RETRACÇÃO

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Recebi uma nova encomenda de manufactura de réplicas – desta vez três tipos de azulejos relevados que colmatem as lacunas existentes no revestimento do Arco do Alhambra, no Palácio da Pena.

À primeira vista pareceria óbvio e simples fazerem-se réplicas de azulejos deste tipo – tirava-se o molde do relevo e pronto -, não fosse termos de contar com a retracção do barro durante a secagem e a cozedura ou arriscar-nos-íamos a ter no final uma série de azulejos muito parecidos com os originais, mas consideravelmente mais pequenos – o que não convém nada quando se trata de os integrar na parede.

Assim sendo, não nos restam muito mais alternativas senão sabermos a percentagem da retracção do barro que vamos utilizar e calcularmos com que tamanho devemos modelar o protótipo do azulejo que servirá de base à manufactura das réplicas necessárias.

Foi o que comecei agora a fazer.

CHÃO

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Estão prontos os azulejos para o chão da Capela Manuelina, em Sintra. Por mais experiência que tenha, há sempre algumas questões de trabalho que me continuam a escapar e que não contemplo em orçamento – nunca tinha feito chacotas tão grossas, 15x15x2cm e desta vez não me lembrei que poderia vir a ter problemas para as enfornar na cozedura de vidrados; as gazetes existentes no mercado são feitas para chacotas muito mais finas, para 1cm de espessura no máximo. Como sou engenhocas, acabei por conseguir contornar o problema, mas depois percebi que só conseguia enfornar 24 azulejos de cada vez, metade daquilo que tinha previsto inicialmente. Enfim; esta para a próxima não me vou esquecer. (E acabo de me lembrar agora mesmo, tarde demais, que teria sido giro se em vez de gazetes tivesse usado trempes para empilhar os azulejos dentro do forno – aliás, não era assim que se enfornava no séc. XVI? )

Hoje fui à Pena entregar todas as réplicas que me pediram – estes azulejos para o chão, os relevados com a estrela para o altar e ainda as cantoneiras verdes. Ficaram bem; vim de lá satisfeita, com um sorriso nos lábios e o Sol a bater-me na cara ao longo da IC19.

AZUL E BRANCO

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Comecei hoje mais uma nova encomenda, desta vez cerca de vinte e cinco réplicas de azulejos do séc XVIII – coisa pouca, mas melhor do que nada. Para já, experiências de cor; vidrados base e tintas de alto fogo: três brancos diferentes e seis tipos de azul. Amanhã vão a cozer a 1000º e se nenhum servir, tenho de fazer tudo de novo.

ESCACILHADAS E ENCHACOTADAS

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Estão terminados os azulejos que fiz para uma capela Manuelina, em Sintra e que irão colmatar cerca de vinte lacunas integrais existentes no altar. Pediram-me que entregasse as réplicas apenas em chacota, uma vez que os originais do séc XVI se encontram com inúmeras falhas de vidrado e também com zonas em que este se encontra já muito gasto – e pareceu-me correcto.  E cá estão elas, devidamente escacilhadas e enchacotadas.

ESTRELA

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Estive a modelar e a moldar um protótipo para executar apenas 22 réplicas deste azulejo maravilhoso do séc. XVI, com uma estrela relevada e 8,6×8,6cm e 2cm de espessura – tão simples e tão lindo! Tenho muita sorte por peças destas me passarem pelas mãos e mais ainda por alguém estar disposto a pagar-me para eu ter este privilégio e fazer o que gosto. Foram-me pedidas apenas as chacotas, uma vez que os originais se encontram com inúmeras falhas de vidrado, as quais possivelmente irão apenas ser consolidadas, mas não sei se resisto a não vidrar e pintar uma delas.

