PRIORIDADES

Pausa no Museu Militar – com este tempo instável, de aguaceiros, vento e frio, é complicado trabalhar ao ar livre, principalmente quando os materiais que utilizamos reagem mal à água e demoram muito mais a secar.

Tenho aproveitado para vir para a oficina; trabalho por fazer aqui não falta e eu não sou do género de ficar em casa. Gostaria de recomeçar a minha produção cerâmica, mas a coisa não está fácil; acabo por gastar o tempo (dispersar-me, segundo o meu colega Loubet) com outras questões que, ao fim e ao cabo, também são prioritárias: papelada para organizar, compras para fazer, e-mails para responder e orçamentos para pensar – e escrever. Têm-me chegado às mãos algumas propostas que me interessam, principalmente para manufactura de réplicas de azulejos, e, se é verdade que a maioria delas fica em águas de bacalhau, também é verdade que estou a conseguir aperfeiçoar mapas de fornecedores, tarefas, horas e preços, cada vez mais descriminados e exactos, que servem de base a facilitar futuros orçamentos. Enfim, um trabalho de sapa – mas alguém tem que o fazer.

ALMOFARIZ

Na sexta-feira fui ao Palácio da Pena mostrar algumas das minhas (muitas) experiências de brancos que fiz para colmatar as lacunas de azulejos existentes no vão da janela neo-gótica da capela. Apesar de ter comigo duas pequenas amostras dos azulejos originais, os tons eram tão diferentes um do outro que a melhor solução foi lá ir, para ver in-situ e com o director do Palácio, qual era a que melhor se adaptava ao local – se é que alguma se adaptava. Foram escolhidos dois tons que já se assemelham muito aos do restante conjunto e a ideia é vidrar uma chacotas com um e outras com o outro, para garantir uma boa vibração tonal daquela zona, que se encontra cheia de luz.

Como estou lançada nisto de fazer experiências de brancos, resolvi pegar nas amostras escolhidas e, a partir dessas, já me ocorreram mais não sei quantas receitas que posso experimentar – podia ficar assim o resto da vida; as hipóteses desmultiplicam-se a olhos vistos.  Vou partir de um vidrado base que temos aqui na oficina, que nunca usamos e que agora se revelou ser o mais adequado para estas réplicas. O saco estava guardado há que tempos e o pó apanhou alguma humidade, havendo alguns torrões que têm de ser desfeitos no almofariz. É uma tarefa um pouco morosa, mas fico com a impressão de ser uma ceramista a sério, parecida com os senhores que vêm nas imagens dos livros de cerâmica que temos aqui na oficina.

BRANCO

Preciso de vidrar catorze chacotas manuais que fiz para integrarem um vão de janela com azulejos alicatados na capela do Palácio da Pena. Uma coisa simples; mais simples ainda,  aparentemente, quando se tratam de azulejos brancos. Pois é precisamente aqui que está o problema: o branco é uma das cores mais difíceis de se obter quando se trata de fazer réplicas. Há o branco azulado; o branco acinzentado; o branco rosado; o branco amarelado e uma séries de outros brancos; com mais grão ou com mais brilho ou mais acetinado. Comecei hoje a segunda leva de experiências de cor – tem de se começar por algum lado e só depois de se verem resultados é que se podem aperfeiçoar os tons – e, já que estou com a mão na massa, aproveito para que fiquem para mostruário, usando placas de experiências feitas para o efeito, em barro branco e em terracota, uma vez que a cor do barro interfere na cor do vidrado. 

E AGORA?

De novo na oficina. E agora? Confesso que tenho andado por aqui um pouco às aranhas a tentar organizar-me sobre o que fazer; não é fácil fazer a agulha, assim de repente, de uma fase cheia de trabalho, para outra mais tranquila. Tenho tratado de papelada – finanças, cartas de apresentação, actualização do currículo e organização de fotografias. Mas os dias vão passando e parece que ainda não fiz nada este mês, ou muito pouco. Aproveitando que tenho de cozer as chacotas para as réplicas dos azulejos alicatados para o Palácio da Pena, resolvi também tratar de umas outras, que fiz com o Loubet já há que tempos, para um possível trabalho que nunca foi para a frente e que para ali ficaram, a secar e a ocupar espaço. São chacotas manuais, de 11X11cm, que nem sei bem para que é que irão servir, mas pronto; ficam cozidas e arrumadas e depois logo se vê o que é que se fará com elas. E sempre se rentabiliza uma fornada, que isto não está para desperdícios.

ALICATADOS

Fui contactada pelo Palácio da Pena para executar algumas réplicas que colmatem uma pequena lacuna existente no vão da janela da capela. Tratam-se de azulejos alicatados, brancos. Fiz as chacotas a semana passada e agora estou à espera que sequem, o que não é fácil,  dada a humidade existente aqui na oficina…

ANO NOVO!

