Nº 88

Após mais de dois anos de espera depois da entrega de um orçamento complexo, pelo qual nem sequer recebi acuso recepção, obrigado; fui há pouco tempo contactada por uma empresa que vai pegar em toda a obra de remodelação de um prédio na Baixa Pombalina. Todo o orçamento relativo a trabalhos de conservação e restauro dos azulejos existentes em quatro pisos tem de ser revisto para se começar a obra em breve. Se o nosso orçamento for adjudicado, supostamente eu, o Loubet e o Ivo, o núcleo duro aqui da oficina, vai ter de levantar das paredes cerca de seis mil e tal azulejos, para posterior tratamento e reassentamento. Como eles agora estão no Pinhão, a 300 Km daqui, com um trabalho que ainda vai demorar mais dois ou três meses, isto vai ter de haver aqui muita ginástica e jogo de cintura. E ainda vamos ter de arranjar uma equipa, claro… Bom, nada que não tenhamos já bastante experiência; não é a primeira vez que somos responsáveis por trabalhos grandes e também já tivemos de desmultiplicar-nos antes, com duas obras ao mesmo tempo. E com organização, a coisa vai.

QUINTA DE S. VICENTE

Na segunda-feira fui contactada por uma colega de pintura mural para ir ver um trabalho em Telheiras. Trata-se de uma capela particular, na antiga Quinta de S. Vicente, revestida a silhares de azulejos com albarradas e palmitos em azul e branco sobre rodapé duplo a manganês. Os estuques estão em muito mau estado de conservação e os azulejos foram completamente vandalizados, faltando «só» cerca de 270, uma vez que os outros estão bem aderentes à parede, sendo por isso mais difíceis de roubar. A ideia é fazermos um orçamento em conjunto, azulejo e pintura mural, para conservação e restauro de toda a capela. Pela minha parte, o grosso do trabalho será a manufactura de réplicas para colmatarem as lacunas, o qual, com o resto da intervenção, demorará cerca de dois meses e meio a fazer-se. Se o orçamento for aceite, imagino que o trabalho seja para breve. O que me dava um jeitaço!…

PALÁCIO CENTENO

Hoje fui chamada para uma intervenção SOS no Palácio Centeno, em Lisboa, actual Reitoria da Universidade Técnica. Dois dos azulejos dos silhares do átrio de entrada encontram-se praticamente sem vidrado, devido à enorme humidade das paredes, cuja presença de sais já é bastante visível e, mais tarde ou mais cedo, vai acabar por danificar o restante conjunto azulejar. Há dois anos fizemos lá uma intervenção de conservação e restauro dos azulejos, mas pelos vistos os problemas com a alvenaria mantêm-se e assim o trabalho acaba por ser um bocado inglório. A minha missão, agora, é tratar de fazer duas réplicas para substituir esses dois azulejos a tempo do lançamento de um livro no dia 14 deste mês…

FAIANÇA

Acabei finalmente de restaurar este candeeiro em faiança, o ultimo assunto pendente ainda do ano passado. Estive a retocar a integração cromática dos preenchimentos, mas como não trouxe os óculos, estou um bocado com os olhos em bico e parece-me terminado. Pelo sim, pelo não, é melhor depois olhar para ele outra vez e ver se está tudo bem antes de o entregar, mas para já parece-me que sim. E pronto! A partir de agora tenho todo o tempo do mundo para não saber o que é que hei-de fazer…

31 DE DEZEMBRO DE 2010

31 de Dezembro de 2010.  Não posso dizer que este ano tenha sido dos mais famosos: três ou quatro trabalhitos pequenos no primeiro trimestre e mais dois ou três agora no final, o que deu mais ou menos uma média de seis meses de trabalho efectivo e outros seis a puxar pela cabeça a ver como é que me arranjava para ir pagando as despesas correntes lá de casa e aqui da oficina também. Mas nem tudo foi mau: a um tal de Jorge Inácio, dono da Mdf-Cr, uma empresa de restauro que não recomendo a ninguém, para quem trabalhei em Março, numa igreja em Cascais e cujo pagamento ainda continuo à espera, devo o facto de ter iniciado a minha produção cerâmica antes de optar por ir trabalhar para o Pingo Doce, já em desespero de causa e fartinha de certo tipo de restauradores, supostamente sérios, que para aí andam. Obrigada, Jorge! E quando puderes paga-me lá o que me deves, caramba; já lá vão nove meses e o dinheiro faz-me falta. Ainda não vivo da cerâmica, claro, mas gosto do processo criativo e tenho tido alguns elogios, o que me deixa sempre um bocado babada. E enfim, tive experiências novas; fui às feiras medievais; criei este blog (que tão bem me faz à sanidade mental durante as muitas horas que trabalho sózinha) e através dele, conheci pessoas novas e até vou entrar num documentário europeu.