SÉC. XVI

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Estou bastante satisfeita: a semana passada foi-me adjudicado um trabalho de manufactura de réplicas de azulejos – lindos! – do séc. XVI, para uma Capela Manuelina; o que resta de um antigo convento em Sintra. Como sempre, o tempo não é muito e pedem-me urgência na entrega das réplicas; mas contra factos, não há argumentos: os azulejos maiores, 60 unidades de 15x15cm, têm 2cm de espessura, o que até não é muito se pensarmos que as cantoneiras, de 25cm de comprimento, têm 3. De modo que, só na secagem, prevejo umas três semanas pelo menos e isto esperando que o tempo se mantenha ameno. Para já, grande azáfama aqui na oficina, na produção de chacotas – as mais grossas que já fiz.

ARESTA-VIVA

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Em Julho passado tive uma pequena encomenda de trinta réplicas de azulejos brancos para colmatarem algumas lacunas existentes numa parede de uma casa linda nas arribas frente a Lisboa. Aparentemente os azulejos são banais e para quem conheça a azularia portuguesa, esta patronagem mourisca em aresta-viva até é bastante vulgar; a questão é que parece já não se encontrar à venda no mercado chacotas industriais com 3mm de espessura e que meçam 14x14cm como as dos azulejos originais.

Tive de fazê-las à mão e depois de algumas experiências de cor, vidrei-as de branco.

DE VOLTA, SEM NUNCA TER SAÍDO DAQUI.

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Terminei finalmente um trabalho grande de manufactura de réplicas que me manteve ocupada desde o início deste ano até agora e sobre o qual falarei a seu tempo. Entre ser operada à mão esquerda – que afinal faz muito mais falta do que aquilo que eu imaginava – e a discrição que me foi pedida, andei um pouco arredada destas escritas, o que, de certa forma me chateou.

Comecei finalmente o restauro destes azulejos que me foram entregues há cerca de um mês e que ainda mal tinha tido tempo de olhar para eles. E são lindos – é pena só ter quatro, apetecia-me fazer réplicas para ver o efeito que o conjunto dava.

IMPERFEITOS

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Terminei já há algum tempo as réplicas dos azulejos da Fábrica das Devesas que me pediram para fazer de modo a colmatar as lacunas de dez frisos de um prédio na Rua da Saudade, em Lisboa. Não fiquei propriamente satisfeita com os resultados: devido a situações várias, não tinha todo o tempo do mundo para me dedicar a este trabalho e tive de geri-lo entre inúmeras outras coisas para fazer, com a agravante de haver uma certa urgência na sua entrega, para assentamento – felizmente o mau tempo deu-me alguma margem de manobra, atrasando a obra.

O primeiro problema com que me deparei foram as estampilhas – demasiado pequenas e delicadas, tive de abrir mais do que as que estava à espera; enganei-me várias vezes, perdi tempo e material e cheguei a irritar-me com aquilo. Pergunto-me como é que eles as fariam na época, mas com certeza que seria da mesma maneira – muita paciência, uma tesourinha e boa vista. Depois, o azul. Os azulejos originais apresentavam um tom liso, sem marcas de trincha; parecia-me um decalque, ou qualquer coisa do género. Fiz algumas experiências de cor e tentei criar o mesmo efeito, com uma pequena esponja – o azul,  aplicado um pouco mais espesso e mesmo com fundente, acabava por borbulhar e aplicado com a trincha, não tão forte, apresentava um efeito mais aguado e translúcido.

Depois o meu forno avariou, a meio de uma cozedura – podia acontecer em qualquer altura, mas não.

Soube que os azulejos originais, datados de 1910, não constam do catálogo de então, com a mesma data. Ao que parece, terão sido uma encomenda especial para este prédio e porquê aqui para esta zona – coração de Lisboa – é ainda mais intrigante, uma vez que as Devesas forneciam, não só, mas principalmente o norte do país. Segundo fui informada, os azulejos que ainda estão nas paredes, tais como os meus, também não pautam pela perfeição: apresentam chacotas de má qualidade, defeitos de fabrico no vidrado e defeitos de pintura, sobretudo nos azuis – “não há dois iguais”.

O que, apesar de não me alegrar, lá me tranquilizou.