  

Não me posso queixar: entro em 2012 logo a fazer um orçamento. Para um trabalho pequeno, bem sei; mas sempre é um orçamento de conservação e restauro de azulejos e provavelmente será aceite. Trata-se de um hall de entrada de um prédio dos anos 30, com painéis de azulejos figurativos executados na extinta Fábrica Lusitânia – da qual apenas resta a chaminé, conservada no exterior do edifício da Culturgest, ali no Campo Pequeno. O trabalho é simples e não tem nada que saber; o mais complicado ainda há-de ser a manufactura de cerca de catorze ou quinze réplicas de azulejos, que desapareceram (claro está!) e cujas chacotas, em pó de pedra e com aquelas dimensões, já não se fabricam. Mas enfim, nada que não se faça e que não se consiga orçamentar.

EM STAND BY…

Temos os dois trabalhos parados, por motivos bastante diferentes.

No Museu Militar, os azulejos e as réplicas foram já todos reassentes e agora, com as paredes pintadas, o Pátio dos Canhões já parece outro, sem que se vejam grandes lacunas – aparentemente, o trabalho está terminado. Os painéis estão limpos, as superfícies de junta estão fechadas e os preenchimentos, exeptuando os da fachada Norte, estão todos feitos. Falta, no entanto, a integração cromática, a qual é muito complicada fazer-se com o frio que tem estado e o grau de humidade ali existente, principalmente de manhã – temos de nos lembrar que o rio é mesmo ali ao lado e chega a inundar uma das salas mais baixas do Museu. Estamos a pensar usar pigmentos aglutinados em cola; cola essa que reage muito mal com o frio e a humidade, facto pelo qual e de acordo com a fiscalização de obra, se decidiu parar até ao início da Primavera, quando o tempo começar a aquecer um pouco mais. De modo que… arrumámos o estaleiro, metemos tudo na carrinha e trouxemos as coisas todas de volta aqui para a oficina.

No 88… as réplicas estão feitas; os painéis estão todos de volta às paredes; as juntas todas betumadas; as escadas prontas com azulejos «inventados» dos que sobraram – visto que os dali tinham sido roubados quase na sua totalidade; os rodapés colocados e recolocados inúmeras vezes, os azulejos limpos e relimpos e relimpos e re…; os preenchimentos feitos e pintados, apesar de toda a poeirada e porcaria que já devem ter em cima. O que é que falta ainda? Na verdade, pouco; muito pouco, quatro ou cinco painéis do primeiro piso que ainda estão por preencher e pintar e uma tranche que supostamente teria de ser paga nesta altura – após o assentamento – e que teima em não vir, apesar de ter sido aceite nas minhas condições de pagamento.

FACHADA NORTE

Estão de volta à parede todos os painéis de azulejos da fachada Norte, incluindo o Ni-2, que esteve quase cinco semanas em dessalinização e todas as réplicas que foram necessárias fazer. A vista geral do pátio é já muito diferente e nesta fase, com todos os azulejos limpos, juntas fechadas e praticamente todos os preenchimentos feitos, quase parece que o trabalho está terminado – apesar da descoberta de mais um tubo de água todo rachado e com falta de alguns bocados no interior da parede da fachada Este, o que obrigou ao levantamento de não sei mais quantos azulejos que já estavam quase dados por terminados. Mas tudo bem, estou satisfeita com esta intervenção e ao que parece, até à data, o Estado Maior do Exército também.

LACUNAS

   

Finalmente parece-me que estão pintadas todas as réplicas dos azulejos para o 88. Digo parece-me, porque lá no prédio a azáfama continua e cada vez aparecem mais coisas à frente dos painéis – janelas, cozinhas, tábuas de soalho – e não consigo ter e certeza se tirei todos os desenhos de todos os pisos; não me admirava nada se no fim ainda ficassem duas ou três para se fazerem. Tive de pedir ajuda a umas colegas para me pintarem cerca de metade do que faltava – as dos azulejos das tomadas, os quais se optou por serem substituídos por réplicas para não se cortarem os originais – deixando para mim a tarefa de pintar os das lacunas; o que deu algum trabalho, uma vez que os azulejos envolventes se encontram na parede e tive de tirar os desenhos por outros com motivos semelhantes e estar aqui na oficina a pintar através de fotografia, tendo atenção para que as linhas de contorno e manchas de cor batessem certo com as dos originais. Agora é ir lá entregar tudo e verificar se há alguma coisa para repetir, o que espero que não…

DE NOVO NA OFICINA

Enquanto deixo a minha equipa espalhada pelo 88, Museu Militar e Instituto de Medicina Tropical, estou agora de volta à oficina (que está caótica, por sinal…) para começar a fazer as réplicas para o 88. Há dois meses que ando a falar neste assunto, mas pronto; só agora é que finalmente se decidiram a mandar avançar com esta fase, como se se fizessem cerca de 130 azulejos – réplicas, ainda por cima – do dia para a noite: há que tirar todos os desenhos, comprar as chacotas adequadas, fazer experiências de vidrados e tintas, enfornar, desenfornar um dia depois, voltar a fazer ensaios… Enfim, «Isabel, dê prioridade a este assunto!» e lá vai ela, agora, à pressa, meter mãos-à-obra, quando se podia ter feito tudo muito mais tranquilamente…