NÃO VOLTAM

A intervenção de conservação e restauro dos cerca de 7750 azulejos que fazem parte do conjunto azulejar dos cinco andares lá do 88, prevê acontecer três coisas distintas: 6368 são para levantar das paredes; 1382 são para manter nas paredes e fazer um tratamento in situ e 5032 são para assentar de novo nas paredes, mas em locais diferentes e até em pisos diferentes dos de onde estavam colocados originalmente. Isto quer dizer que vão haver 1336 azulejos, distribuídos por vários painéis, que não vão voltar para as paredes e apurar quais eles eram foi coisa que ainda deu algum trabalho e me obrigou a olhar com atenção para as plantas de reassentamento de todo o edifício e contabilizar todos os painéis que estão previstos voltar para cada andar, assim como todos os que se irão manter no local, para conseguir, por exclusão de partes, apurar aqueles que ficam de fora. Tudo isto foi feito num serão lá em casa, logo na primeira semana de trabalho em que estive sózinha e apesar do cansaço do dia, parece que ainda não me enganei em nada e tudo tem estado a bater certo até agora.

ENCAIXOTADOS!

Finalmente os primeiros painéis encaixotados! Mandei fazer por encomenda cerca de 500 caixas de cartão à medida dos azulejos para se guardarem os painéis fora do 88 enquanto durarem as obras de remodelação do prédio e antes que eles tenham de voltar para a parede daqui a uns meses. As ditas caixas chegaram na sexta-feira passada e hoje conseguimos encaixotar dezoito painéis  que já tínhamos totalmente prontos – com os azulejos limpos, colados e reorganizados, sem lacunas integrais e com um mínimo de falhas de vidrado. Estes já estão despachados para saírem dali.

Entretanto hoje acabámos também o levantamento dos azulejos do 3º piso; ou seja, agora estamos todos a trabalhar ao mesmo tempo no segundo e último andar. E é um gosto ver o bom andamento do trabalho!

AZULEJO POMBALINO

Isto é um azulejo pombalino, de rodapé, marmoreado a azul e branco. Encontrámos uma série deles iguais a este in-extremis, pouco antes de todo o 5º piso lá do 88 ser totalmente destruído. Como estavam numa fiada única de rodapé, pintados com tinta castanha, passaram despercebidos na inventariação de todo o conjunto azulejar do edifício e por pouco também nos passavam a nós. Há duas semanas que o 5º andar estava dado por terminado, todos os painéis existentes tinham já sido levantados das paredes e foi o engenheiro da obra, completamente por acaso, que percebeu que os rodapés de madeira de duas ou três divisões lá de cima eram, afinal, azulejos. A camada de tinta era de tal modo que nem as superfícies de junta se percebiam. Bom, o caso é que nos dão jeito; vêm colmatar algumas lacunas dos rodapés de outros painéis e também substituir uma data deles que se encontram com fracturas múltiplas e pequenas lacunas volumétricas de corpo cerâmico. Agora a questão é remover esta tinta, uma parte sai com a espátula e bisturi, mas  o resto… não vamos conseguir escapar ao decapante.

DUAS MÃOZINHAS

Não tem sido fácil conjugar o início do trabalho de restauro dos azulejos do prédio nº 88 com as minhas peças; o tempo aqui na oficina tem sido pouco e sempre a ser interrompido. No dia 26 vou participar numa feirinha na Biblioteca Camões e quero levar algum material, claro; não que conte vender muito, mas pelo menos para mostrar o trabalho e dar cartões. Hoje fiz duas mãozinhas, para o pequeno conjunto das pregadeiras em faiança – acho-lhes uma certa piada. São duas mãozinhas direitas, o que me dava imenso jeito aqui para trabalhar, mas estas, por enquanto ainda não fazem nada, estão só à espera de irem para o forno.

CARNAVAL?

Não, não estou mascarada de trolha, hoje iniciei o trabalho de conservação e restauro do conjunto azulejar do prédio nº 88! Lá fui sózinha e correu tudo muito bem! Comecei pelo quinto piso e a ideia é vir de cima para baixo e desimpedindo cada andar para se fazerem as obras de construção civil que estão previstas já sem os azulejos na parede. Hoje estive a verificar as plantas do prédio todo e também as referências dos paineis,  piso a piso, sala a sala e ainda a posição de cada painel dentro de cada sala. Tem de bater tudo certo e ser tudo muito organizadinho, para depois não haver confusão quando os azulejos tiverem de voltar para a parede. Depois de etiquetar todos os azulejos  do 5º andar, segundo a marcação pré-definida, ainda consegui tirar da parede uns noventa, o que está muito bem para trabalho de uma tarde. As argamassas são brandas, o que é um alívio e as juntas também não são complicadas. Portanto, nesta fase, só faltam levantar cerca de 6200 azulejos, ou seja, praticamente  nada…

Nº 88

Após mais de dois anos de espera depois da entrega de um orçamento complexo, pelo qual nem sequer recebi acuso recepção, obrigado; fui há pouco tempo contactada por uma empresa que vai pegar em toda a obra de remodelação de um prédio na Baixa Pombalina. Todo o orçamento relativo a trabalhos de conservação e restauro dos azulejos existentes em quatro pisos tem de ser revisto para se começar a obra em breve. Se o nosso orçamento for adjudicado, supostamente eu, o Loubet e o Ivo, o núcleo duro aqui da oficina, vai ter de levantar das paredes cerca de seis mil e tal azulejos, para posterior tratamento e reassentamento. Como eles agora estão no Pinhão, a 300 Km daqui, com um trabalho que ainda vai demorar mais dois ou três meses, isto vai ter de haver aqui muita ginástica e jogo de cintura. E ainda vamos ter de arranjar uma equipa, claro… Bom, nada que não tenhamos já bastante experiência; não é a primeira vez que somos responsáveis por trabalhos grandes e também já tivemos de desmultiplicar-nos antes, com duas obras ao mesmo tempo. E com organização, a coisa vai.