os motivos de modo a que estas se assemelhem o mais possível às originais do séc XVI.

Acabei agora de modelar o elemento superior; o próximo passo é tirar-lhe o molde.