Não posso dizer que este ano tenha sido propriamente bom. Mas também não foi mau de todo… Enfim, não foi bom, nem mau; antes pelo contrário.

NEVOEIRO

Finalmente! É bastante comum, no Inverno, a vista daqui da porta da oficina ter este aspecto, ou seja, não se ver um boi a três palmos de distância! Quando comecei este blog, ía a Primavera já bem adiantada, de modo que ainda não tinha tido oportunidade de registar este momento e, tirando a humidade por todo o lado, confesso que gosto! Supostamente, ali mais abaixo, atrás dos arbustos, fica a linha do combóio e mais abaixo ainda, costuma ver-se perfeitamente o Tejo e a Ponte Vasco da Gama… Assim sendo, volto para dentro rapidamente, acendo todas as luzes e ponho o cachecol para continuar os meus trabalhos de restauro…

ASSUNTOS PENDENTES

Mais uma coisinha pendente já há algum tempo aqui na oficina: um candeeiro de pé alto, todo em faiança, de umas pessoas amigas. Pelo que sei, levou um forte encontrão de uma criança brincalhona e caiu para o lado, partindo-se em vários pedaços. Como pesa bastante e tem um eixo interior em ferro, que agora está um bocado torto, a minha primeira impressão foi que, sózinha, não o conseguiria colar. No entanto, aqui há uns tempos e, com a ajuda do Loubet, lá conseguimos montar umas peças nas outras, um a agarrar por cima e o outro a agarrar por baixo. O mais difícil ficou feito e entretanto nunca mais lhe mexi. Vou aproveitar o balanço de tratar de assuntos pendentes e ver se de uma vez por todas o acabo de restaurar e o despacho de volta para a casinha dele ainda antes do ano novo…

CASA DE FERREIRO…

Como se costuma dizer, em casa de ferreiro, espeto de pau. Tenho este azulejo de fachada lá em minha casa há imenso tempo; tanto, que já nem me lembro como é que ele veio parar às minhas mãos. Gosto muito dele nem sei bem porquê; não é especialmente bonito, mas é feito em pó de pedra, uma técnica caída em desuso, muito comum na extinta Fábrica de Loiça de Sacavém e gosto muito de o ver ali, penduradinho na parede entre outras coisas, poucas, que eu tenho na parede e considero especiais. Há coisa de uns seis meses, ops!, levou sem querer um piparote e estatelou-se no chão de mosaico hidráulico lá da casa-de-banho, que apesar de já ter mais de sessenta anos de existência, não está ainda suficientemente amaciado por quatro gerações de uso. Fiquei chateada com o facto, acho que ainda praguejei qualquer coisa e meti-o bem à vista, a ver se o trazia para aqui para a oficina, ou não faça eu restauro, ainda por cima, de azulejos. Mas para ali foi ficando, até que hoje, finalmente, o trouxe para cá. Quero aproveitar esta semana que estou de folga das réplicas da In Situ, para tratar de pequenas coisas que estão pendentes e nunca mais se resolvem. Como por exemplo, colá-lo.

IMPOSTOS!

Há coisa de duas semanas fui novamente contactada pela Mansão de Marvila para fazer um novo orçamento, desta vez para o restauro dos azulejos do átrio de entrada e corredor adjacente ao mesmo. Resolvi separar os trabalhos e fazer dois orçamentos, um para cada coisa, até porque a tipologia existente em cada lado é diferente uma da outra, sendo os do átrio bastante mais antigos e com problemas mais específicos, que necessitam de uma intervenção mais morosa. Tratam-se de dez silhares de azulejos do séc. XVIII, em muito mau estado de conservação, estando um deles, com cerca de 180 azulejos, em completo risco de destacamento da parede.

Assim sendo, hoje fiz uma pequena pausa antes de recomeçar a fazer as réplicas para a In Situ e tenho estado entretida a fazer os orçamentos, que cada vez ficam mais caros; não por eu estar a ganhar mais, que os meus honorários são sempre os mesmos há que tempos, mas porque tive a agradável surpresa de saber que os meus impostos foram aumentados em um e meio por cento… E isso também entra nas contas. Irra!…

TERMINADO!

Está terminado! Acabámos ontem o trabalho de conservação e restauro dos painéis de azulejos da Igreja da Lousã. Ainda houve uma pequena confusão com o padre, que nos acusou de termos enchido a igreja de pó (o que é verdade) e eu, ao contrário do que ele pensa, ainda estive para lhe dizer que estas coisas não se fazem por obra e graça do Espírito Santo, o que em muito nos facilitaria o trabalho (aliás, nesse caso, nem os azulejos estariam a cair da parede…). Mas enfim, lá me controlei e deixei o Loubet explicar-lhe tudo muito pacientemente com a sua calma habitual… No final acabou tudo em bem e ele ficou satisfeito com o trabalho. E agora, venham os €€€, que muita falta fazem!